Nesse último texto de 2019, resolvi abordar um dos males da nossa pós-modernidade, a ansiedade. Ser ansioso é cada vez mais comum e democrático, atingindo diferentes faixas etárias e classes sociais, sem discriminar ninguém. No período de fim de ano e início de um novo ciclo, os ansiosos lá estão, nervosos com os afazeres a cumprir (depois das brutais compras de Natal vem a ceia de Ano -Novo e, para alguns, férias, o que pressupõe uma grande organização ou mero nervosismo, dependendo de como a ansiedade atinge cada pessoa). E, junto, vem a pressão interna e externa para ter metas concretas para 2020: emagrecer, ter um novo emprego, ser feliz no amor, ser bem-sucedido. 

O ano “em branco”, o porvir, o desconhecido, também podem gerar ansiedade.

E a necessidade de ser feliz nesse período de festas também pode gerar o efeito oposto: melancolia, sentir-se deslocado ou oprimido. Mas como enfrentar tudo isso com o mínimo de serenidade?

No livro Mentes Ansiosas – O medo e a ansiedade nossos de cada dia, a psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa Silva explica, de forma didática e acessível, do que se trata a ansiedade:

“Como tudo em medicina recebe nomes específicos, com direito a sobrenomes, foram denominados transtornos de ansiedade  quando o medo excessivo e,  consequentemente, a sua fiel companheira ansiedade passam a trazer prejuízos expressivos para a vida da pessoa. Os transtornos de ansiedade possuem diversos espectros que variam em grau, intensidade e na forma como se apresentam. Podemos percebê-los em diversas situações, tais como nas lembranças que insistem em nos perseguir após uma  experiência traumática (morte de um parente muito próximo, por exemplo); nas fobias ou no medo intenso de falar em público ou participar de eventos sociais; no temor exacerbado de determinados objetos ou animais […] Também são perceptíveis no terror (pânico) que surge do “nada” e nos dá a sensação de que podemos morrer a qualquer momento; nas preocupações excessivas com os fatos mais corriqueiros e triviais; nos pensamentos obsessivos e comportamentos repetitivos, mais conhecidos como manias, entre outros. […] Em graus variados, quando os transtornos de ansiedade já estão instalados,  inevitavelmente trarão prejuízos significativos para os setores vitais de suas vítimas (vida social, familiar, profissional, acadêmica etc.). Contudo, somente após muito tempo de sofrimento, de peregrinações em vão – entre as mais variadas especialidades médicas e não médicas –, ou quando suas vidas já estão reviradas pelo avesso, é que os pacientes procuram ajuda especializada.”

Já no livro A Terapeuta – Um Romance sobre a Ansiedade, o escritor espanhol Gaspar Hernández  aborda, em um enredo ficcional, a relação de um ator de teatro atormentado por um estresse pós-traumático e sua psicóloga, que o ajuda a manter-se em cena e a tentar lidar com a sensação crescente de ansiedade.  Interessante é perceber que o protagonista no início repele a ideia de fazer terapia, considerando-a como algo desnecessário em sua vida:

“Não tinha sofrido dano algum, não precisava de ajuda psicológica, nunca tinha precisado: suas feridas psíquicas, típicas de um homem normal e corrente, eram exteriorizadas no palco. Além disso, ir a um psicólogo teria significado se analisar, e ele não queria olhar para o próprio umbigo: mais interessantes eram os outros. Nunca antes na história tinha dado tanta importância ao eu: aquilo que gosto, meus amigos, o que penso, o que sinto. No palco precisa se desprender do ego. Se não, estaria  interpretando a si mesmo.”

Uma crise de ansiedade, no entanto, faz o personagem dar-se conta que precisa de ajuda especializada:

“Estava sofrendo um ataque do coração? Estava morrendo? Nunca tinha experimentado nada parecido. A sensação era de irrealidade. A visão do que tinha a seu redor – os pedestres, as barracas de flores, as bancas –, tudo se desvanecia numa  aquarela molhada. Não se lembrava de quantos minutos havia ficado sentado no chão, no meio da multidão. Quando viu que tinha forças para se levantar, foi até uma cabine para ligar para a psicóloga, apesar de ser verdade que, enquanto ligava, estava  pensando que deveria ir ao pronto-socorro, que aquilo não tinha sido nada de psicológico.”

Buscar ajuda de um psicólogo, como fez o personagem do romance A Terapeuta, pode ser um bom caminho para quem identificar-se com eventuais sintomas descritos nesse texto. Na Internet, existem diversos testes para analisar o grau individual de ansiedade mas nenhum quiz substituirá o auxílio especializado. Comece 2020 investindo em autocuidado, algo fundamental nesses tempos tão difíceis que estamos vivendo. 

Imagem: Ansiedade, de Edvard Munch, de 1894

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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