• Amar em tempos de ódio é revolucionário. Mas o que é mais comum, nessa era de relações descartáveis, é o medo de expor sentimentos. 

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Enviar “nudes” é cool, desnudar emoções é brega  

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Mas essa dificuldade de expressar está longe de ser um sintoma da pós-modernidade. Em 1977, no livro Fragmentos de Um Discurso Amoroso, o crítico literário e filósofo Roland Barthes, escrevia o seguinte prefácio:

A necessidade deste livro funda-se na consideração seguinte: o discurso amoroso é hoje de uma extrema solidão. Tal discurso talvez seja falado por milhares de sujeitos (quem pode saber?), mas não é sustentado por ninguém; é completamente relegado pelas linguagens existentes, ou ignorado, ou depreciado ou zombado por elas, cortado não apenas do poder, mas também de seus mecanismos (ciência, saberes, artes). Quando um discurso é assim lançado por sua própria força na deriva do inatual, deportado para fora de toda gregariedade, nada mais lhe resta além de ser o lugar, por exíguo que seja, de uma afirmação.”

O livro, uma espécie de enciclopédia da linguagem amorosa, traz separadas por verbetes as situações típicas da vida de qualquer apaixonado. Os clichês amorosos são seguidos por citações de clássicos literários e análises do próprio autor. Escolhi para analisar aqui o verbete A Carta de Amor, apesar do desuso da troca de correspondências entre apaixonados. Porém é só substituir “carta” por  “e-mail” ou mensagem em aplicativos como “whatsapp” e o resultado será o mesmo. Em um texto amoroso, o que precisamos é de aceitação e acolhimento, independente do suporte escolhido para levar a mensagem.

Optei por fazer um recorte do capítulo, um fragmento do fragmento, bem ao estilo do século 21. Barthes me perdoaria (espero).

CARTA. A figura visa a dialética particular da carta de amor, ao mesmo tempo vazia (codificada) e expressiva (cheia de vontade de significar o desejo). […]

  1. Como desejo, a carta de amor espera sua resposta ; ela impõe implicitamente ao outro de responder, sem o que a imagem dele se altera, se toma outra. É o que explica com autoridade o jovem Freud à sua noiva: “Não quero porém que minhas cartas fiquem sempre sem resposta, e não te escreverei mais se você não me responder. Eternos monólogos sobre um ser amado, que não são nem ratificados nem alimentados pelo ser amado, acabam em ideias falsas sobre as relações mútuas, e nos tomarão estranhos um ao outro quando nos encontrarmos novamente, e acharmos então as coisas diferentes do que, por não termos nos certificado delas, se imaginava.”

A coluna Voos Literários deseja a seus leitores que o Dia dos Namorados, mesmo sendo uma data comercial, sirva de incentivo para expressar o amor de todas as formas. Não apenas na linguagem, tão importante nesse momento em que a interpretação de texto é uma habilidade de poucos, mas também em atos concretos. E se o amor for daqueles que extravasam o coração, quem sabe a data também não seja um incentivo para expressar o afeto para além das nossas bolhas familiares e de afeto.

Há sempre tempo de deixar um livro de presente para um desconhecido em um lugar público ou doar uma roupa quentinha para alguém que passa frio nas ruas enquanto sofremos por não ter uma resposta “daquela” pessoa no whatsapp.

Imagem: Reprodução/Internet

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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