Caro Luis Fernando Verissimo,
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desculpe a ousadia em te escrever. Mas os tempos andam tão estranhos que tem gente por aí dizendo que não houve ditadura militar no Brasil. Foi então que lembrei da Velhinha de Taubaté. Esse personagem emblemático, criado em 1983, talvez seja uma forma de as pessoas recordarem que existia corrupção e roubalheira nos anos de chumbo. Que a vida não era essa maravilha idealizada por saudosistas [possivelmente] mal intencionados e jovens sem interesse por livros de História, essa com H maiúsculo que muita gente diz não servir pra nada.
Fui pesquisar a primeira crônica escrita por ti, Verissimo, lá na época do Figueiredo no poder e deu para ver que a desesperança já estava presente nos nossos corações, combalidos por tantos golpes de Estado ao longo dos tempos:
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A velhinha de Taubaté é o último bastião da credulidade nacional. Ninguém acredita mais em nada nem em ninguém no pais, mas a velhinha de Taubaté acredita. Se não fosse pela velhinha de Taubaté, o país já teria caído, não no abismo, mas na gandaia final, sem disfarce. Mantém-se uma fachada de respeitabilidade para beneficio da velhinha de Taubaté.”
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Eu sei que em um momento de total indignação com a política, Verissimo, tu resolveste matar esse símbolo da ingenuidade. Mas o que acontece é que em 2005, período das denúncias do Mensalão, a gente não podia imaginar que aqui em 2018 as coisas ficariam tão mais complicadas. Que as pessoas voltariam a falar em ameaça comunista e a gente tivesse uma disputa presidencial com candidatos tão nonsense quanto em 1989 – ou mais. O que mais me entristece é que lá naquela tua primeira crônica, já havia sinalização de que o Brasil seria bem pior sem essa personagem:
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Não dá para imaginar o que acontecerá no país depois que a velhinha de Taubaté se for. Tem-se a impressão de que o Brasil só espera o sinal da morte da velhinha de Taubaté para decretar que a bagunça está mesmo decretada, que não tem nada que ficar dando explicação pra otário.”
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No fundo, caro escritor, o que a gente precisa mesmo é da tua ironia para conseguir lidar com essas eleições. Nos ajuda, Verissimo!!
Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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