A crise nas grandes livrarias, com pedidos de recuperação judicial e dívidas milionárias com editoras e outros fornecedores, expõe uma faceta até então pouco conhecida do mercado editorial brasileiro. Há algum tempo, as pequenas livrarias acusam a Saraiva e a Cultura da prática de dumping (colocar à venda produtos por um preço inferior ao de mercado). Já as editoras, sofriam com a demora no pagamento por parte dessas gigantes do setor livreiro. 

Pessoalmente, posso dizer que durante a prestação de serviços para uma editora de pequeno porte localizada no Rio Grande do Sul havia muita dificuldade na interação com as grandes livrarias. Desde a falta de interesse em vender nossos livros até a dificuldade na quitação de dívidas. Por outro lado, com muita frequência havia reclamações por parte dos consumidores, se os nossos livros não estavam à venda nos principais shoppings centers da cidade. Parecia de alguma forma ser errado expor a situação claramente para o público: as editoras – especialmente as menores – não tinham grandes vantagens nas negociações com essas duas livrarias, que agora estão expostas no noticiário devido à sua situação financeira.

Apesar disso, não  há unanimidade por parte dos analistas. Alguns falam de uma crise no setor livreiro de uma forma generalizada. Nessa visão, ignora-se que as livrarias de médio e pequeno porte seguem firmes, apesar dos pesares. Um projeto que está tentando ser colocado em prática é o de fixar, por lei, o preço único nos livros, fazendo com que lançamentos tenham no máximo 10% de desconto, para evitar concorrência desleal.

Campanhas online

Recentemente, surgiram duas campanhas online para fortalecer o comércio de livros: #vempralivraria e  #dêlivrosdepresentedenatal.

Sobre essa primeira campanha, destaco a atitude da Livraria Taverna, um dos estabelecimentos independentes mais atuantes nos últimos anos em Porto Alegre. Em uma postagem bem contundente em suas redes sociais, a decisão da Taverna foi aderir à iniciativa, mas deixando claro que as grandes livrarias estão longe de serem vítimas nessa história.

Já a proposta de sugerir livros como presente de Natal não tem como criticar. Já que o consumismo aparece bem exacerbado nessa época do ano, pelo menos que seja um consumo do bem, com produtos que abram a mente e o coração das pessoas.

Sugestões de presentes subversivos para esse Natal

Para “causar” nos eventos em famílias, que tal presentear aquele parente religioso mas que defende a pena de morte com o livro Jesus e os Direitos Humanos? Uma bela iniciativa do Instituto Vladimir Herzog, que merece ser amplamente divulgada.

Para quem tem familiares (ou amigos) com dificuldade de acreditar que o Brasil enfrentou uma ditadura militar, a sugestão é comprar o livro Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva. A obra narra a trajetória de sua mãe, Eunice, que precisou criar 5 filhos sozinha após o marido ser torturado, morto e dado como desaparecido, em 1971. Eunice faleceu na semana passada, no mesmo dia em o AI-5 completou 50 anos.

Para os amigos LGBT bem-humorados, a dica é oferecer o verdadeiro Kit Gay! Sim, ele existe! Ao menos na brincadeira genial proposta pelo selo Galera Record. São 3 romances juvenis de qualidade, com a temática LGBT. Uma ótima forma de sambar na cara dos criadores de fake news!

Sigam o exemplo da Islândia e transformem os livros no principal presente desse Natal!

 

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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