Escrevo esse texto em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, direto do Rio Grande do Sul, estado brasileiro que optou por não tornar feriado uma data tão significativa. Aproveito o ensejo para falar sobre racismo estrutural, já que muitos brancos insistem em não enxergar a brutal desigualdade racial brasileira, desde os tempos da escravidão até o século 21. Acho importante que uma pessoa que não seja negra toque no assunto, porque evita um dos argumentos mais furados dos racistas velados, que é o suposto vitimismo dos negros quando falam em racismo.

Nessa semana, foi divulgado que a menina Agatha, negra, foi morta mesmo pelo tiro acidental de um polícia militar no Rio de Janeiro. Não havia registro de operação no momento do disparo.  Ela é apenas um dos muitos casos de pessoas negras mortas por balas perdidas da polícia ou ao serem confundidas com criminosos em operações.  Mas quando se fala em genocídio da população negra no Brasil, tem sempre quem reaja contrário à essa ideia. Exemplo disso é o deputado Coronel Tadeu (PSL-SP), que rasgou uma placa de uma exposição no Congresso Nacional sobre o assunto. Ofendeu-se pelos policiais mostrados na imagem que ilustra esse post. Mas como dizer que não existe algo errado quando os negros são 54% da população brasileira mas o percentual de pessoas negras assassinadas no país chega a 71,5%? Veja mais detalhes aqui.

Mas vamos voltar um pouco no tempo.

Na coluna anterior, abordei o fim do império e a proclamação da República. Propositalmente deixei de fora uma questão nevrálgica envolvendo esse período histórico: o fim da escravidão. O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravatura, em 1888. Mesmo sem prever nenhum tipo de compensação para os libertos, o sentimento dos ex-escravos foi de gratidão à Princesa Isabel. Contudo, a elite que ganhava dinheiro com a mão-de-obra escrava, não ficou nada feliz com a decisão imperial, em um momento em que a monarquia brasileira já estava fragilizada por outras questões. 

O movimento republicano ganhou força com apoio de produtores rurais que se sentiam “prejudicados” pelo fim da escravidão. Para se ter uma ideia de como ser republicano na época não era exatamente sinônimo de ser libertário, muitos abolicionistas eram favoráveis ao Império. Após o golpe militar que levou ao início da República, houve quem pressionasse o governo a tomar medidas para amparar a população negra, como a distribuição de terras para ex-escravos. Uma dessas vozes foi o poeta e jornalista José do Patrocínio. No jornal A Cidade do Rio, de sua propriedade, fazia duras críticas ao governo do então presidente (não-eleito) Floriano Peixoto. Resultado por tocar no tabu da falta de indenização aos escravos libertos no Brasil? Patrocínio foi exilado na Amazônia, teve depois seu jornal fechado pelo governo militar e acabou morrendo na miséria.

A tentativa de “passar pano” na dívida histórica brasileira com os negros parece ter raízes nesse momento histórico. Um romance que retrata a sociedade escravagista do século 19 é Um Defeito de Cor, publicado em 2006 pela escritora mineira Ana Maria Gonçalves, após uma extensa pesquisa histórica. O livro aborda a trajetória de Kehinde, que até a infância vivia em Savalu, na África, e acaba sendo capturada e trazida ao Brasil  em um navio negreiro. A obra vai virar minissérie televisiva em 2020. No trecho abaixo, a personagem descreve sua relação com a religião católica e com o que classifica como “defeito de cor”:

Ou seja, eles tinham dúvida se nós éramos humanos e se podíamos ser admitidos como católicos, se conseguiríamos pensar o suficiente para entender o que significava tal privilégio. Eu achava que era só no Brasil que os pretos tinham que pedir dispensa do defeito de cor para serem padres, mas vi que não, que em África também era assim. Aliás, em África, defeituosos deviam ser os brancos, já que aquela era a nossa terra e éramos em maior número. O que pensei naquela hora, mas não disse, foi que me sentia muito mais gente, muito mais perfeita e vencedora que o padre. Não tenho defeito algum e, talvez para mim, ser preta foi e é uma grande qualidade, pois se fosse branca não teria me esforçado tanto para provar do que sou capaz, a vida não teria exigido tanto esforço e recompensado com tanto êxito.

Outro livro que aborda a questão racial é Americanah, da aclamada escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. A obra é uma leitura que pode ser interpretada em várias camadas, ao abordar a história de amor de Ifemelu e Obinze, separados quando a jovem sai da Nigéria e vai estudar nos Estados Unidos. (E acaba depois retornando ao seu país de origem, sendo a “americanah” do título).   Para a abordagem desse texto antirracista, separei um trecho do blog ficcional que Ifemelu mantém quando está em território norte-americano: Observações Diversas sobre Negros Americanos (Antigamente Conhecidos como Crioulos) Feitas por uma Negra Não Americana.

No trecho abaixo, a personagem faz uma postagem direcionada aos brancos, em que é bastante didática ao refletir sobre questões como racismo estrutural, escravidão e o absurdo do termo “racismo reverso”:

Querido Americano Não Negro, caso um Americano Negro estiver te falando sobre a experiência de ser negro, por favor, não se anime e dê exemplos de sua própria vida. Não diga: “É igualzinho a quando eu…”. Você já sofreu. Todos no mundo já sofreram. Mas você não sofreu especificamente por ser um Negro Americano. Não se apresse em encontrar explicações alternativas para o que aconteceu. Não diga: ‘Ah, na verdade não é uma questão de raça, mas de classe. Ah, não é uma questão de raça, mas de gênero. Ah, não é uma questão de raça, é o bicho-papão’. Entenda, os Negros Americanos na verdade não querem que seja uma questão de raça. Para eles, seria melhor se merdas racistas não acontecessem. Portanto, quando dizem que algo é uma questão de raça, talvez seja porque é mesmo, não? Não diga: ‘Eu não vejo cor’, porque, se você não vê cor, tem de ir ao médico, e isso significa que, quando um homem negro aparece na televisão e eles dizem que ele é suspeito de um crime, você só vê uma figura desfocada, meio roxa, meio cinza e meio cremosa. Não diga: ‘Estamos cansados de falar sobre raça’ ou ‘A única raça é a raça humana’. Os Negros Americanos também estão cansados de falar sobre raça. Eles prefeririam não ter de fazer isso. Mas merdas continuam acontecendo. Não inicie sua reação com a frase ‘Um dos meus melhores amigos é negro’, porque isso não faz diferença, ninguém liga para isso, e você pode ter um melhor amigo negro e ainda fazer merda racista. Além do mais provavelmente não é verdade, não a parte de você ter um amigo negro, mas a de ele ser um de seus “melhores” amigos. Não diga que seu avô era mexicano e que por isso você não pode ser racista (por favor, clique aqui para ler sobre o fato de que Não há uma Liga Unida dos Oprimidos). Não mencione o sofrimento de seus bisavós irlandeses. É claro que eles aturaram muita merda de quem já estava estabelecido nos Estados Unidos. Assim como os italianos. Assim como as pessoas do Leste Europeu. Mas havia uma hierarquia. Há cem anos, as etnias brancas odiavam ser odiadas, mas era meio que tolerável, porque pelo menos os negros estavam abaixo deles. […] Não diga: “Ah, o racismo acabou, a escravidão aconteceu há tanto tempo”. […] Finalmente, não use aquele tom de Vamos Ser Justos e diga: “Mas os negros são racistas também”. Porque é claro que todos nós temos preconceitos (não suporto nem alguns dos meus parentes de sangue, uma gente ávida e egoísta), mas o racismo tem a ver com o poder de um grupo de pessoas e, nos Estados Unidos, são os brancos que têm esse poder.  […] Então, depois dessa lista do que não fazer, o que se deve fazer? Não tenho certeza. Tente escutar, talvez. Ouça o que está sendo dito. E lembre-se de que não é uma acusação pessoal. Os Negros Americanos não estão dizendo que a culpa é sua. Só estão dizendo como é. Se você não entende, faça perguntas. Se tem vergonha de fazer perguntas, diga que tem vergonha de fazer perguntas e faça assim mesmo. É fácil perceber quando uma pergunta está sendo feita de coração. Depois, escute mais um pouco. Às vezes, as pessoas só querem ser ouvidas. Um brinde às possibilidades de amizade, de elos e de compreensão.”

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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