A morte de Jesus, Eça de Queirós

“– Ide! – disse-lhes ele então – vós fazeis da casa da oração uma caverna de ladrões. E com a mão violenta empurrou-os largamente, para além das colunas. Eles iam, tomados de temor. […] Eu olhava, admirado. – Quem é este? – perguntei a João, um galileu, que estava junto dele. […]  – Não o conheces tu? É Jesus de Nazaré, profeta de Galileia!”

O trecho acima é uma releitura da famosa passagem do Novo Testamento sobre os vendilhões do templo. Escrito em 1870 pelo português Eça de Queirós, o conto foi posteriormente incluído na coletânea Prosas Bárbaras. Com uma narrativa em primeira pessoa, A Morte de Jesus nos é contada pelo ponto de vista de um capitão da polícia do templo de Jerusalém. Apesar de ser o responsável por manter a ordem, Eliziel se mostra favorável à expulsão, em um domingo de Páscoa, dos que queriam transformar um local de fé em mero espaço de comércio.

Jesus contra o dízimo?

Nesse sentido, o personagem da prosa de Eça de Queirós admira aquela figura que tomou uma atitude drástica. Apesar disso, permanece com um senso crítico apurado:

“Jesus de Nazaré era-me já simpático e íntimo, pelo sentimento e pela razão. Mas o que era aquele homem? Era um simples visionário? […] Vinha ele pregar contra o imposto e contra o dízimo? 

Um rebelde antissistema

De qualquer forma, a figura de Jesus, seja ela a partir da Bíblia ou de releituras literárias, nos revela uma trajetória repleta de atos de rebeldia e críticas ao sistema. Por isso, me parece até um contrassenso que seu nome seja usado por líderes religiosos que nem disfarçam seus interesses econômicos. Dos primórdios do Cristianismo até agora, pregações repletas de ódio e intolerância foram feitas, supostamente em nome da Cristo. No contexto do Brasil da pandemia, o que observamos é uma resistência religiosa à ideia do distanciamento social para evitar a propagação do coronavírus. 

Cultos em meio à pandemia

Desde março de 2020, há uma pressão para a retomada dos cultos religiosos no país. E nesse sábado de Aleluia, os vendilhões dos templos do século 21 ganharam este presente do ministro do Supremo Tribunal Federal, Kassio Nunes Marques. A decisão, em caráter liminar, libera missas e cultos em território brasileiro, mesmo com a triste marca de 330 mil vítimas da covid-19. O ministro, indicado ao cargo por Jair Bolsonaro, atendeu pedido da Associação Nacional dos Juristas Evangélicos. A Anajure contestava decretos estaduais e municipais com restrições à realização de celebrações religiosas. 

Aglomeração religiosa é essencial?

Conforme Kassio Nunes Marques, “ o momento é de cautela, ante o contexto pandêmico que vivenciamos. Ainda assim, e justamente por vivermos em momentos tão difíceis, mais se faz necessário reconhecer a essencialidade da atividade religiosa, responsável, entre outras funções, por conferir acolhimento e conforto espiritual.”

A fé que fortalece interesses

O que me parece evidente é que Jesus, o revolucionário, jamais estaria alinhado aos que preferem colocar seus fiéis em risco com o objetivo de manter engrenagens religiosas em funcionamento. Quem dera houvesse bom senso dos seguidores da Bíblia para enxergar que ser cristão vai muito além de frequentar templos ou igrejas.  

Imagem: Gerd Alttman/Pixabay

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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