“É assim que eu mato uma pessoa. Descubro seus hábitos, decoro seus horários. Não é difícil. A vida dele consiste em paradas rápidas na loja de tudo por um dólar, onde compra o mínimo necessário para manter seu ciclo capenga em movimento. […] O pão, o queijo, o vinho e as bolachas água e sal que às vezes ele esfarela e deixa para os pássaros — uma minúscula migalha de bondade que o torna ainda mais odioso. Porque se há uma versão sua que alimenta os passarinhos à medida que o inverno chega, há também a decência que ele prefere deixar de lado quando faz outras coisas. Outras coisas que também alimentam os pássaros. E os falcões. E os guaxinins. E os coiotes. Todos os animais que comeram bocados da minha irmã, destruindo qualquer chance de provar que foi ele quem a matou. Mas não sou um júri, não preciso de provas.”

Assim começa o livro A (R)evolução das Mulheres, da escritora norte-americana Mindy Mcginnis. A protagonista da história é Alex, uma adolescente atormentada pela falta de justiça para o assassinato brutal da irmã por um predador de mulheres. Convivendo com uma mãe desequilibrada e um pai ausente, a jovem direciona sua vida a promover uma vingança e, já nas primeiras páginas, ficamos sabendo que ela conseguiu atingir seu objetivo.

O que me chocou ao longo da leitura da obra, ocorrida há alguns meses, foi minha dificuldade em ficar contra a personagem. Afinal, ela matou uma pessoa e eu sou favorável aos direitos humanos.

Porém, quando o sistema não funciona e um predador está à solta, seria a vingança o único caminho?

Foi este questionamento que fiz nessa semana, ao me deparar com as repercussões do caso Mari Ferrer. Para além da sentença injusta, provoca revolta o vídeo da audiência, onde aparece a jovem sendo brutalmente humilhada pelo advogado de defesa do réu, sob a conivência do juiz.  O que o sistema judiciário parece querer ignorar é que a a culpa nunca é da vitima.

E foi justamente a audiência com clima de inquisição que gerou uma grande raiva em mulheres normalmente contrárias à violência. Além da sensação de impotência e tristeza enormes, por sabermos que muitas de nós ainda passarão, infelizmente, por situações de assédio e violência sexual sem a devida punição.

A CULPA É DO PATRIARCADO

A impunidade proporcionada pelo sistema garante que agressores prossigam com suas vidas normalmente e possam colocar em risco outras mulheres. Por isso, é mais do que urgente acabar com relativizações sobre o que é estupro e arcaicos argumento de que determinadas roupas ou condutas seriam a permissão para abusos.

PRECISAMOS NOS UNIR

Não defendo o justiçamento como a personagem Alex faz no livro A (R)evolução das Mulheres. Mas ao terminar a leitura de obras como essa, espero que as leitoras se sintam mais fortalecidas para lutar contra injustiças. Fazer manifestações é um caminho. Reivindicar um sistema judiciário menos machista e patriarcal é outro. Educar meninos para não abusarem mulheres também é uma forma de, ao menos no futuro, evitarmos a repetição dos erros do passado e do presente (como já escrevi aqui.) O que não podemos é ficar inertes.  Pois, repito, a culpa nunca é da vitima, por mais que as estruturas tentem colocar a responsabilidade na conduta da mulher.

#justiçaparamariferrer

Imagem: Capa livro A (R)evolução das Mulheres 

 

 

 

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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