“A  juventude é a grande vítima da repressão à  busca do prazer, […] na liberação fisiológica do amor e do sexo.”

Roberto Freire, em Tesão Não Há Solução,  um sucesso literário do fim dos anos 80

A campanha de abstinência sexual para evitar a gravidez na adolescência proposta pelo governo federal é considerada ineficaz por especialistas. Em princípio, a ministra Damares Alves vinha se posicionando publicamente defendendo o tema. Depois, recuou um pouco nas declarações. Apesar de Damares ter demonstrado estar mais reticente em relação a publicizar a abstinência como uma política governamental, o presidente Jair Bolsonaro não mediu palavras para defender a ministra

“Quando ela fala em abstinência sexual, esculhambam ela. Quem quer? Eu tenho uma filha de nove anos, você acha que eu quero minha filha grávida no ano que vem? Não tem cabimento isso aí. É essa a campanha que ela faz.”

O que Bolsonaro não fala é que políticas públicas que pregam a abstinência sexual como uma forma de evitar que adolescentes engravidem já foram adotadas em outros países, sem sucesso. Tanto que a Defensoria Pública da União recomendou que seja suspensa a elaboração do Plano Nacional de Risco Sexual Precoce. Especialistas alertar que sugerir a abstinência sexual entre jovens não apenas é ineficaz como método contraceptivo mas também acaba gerando aumento de infecções sexualmente transmissíveis nessa faixa etária. 

Além disso, o presidente aproveita um assunto de saúde pública – a gravidez precoce – para atribuir à esquerda e ao PT a responsabilidade pela sexualização excessiva de jovens na sociedade brasileira:

“Essa liberdade que pregaram ao longo (do governo) do PT todo, que vale tudo, se glamoriza certos comportamentos que um chefe de família não concorda, chega a esse ponto, uma depravação total.”

A “depravação total” citada pelo presidente provavelmente se refere a meninas fazendo sexo. Ninguém em sã consciência defende que pré-adolescentes de 11, 12 anos façam sexo. Porém, seria ingenuidade (e alienação) considerar que adolescentes de 16 anos – que já podem votar, por exemplo – não tenham autonomia sobre os próprios corpos. A repressão sexual apontada pelo psicanalista Roberto Freire no trecho que abriu esse texto explica muito do que pretende o atual governo.

Dentro dessa visão, meninas vestem rosa e são virgens, claro. E os meninos? São viris e devem propor sexo para essas mesmas adolescentes, que devem recusar, por serem virtuosas. Porém, se formos seguir a lógica patriarcal e conservadora proposta pelos bolsonaristas, como as adolescentes terão autoridade dentro de um relacionamento para dizer “não” e serem respeitadas? Ou, então, caso resolvam “cair em tentação” e fazerem sexo, como vão se contrapor ao namorado que não quer usar camisinha? Sinto informar a ministra Damares, mas meninas empoderadas e cheias de autoestima assim precisariam ser… feministas! Pois apenas em uma relação com igualdade entre os sexos, a adolescente se sentiria confortável para tomar essas atitudes. 

CAMPANHA DO GOVERNO

Mas o que propõe a campanha lançada em conjunto pelo ministério da Família e pelo ministério da Saúde? Com o título : “Tudo tem seu tempo: adolescência primeiro, gravidez depois”, o projeto não cita em nenhum momento a abstinência como forma de evitar que adolescentes engravidem. Entre as medidas apontadas, está o diálogo com a família e a busca por orientações (e contraceptivos) em unidades de saúde. Porém, a campanha que prega a abstinência sexual ainda estaria em elaboração na pasta de Damares. Seria o Plano Nacional de Prevenção ao Risco Sexual, já criticado pela Defensoria Pública da União.  .

SEXO COM RESPONSABILIDADE

O que não passa pela cabeça dos conservadores, é que possa haver sexo com amor e respeito na adolescência. E desde que os jovens sejam bem orientados (com educação sexual em sala de aula, por exemplo), a gravidez será evitada com o uso dos contraceptivos corretos, assim como as ISTs.  

Como diria o libertário Roberto Freire:

“Uma vez livre das repressões sociais e políticas através do sexo, os jovens descobrem que a sensualidade é a mais clara e intensa, a mais verdadeira e real sensação de estar vivo.”

Concordo com a Damares (e até com o Bolsonaro, vejam só), que a gravidez na adolescência precisa ser evitada. Em geral,  meninas que engravidam nessa idade acabam abandonando os estudos e tendo mais dificuldade para conseguir emprego e renda. Porém, demonizar o sexo, principalmente para mulheres, é uma das armas mais antigas das religiões. Quando isso se mistura com política, o resultado já foi descrito por Freire: 

“Vivendo em sistemas políticos autoritários, aos quais tanto religião como ciência estão ligados, associados e dependentes, a visão trágica da existência é um dos suportes ideológicos mais poderosos e úteis para a sua manutenção.”

E, em tempo, quando Roberto Freire refere-se à que “Sem tesão, não há solução”, ele não prega a depravação na sociedade. Defende que tenhamos tesão pela vida e amor pelo que fazemos. E, claro, espera que sexo seja visto como algo natural e saudável, como deve ser.

Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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