Atenção: O texto contém spoilers do enredo da série Cidade Invisível

O apagamento dos povos indígenas da primeira temporada de Cidade Invisível foi abordado por aqui, na semana passada. Nessa segunda parte do texto, pretendo demonstrar o quanto a produção poderia ter sido ainda melhor se tivesse dado destaque à questão indígena. Para entendermos a importância dos povos originários para o folclore brasileiro, a Literatura pode ser um bom caminho. Afinal, as lendas e mitos, que são o principal destaque da série da Netflix, são muito presentes na cultura indígena. 

Preservação ambiental

Em primeiro lugar, é importante enfatizar como os relatos orais indígenas têm uma conexão evidente com a trama apresentada na série, por valorizarem a preservação da Natureza. Claro que, apesar de não haver ênfase à questão indígena, os personagens de Cidade Invisível acabam cumprindo a função de defensores da floresta. Mesmo o Boto, personagem folclórico mais conhecido por seduzir mulheres, aparece, no enredo, defendendo a permanência dos moradores na Vila Toré, localizada próxima à cidade do Rio de Janeiro, e alvo de especulação imobiliária.

Realidade mais ameaçadora

Porém, me parece que os roteiristas perderam uma boa chance de falar sobre as ameaças reais aos povos originários. Como sabemos, os indígenas são vítimas de evidente perseguição desde o início do governo Bolsonaro. Para fazer essa conexão, bastaria ter como centro de ação da série a Amazônia ou o Pantanal, onde a extração ilegal de madeira e o garimpo geram grandes conflitos. Essa contextualização à realidade brasileira poderia trazer ainda mais interesse internacional, já que muitos países estão atentos à preservação de aldeias e da cultura indígena. Imaginem o Curupira, por exemplo, interagindo com uma tribo indígena? 

Sugestões literárias

Enquanto seguimos no aguardo da segunda temporada de Cidade Invisível e na esperança de que haja mais protagonismo indígena, selecionamos algumas obras para melhor compreensão do folclore dos povos originários do Brasil.

Nós – Uma Antologia de Literatura Indígena

Dez autores de diferentes nações indígenas participam desta antologia. As histórias narradas nesta publicação vão da origem do mundo ao amor impossível. Os relatos demonstram a profundidade e diversidade de temas envolvidos na literatura de autoria indígena. Os autores são das nações Mebengôkre Kayapó, Saterê-Mawé, Maraguá, Pirá-Tapuya Waíkhana, Balatiponé Umutina, Desana, Guarani Mbyá, Krenak e Kurâ Bakairi.

Vozes Ancestrais – Dez Contos Indígenas 

A obra é de autoria do professor e escritor premiado Daniel Munduruku, pertencente à etnia indígena Munduruku. Nesta publicação, o autor coletou e transcreveu contos tradicionais de dez povos originários. O resultado é um apanhado de tradições e crenças, em histórias que falam sobre elementos da Natureza.

Lendas e Mitos dos Índios Brasileiros

O livro foi escrito e ilustrado por Walde-mar de Andrade e Silva, a partir da vivência de 8 anos com indígenas da região do Xingu, no norte do Mato Grosso. No total, são 24 histórias, entre elas a que narra a lenda da Iara, uma das personagens presentes na série Cidade Invisível

Sehaypóri – O livro sagrado do povo saterê-mawé

A publicação é uma homenagem aos pajés dos saterê-mawê, povo indígena que habita a região do Rio Amazonas. O autor da obra, Yaguarê Yamã, é  professor, formado em Geografia em uma universidade de São Paulo, e atuante do movimento indígena no Amazonas. Sehaypóri foi selecionado pelo catálogo White Ravens para a Biblioteca de Munique e a Feira de Bolonha, um dos eventos de literatura infantojuvenil mais reconhecidos mundialmente.

Para conhecer outros títulos de literatura de autoria indígena, clique aqui. 

Imagens: Netflix/Divulgação

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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