A casa de Caio Fernando Abreu ainda pode ser um espaço para preservação da memória do escritor gaúcho, que tem relevância nacional e internacional e faleceu em Porto Alegre, em 1996. A esperança vem de uma liminar judicial.  Apesar dos atuais proprietários do imóvel terem ordenado a derrubada do sobrado em estilo espanhol, a decisão interrompeu o processo de demolição. Infelizmente, a decisão judicial favorável à ação civil pública reivindicando que o imóvel seja considerado patrimônio cultural chegou quatro dias depois das retroescavadeiras. Entretanto, a casa de Caio F. é muito mais que suas paredes e vai “além dos muros”, como o autor cita em um dos  textos mais famosos com menção ao local.

Tentativa de acordo

Em entrevista à coluna Voos Literários, Marcelo Sgarbossa, advogado e integrante da Associação de Amigos do Caio Fernando Abreu, relata que a expectativa é de um acordo com os donos do imóvel. “A importância desta casa é muito mais que suas paredes. Além de mencionar o sobrado em seus textos, Caio também falava do bairro Menino Deus e da beleza de suas ruas”, destaca. Por enquanto, a expectativa de Sgarbossa é que um processo de mediação possa resultar em um centro cultural na rua Oscar Bittencourt, número 12. “Poderia ser conciliado com o uso comercial ou residencial da área”, pondera. Os proprietários do local, no entanto, ainda não se pronunciaram publicamente sobre o assunto.

No texto da ação popular, Sgarbossa, em conjunto com os advogados Jacqueline Custódio e José Renato de Oliveira Barcelos, lembram que “a memória e o patrimônio cultural de um povo são compostos por bens e valores inestimáveis, razão pela qual qualquer risco de lesão deve ser imediatamente reparado. (…) Lamentável a notícia da derrubada das paredes da casa”. Entretanto, é importante recordar que a derrubada foi permitida em licença concedida pela prefeitura de Porto Alegre. Após a repercussão do caso, integrantes do poder municipal lamentaram a demolição do imóvel. Em seguida, garantiram que apoiariam a tentativa de transformar o espaço em um centro cultural.

Manifestação pela memória e pela Arte

Um dia depois da derrubada das paredes da casa, admiradores do escritor realizaram um protesto em frente ao local. Apesar do clima de tristeza, a lição que fica é não desistir diante das adversidades. Por ora, não há uma conclusão a respeito deste episódio. Entretanto, já é um alento observar um integrante do Judiciário ser sensível aos apelos de quem luta pela preservação da memória cultural brasileira.

A casa de Quintana e a inspiração para o presente   

Afinal, a Arte também movimenta a economia, através de eventos e do turismo. Desse modo, um exemplo na própria capital gaúcha é a Casa de Cultura Mario Quintana, que só foi inaugurada com uma grande mobilização por parte do poder público. Embora tenha havido empenho, foram necessários 10 longos anos para que o antigo Hotel Majestic, e ex-morada de Quintana, virasse um centro cultural, inaugurado em 1990. Na comparação, a diferença é que, naquela época, o governo do Estado demonstrou interesse em comprar o imóvel, para evitar a derrubada do prédio de 1933. Hoje, a CCMQ é um centro cultural que recebe milhares de visitantes para atividades ligados ao cinema, música, teatro, literatura e artes visuais, além de ter a reprodução do quarto do poeta e diversos espaços que exaltam a importância de Quintana para a literatura brasileira.

Mais casas de escritores que são pontos turísticos 

Em síntese, transformar casas de escritores em pontos turísticos também foi uma decisão acertada para movimentar o turismo em diversas cidades brasileiras. Entre os destaques, estão a casas de Jorge Amado e Zelia Gattai, em Salvador, de Cora Coralina, na cidade de Goiás, de José de Alencar, em Fortaleza, e Guimarães Rosa, em Cordisburgo, Minas Gerais. Da mesma forma, no Chile, três casas do poeta Pablo Neruda foram transformadas em espaços de memória e cultura. Neste sentido, nos parece evidente que bastaria mobilização por parte do poder público e da iniciativa privada para a casa de Caio F. ser transformada em um espaço de promoção da Arte.

Para além dos muros

Em 1994, Caio voltou retornou à capital gaúcha para viver com os pais, após ter a confirmação do diagnóstico de HIV positivo. Assim, a casa que o acolheu virou parte cada vez mais recorrente e relevante de sua literatura, como no texto a seguir:

“Os muros continuam brancos, mas agora são de um sobrado colonial espanhol que me faz pensar em García Lorca; o portão pode ser aberto a qualquer hora para entrar ou sair; há uma palmeira, rosas cor-de-rosa no jardim. Chama-se Menino Deus este lugar cantado por Caetano, e eu sempre soube que era aqui o porto”.

Última carta para além dos muros, crônica do autor publicada em O Estado de São Paulo, em 1994.

O escritor e a casa no Menino Deus

Além disso, a residência foi local, na época, para entrevistas e fotografias. Como nesta entrevista para a emissora TVE. Na gravação, Caio está em frente ao sobrado espanhol. Também aparece em algumas imagens dentro da casa. Nelas, está trabalhando em seu microcomputador, que chamava de Robocop.

 

Por fim, aproveito para ressaltar que já escrevi sobre Caio Fernando Abreu e a importância da preservação de sua casa. Para ler este texto, bastar clicar aqui.

Seguimos na luta em apoio à memória desse grande escritor!

Imagem: Caio F. Entre Nós: Caio na Memória Viva / Facebook

 

 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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