Uma das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos completaria 90 anos nessa semana, se entre nós estivesse. Hilda Hilst partiu desse plano em 2004 mas sua obra permanece com frescor nos dias atuais, cinzentos por tantos motivos, da pandemia do coronavírus aos desmandos de um governo insano e incompetente. O legado de Hilda ficou marcado por ela tratar de temas eróticos, sendo criticada pelos mais conservadores por atrever-se a escrever textos pornográficos, a partir da década de 1990.

SEM MEDO

O preconceito pela temática sexual em suas obras deriva, certamente, do fato de ser uma mulher fazendo isso. Outros grandes autores usaram de recursos como o erotismo e palavrões sem serem tão cerceados em sua escrita. (Entre eles, Rubem Fonseca, falecido recentemente, e que merecerá em breve uma coluna para reverenciar sua memória e legado.)

Voltando a Hilda, a escritora era uma mulher que parecia não se acovardar para nada. Em 1974, em plena época da ditadura militar brasileira, a poeta dedica um capítulo à resistência e engajamento político, em um livro que aparentemente seria para falar apenas de amor e erotismo. 

POESIA POLÍTICA

A obra a que me refiro é Júbilo, memória, noviciado da paixão, relançado pela Companhia das Letras, e que tive o prazer de revisitar durante essa quarentena, depois de ganhá-lo de presente de aniversário, em 2018. O capítulo em questão é “Poemas aos homens de nossos tempos”, no qual Hilda se dirige aos leitores e também aos homens políticos, que naquele momento – assim como agora – eram militares pouco preocupados com o bem-estar dos brasileiros.

III

Sobre o vosso jazigo

– Homem político –

Nem compaixão, nem flores.

Apenas o escuro grito

Dos homens.

Sobre os vossos filhos

– Homem político –

A desventura

Do vosso nome.

E enquanto estiverdes

À frente da Pátria

Sobre nós, a mordaça.

E sobre as vossas vidas

– Homem político –

Inexoravelmente, nossa morte.

A ARTE SALVA

Mas Hilda também aponta que o caminho para a nossa salvação – ao menos metafórica – é a arte: 

VI

Tudo vive em mim. Tudo se entranha

Na minha tumultuada vida. E por isso

Não te enganas, homem, meu irmão,

Quando dizes na noite, que só a mim me vejo.

Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam

Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,

O olhar aguado, todos eles em mim,

Porque o poeta é irmão do escondido das gentes

Descobre além da aparência, é antes de tudo

livre, e porisso conhece. Quando o poeta fala

Fala do seu quarto, não fala do palanque,

Não está no comício, não deseja riqueza

Não barganha, sabe que o ouro é sangue

Tem os olhos no espírito do homem

No possível infinito. Sabe de cada um

A própria fome. E porque é assim, eu te peço:

Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta

O homem está vivo.

 

VAI PASSAR

Nesse momento de pandemia, é difícil para nós, sonhadores e idealistas, termos um governante com tão pouco tato e sensibilidade para lidar com o luto de inúmeras famílias. Para além da inabilidade política de coordenar um grave problema de saúde pública, Jair Bolsonaro não tem uma postura digna do cargo que ocupa.

Entre a vida e a morte, entre a miséria e o arriscar a existência para sobreviver, seguem os brasileiros, aguardando por dias melhores. Precisamos de resiliência e equilíbrio emocional para aguentar tudo que ainda virá, da proliferação de uma doença ainda sem vacina até os desmandos de um capitão grosseiro e despreparado.

#vaipassar #forabolsonaro

Imagem: Fanpage Instituto Hilda Hilst/Reprodução

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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