A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.”
Milan Kundera

O incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro parece escancarar o que há de pior na atualidade do país.

A falta de investimento na área cultural, que foi sendo reduzida gradualmente mas que sofreu uma queda mais drástica nos últimos anos. Alguém lembra que uma das primeiras medidas do governo Temer pós-impeachment foi tentar acabar com o Ministério da Cultura?

As redes sociais ensandecidas. Cheguei a ver pessoas defendendo, seriamente, que o fogo havia sido provocado pela esquerda, que quer acabar com a História do nosso Brasil varonil);

E o empurra-empurra das autoridades sobre quem tem responsabilidade sobre o fogo que atingiu um acervo irrecuperável, considerado o maior da área de história natural na América Latina. O Igor Natusch escreveu um texto contundente e necessário de análise do viés político do incêndio;

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Do ponto de vista cultural, não é de hoje todo o setor que sofre com o descaso das autoridades

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A Cultura e a Educação são vistos por grande parte dos políticos como um gasto, não um investimento. E são aplaudidos por uma parcela da população privilegiada economicamente, porém desprovida de visão a longo prazo de onde seremos levados por esses cortes nas duas áreas. Mas o que esperar de uma sociedade em que muitos “cidadãos de bem” acham que visita a museu só vale a pena quando estiverem na Europa? Que peça de teatro boa é apenas aquela com os atores da novela e não com os artistas de sua cidade? Que livros são itens muito caros no orçamento mensal, mas não dispensam trocar de Iphone a cada novo modelo que aparece? Prioridades, meus amigos. Prioridades.

A Cultura e a Educação são o Santiago Nasar, da Crônica de Uma Morte Anunciada, clássico do García Márquez. Todo mundo sabe que estão em risco, mas ninguém com poder se articula de verdade em prol de atitudes concretas pare reverter a situação. É bom lembrar que o incêndio do Museu Nacional não é um caso isolado. Nos últimos 10 anos, situações semelhantes ocorreram em 8 prédios do patrimônio histórico e cultural do país.

Voltando a Milan Kundera, que citei no início desse texto, encerro com mais uma frase que casa tristemente com esse episódio simbólico:

Para liquidar os povos, começa-se por lhes tirar a memória. Destroem-se seus livros, sua cultura, sua história. E uma outra pessoa lhes escreve outros livros, lhes dá outra cultura e lhes inventa uma outra História.”

Milan Kundera – O Livro do Riso e do Esquecimento

Imagem: Reprodução/TV Globo

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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