Atenção: O texto contém spoilers da série Cidade Invisível

Cidade Invisível, da Netflix, é um sucesso no Brasil e em outros 60 países. Mas também gerou controvérsia ao não dar destaque aos povos originários no roteiro, elenco e equipe de produção. O fato gerou críticas de lideranças e ativistas indígenas. A releitura do folclore brasileiro realmente dá poucas explicações sobre a origem de personagens como Saci, Iara, Curupira e Boto. Mas a Literatura pode ser um bom caminho para compreender melhor as lendas e mitos citados na série e ir além no assunto.

Oportunidades perdidas

E havia possibilidades no roteiro para mais explicações ao público a respeito do tema. Um exemplo disso são as cenas de Luna com o livro de folclore, que poderiam ter sido usadas como uma forma de detalhar as lendas do Saci e do Curupira. Ao invés disso, houve a opção por um lugar-comum de mostrar a conhecida história da armadilha para prender o Saci. Além disso, o livro usado como elemento cenográfico também mostra desenhos de um saci negro, sem nenhum tipo de esclarecimento a respeito. Porém, vale lembrar que essa é a versão mais consagrada do personagem, em função de adaptações como a do Sítio do Picapau Amarelo. Por outro lado, não há qualquer menção no roteiro de que a lenda do Saci foi criada pelos guaranis, no Sul do Brasil. Incorporando, depois, elementos da cultura africana. Essa origem é consenso entre os pesquisadores, como podemos ver aqui.

Origens pouco conhecidas

Já o Curupira é um dos mitos mais antigos do Brasil, tendo relatos escritos a respeito de sua história desde 1560. Sua origem é, indiscutivelmente, indígena. Assim como a Iara e o Boto, que são lendas criadas por tribos da Amazônia. Como esses personagens em Cidade Invisível foram parar no Rio de Janeiro? Pelo menos até agora, não sabemos.  

Mas também há críticas injustas. Como ao fato de a Cuca não ser caracterizada como um jacaré. Essa confusão é gerada pelas adaptações televisivas do Sítio do Picapau Amarelo. Porém, de acordo com o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo, a descrição física da cuca não é um consenso dentro das origens ibéricas da lenda. Conforme a publicação, ela seria uma versão feminina do bicho-papão. Além disso, suas histórias variam de acordo com a região brasileira. Em Pernambuco, é descrita como uma mulher velha e feia, uma espécie de feiticeira. O que parece unânime é que dificilmente a Cuca seria uma mulher linda e sedutora como Alessandra Negrini, mas a atuação (e beleza) da atriz compensam sua escolha no elenco.    

Tutu Marambá

Com essas ressalvas, estou longe de dizer que não houve pesquisa na produção de Carlos Saldanha (criador de sucessos de animação como A Era do Gelo e Rio) e para o roteiro assinado  por Carolina Munhoz e Raphael Draccon. Tanto é que a série traz à tona as lendas de Tutu Marambá e Corpo-Seco, personagens pouco conhecidos do grande público. Eles são mencionados no Dicionário do Folclore Brasileiro, uma das publicações mais consagradas no país sobre o tema, que teve a primeira edição em 1954. Luís da Câmara Cascudo aponta que Tutu é um assombrador de crianças, uma espécie de bicho papão citado em cantigas e acalantos infantis, como a Cuca. De acordo com Cascudo, “há vários tutus espantosos, tutu-zambeta, tutu-marambá, tutu-do-mato.” Sua transformação em porco do mato tem origem no folclore da Bahia. 

Corpo Seco

Já o vilão Corpo Seco é “um homem que passou pela vida semeando malefícios […] Ao morrer, nem Deus nem o Diabo o quiseram, e a própria terra o repeliu enojada de sua carne, e um dia, […] da tumba se levantou [….] vagando e assombrando os viventes na calada da noite.” É um mito de origem europeia, a partir da crença de que cadáveres de seres humanos amaldiçoados não seriam desfeitos pela terra. Por isso, o corpo ficaria seco. Como são almas penadas, vagam pelo mundo, atormentando os vivos. Sendo assim, ainda é um mistério porque o Corpo Seco da série é um perseguidor de seres míticos, ao invés de ser um inimigo dos seres humanos.

Mérito inegável

Os produtores da série ainda não se pronunciaram sobre as críticas à falta de representatividade indígena . Torço para que a segunda temporada de Cidade Invisível traga mais elementos que expliquem as origens das lendas brasileiras. De qualquer forma, há o mérito indiscutível de despertar o interesse geral sobre o assunto. E, para mostrar que os mitos e lendas brasileiros vão muito além do apresentado na série, na semana que vem trarei algumas sugestões de leitura. Selecionei livros de autoria indígena ou de pesquisadores que tiveram contato direto com tribos indígenas. Aguardem!

Imagens: Netflix/Divulgação

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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