“A gente quer comida, diversão e arte”, trecho da música Comida da banda Titãs, resume o que o povo brasileiro merece a partir de 2023, com um resultado favorável no segundo turno das eleições presidenciais. Afinal, a fome no Brasil bolsonarista não é  metafórica, atingindo mais de 33 milhões de pessoas.

O Vós produziu o áudiodocumentário O Retrato da Miséria, ainda em 2021, alertando sobre esse grave problema.

Sendo assim, defendo a Arte e a Literatura neste espaço longe de estar desconectada do grave momento no qual vivemos, com cada vez mais pessoas revirando lixo pelas ruas em busca de algo para comer. Porém, discordo de integrantes da esquerda que hostilizaram escritores por se posicionarem nas redes sociais tendo em mãos o símbolo da Literatura. 

“L com Livros”

O novo alvo de “fogo amigo” foi a campanha “L com Livros”, em que 109 autores da editora Companhia das Letras apareceram em vídeos abrindo livros para formar a letra inicial do nome do candidato Lula. Na mira da raiva esquerdista, nomes como Laerte, Fernanda Montenegro e Chico Buarque. Em um dos vídeos, também estava Jeferson Tenório, escritor reconhecido por enredos onde o racismo e a violência policial são abordados de forma profunda e necessária. Seria ele um alienado? É evidente que não!

Porém, tiveram muitos esquerdistas nas redes sociais ofendendo quem participou da campanha, chamando de cirandeiro e elitista. Só que estas alegações se somam ao ódio já esperado de setores da direita bolsonarista. Dentre eles, o jornalista Rodrigo Constantino, que propôs um boicote aos livros vendidos pela Companhia das Letras. Em tempos de tantas perseguições, seria interessante parar para pensar que uma empresa se posicionar abertamente a favor de Lula é um ato corajoso e que pode, eventualmente, trazer prejuízos financeiros. Então, qual o motivo de tantas críticas do espectro ideológico que deveria defender a Cultura?  

“Comida, diversão e arte”

Para completar, é bom lembrar que gravar um vídeo fazendo um “L com um Livro” é algo muito rápido. Além disso, ter aderido à campanha não significa deixar de fazer parte de ações práticas para ajudar quem precisa de apoio diante de um cenário de crise econômica e social.

Por isso, vou indicar 2 projetos que se dedicam a minimizar a fome, promover a dignidade e incentivar a leitura.

O CQM+, projeto social do grupo artístico Cuidado Que Mancha, promove ações contínuas para arrecadação de alimentos e roupas em diversas regiões de Porto Alegre (e algumas cidades próximas). Um dos destaques da iniciativa é o “Mãos de Mães”, atividade realizada com mulheres desempregadas de comunidades periféricas da capital gaúcha, que tem acesso a uma semana de oficinas e orientações sobre empreendedorismo. Saiba como apoiar.

Já o Cirandar é uma entidade que promove projetos pautados na educação como ferramenta de transformação social. Dentre as iniciativas, a democratização do acesso ao livro. Os integrantes da ONG consideram que a leitura um direito humano essencial para a conscientização e o empoderamento das pessoas. Saiba como ajudar.

Cirandeiros, uni-vos

Além disso, me posicionei anteriormente a favor da alegria cirandeira. Pois se de um lado existe ódio, granadas e armas, do lado de cá da trincheira precisamos ter leveza, amor, arte e livros. E, comida, claro. Afinal, quem não quer comemorar a vitória do Lula nas eleições neste domingo com a refeição de sua preferência?

Histórico da canção Comida
A música, composta por Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sergio Brito foi lançada em 1987. O período era de redemocratização política. A letra, portanto, representava a fome de cultura, diversão, felicidade e também de democracia. 
Imagem: Instagram/ Reprodução  


 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br