A grande mídia enfrenta, há algum tempo, uma crise de credibilidade perante uma parcela da sociedade brasileira. Enquanto isso, a maioria desses jornalistas insiste em tentativas frustradas de manter uma isenção falaciosa diante de fatos que possam denunciar posições políticas ou ideológicas. Porém, a verdade é que essa atitude pouco tem contribuído para mudar a opinião de espectadores de diferentes espectros políticos a respeito da atuação da imprensa.  E, ao conferir o noticiário a respeito dos protestos contra o governo Jair Bolsonaro no último sábado, a suposta isenção jornalística ficou gritante para mim.

Grande mídia isentona

Um exemplo assisti ao vivo na Globonews. Na emissora do grupo Globo, um jornalista, em tom de voz monótono, narrava as manifestações que foram realizadas em diversas cidades brasileiras. De forma protocolar, o repórter observava apenas se os manifestantes tinham ou não feito aglomerações. Depois, ressaltou que usavam máscaras, em sua maioria. Porém, o motivo dos protestos – a falta de vacinas para a população durante uma pandemia e um auxílio emergencial mais consistente do que o valor atual – não renderam observações mais elaboradas, comentários ou reportagens adicionais.

A escolha pela omissão

Mais grave ainda é o caso dos jornais O Globo e O Estado de São Paulo. Em uma escolha editorial para lá de questionável, decidiram não noticiar os protestos contra o governo nas capas de suas edições dominicais. Nas redes sociais, o episódio foi comparado à atitude da Rede Globo, na década de 1980, ao tentar ocultar dos telespectadores as manifestações pelas Diretas Já.  A diferença, no século 21, é de que com a instantaneidade da Internet é muito mais difícil esconder informações do público, passando a ser uma decisão ainda mais arriscada em termos jornalísticos.

Não precisa ser militante

Não estou aqui dizendo que os jornalistas dos veículos tradicionais de comunicação deveriam usar camisetas escritas “Fora Bolsonaro” ou serem claramente militantes em protestos. Porém, este é um momento histórico no qual a imprensa brasileira é massacrada por um presidente da República, Além disso, esta atitude lamentável conta com o apoio irrestrito de seus seguidores. Por isso, talvez seja a hora de usar as técnicas de jornalismo a favor do esclarecimento de fatos. Não é preciso declarar ser contrário a Bolsonaro. Mas demonstrar, através da verdade, os absurdos de um governo irresponsável. 

Existem acertos na grande mídia

Acompanhando a cobertura televisiva, dos grandes portais e da imprensa hegemônica a respeito do noticiário político em tempos de pandemia, não observo apenas erros. A Folha de São Paulo, por exemplo, colocou como manchete as manifestações, destacando a grande adesão em todo o Brasil. Porém, de uma forma em geral, em se tratando de atos promovidos por movimentos sociais e partidos de esquerda, seria urgente que os grandes veículos da imprensa dessem o braço a torcer e noticiassem essas manifestações de forma ampla. 

 No fim das contas, a minha crítica não é dirigida aos colegas de profissão. Pois a verdade é que existe um sistema consolidado de interesses comerciais e políticos na grande mídia, assim como em praticamente todas as empresas de grande porte. Contudo, algo precisa ser feito para alterar essas estruturas, pela sobrevivência do bom jornalismo.  

Uma nova ética é necessária

Nesse sentido, concordo com a visão do professor de Comunicação e jornalista Bernardo Kucinski no livro Jornalismo na era virtual – Ensaios sobre o colapso da razão éticaNo capítulo Uma nova ética para uma nova era, ele relata um incidente ocorrido durante a aula de um curso de pós-graduação. Quando comentou sobre a necessidade de ética jornalística na rotina das grandes redações, teve uma surpresa. Imediatamente, foi rechaçado pelos alunos, profissionais formados há cerca de 10 anos e atuantes no mercado:

“O mote geral era que eu estava exigindo posturas irreais, que em todas as redações o jornalista tem que fazer o que o patrão manda e o que a publicidade manda. E choveram relatos pessoais de incidentes de supressão de matérias, de opiniões, de trechos de pautas. […] Era a revolta de toda uma categoria contra a exigência de uma ética. Perguntei a eles: qual a diferença entre um médico que mata e um jornalista que mente? Ofendidos,  não responderam.”

Uma mudança de atitude 

Kucinski prossegue descrevendo o debate com seus alunos e conta que estes argumentaram precisarem ser jornalistas deixando, muito vezes, a ética de lado:

“Por necessidade de sobrevivência não sendo deles a culpa, e sim do sistema. […] Disse [a eles] […] que era um equívoco pensarem que a violência intelectual que cada um deles sofria no dia a dia das redações não teriam consequências de longo prazo.” 

Código de Ética

É sempre importante lembrar da existência do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. No capítulo 2, o artigo de número 6 destaca, como um dos deveres da profissão:

“opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos.”

Por isso, defender a vacinação em massa contra a covid-19 e os protestos que exigem essa medida de saúde pública para os brasileiros deveria ser um dever de todo o jornalista. 

#forabolsonaro #vacinaçãojá  

Imagem: Ricardo Stuckert / Site Imagens Públicas

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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