As mulheres ainda são minoria no mercado editorial brasileiro, seja entre autoras publicadas, editoras e demais profissionais do setor. Sem dúvida, a falta de representatividade feminina na literatura brasileira é um reflexo da sociedade patriarcal na qual vivemos. A partir de uma visão machista, obras escritas por homens são consideradas universais, enquanto títulos de autoria de mulheres são colocados em um nicho. Neste raciocínio equivocado, livros  de autores homens seriam destinados a todas as pessoas. Já as obras produzidas por mulheres, atingiriam apenas o público feminino. 

 Mulherio das Letras

Buscando ampliar a participação no mercado editorial, muitas mulheres têm se organizado em coletivos que tem como  objetivo o fortalecimento e projeção da literatura de autoria feminina. Um deste grupos é o Mulherio das Letras, criado em 2017, e que atualmente conta com mais de 7 mil seguidores no Facebook. Ao longo dos anos, foram sendo criados grupos regionais em diversos estados brasileiros e também no Exterior, mostrando a potência da articulação feminina e feminista.

A principal meta do grupo Mulherio das Letras nas redes sociais é fomentar a divulgação de obras escritas por mulheres. E foi lá que tive o contato inicial com a poeta paraibana Anna Apolinário. Anna, que também é produtora cultural e organizadora do sarau Selváticas, me enviou informações sobre seu livro mais recente, A chave selvagem do sonho

Anna Apolinário

Ao terminar a leitura da obra, me vieram à mente os adjetivos forte e visceral. Pois são poemas que demonstram a coragem do desnudar-se, do inebriar-se por sonhos e vontades, em uma demonstração libertária que sabemos ter sido sistematicamente negada às mulheres.  Do livro, destaco trechos do texto Carta à Sylvia Plath, que homenageia a escritora norte-americana, considerada uma referência na poesia confessional e que morreu tragicamente, ao suicidar-se, em 1963. 

“Carta a Sylvia Plath
Estamos em 2018, Sylvia, o céu desaba sob minhas pupilas, pelo quarto ecoa o gemido da guitarra de PJ Harvey, no viço de meus trinta anos, me perfumo com feromônios ofídicos e continuo pensando em ti, por isso te escrevo. […] O mundo hoje é ainda um emaranhado terrível, Sylvia, gosto de me fechar dentro de teu poema, beber tua voz, um vinho hipnótico e obscuro, sentir a tremenda embriaguez dos sentidos, teu canto hediondo de sereia.”

Para saber mais informações sobre A chave selvagem do sonho, clique aqui.

Homenagem à Marielle Franco

Além de lançar obras individuais, Anna Apolinário também costuma participar de antologias coletivas, como Um girassol nos teus cabelos – poemas para Marielle FrancoO livro reuniu 50 poetas em uma iniciativa do grupo Mulherio das Letras publicada pela Quintal Edições. 

Encerro este texto com o poema de Anna Apolinário em homenagem à vereadora assassinada em março de 2018, em um crime que precisa ser urgentemente esclarecido.

Mulher, 

Aniquilam-te o corpo

Derramam teu sangue

Covardemente

Mas em teu nome

Nenhum talho

Tua luta, tua ideia, tua voz

Pulsam

Incessantes

Dentro e além deste poema

A morte não conduz ao silêncio

Mas engendra e fortalece o grito:

Marielle, presente!

Agora, sempre.

 

Imagem de capa:  Sergey Zolkin/Unsplash

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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