Porto Alegre completa 246 anos hoje  e eu fico buscando motivos internos para celebrar. É a cidade onde nasci, em que vivo há 40 anos e aqui construí a minha história, o que inclui gostar muito dos artistas locais, entre eles os escritores. Mas a capital do Rio Grande do Sul anda sendo maltratada, com ruas sujas, matagal alto por todos os lados, a população de rua aumentando cada vez mais

E eu, como sempre que a realidade me atormenta, recorro à Literatura. Descobri muitos textos em que a cidade é citada, então, esse é o presente que dou a vocês e a mim.

Porto Alegre pelos olhos de escritores talentosos, de diferentes épocas. Vamos torcer para que a cidade tenha dias melhores, em breve

 

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A zona Sul da cidade

“Ninguém está nesta parte da cidade num dia de semana a esta hora da tarde, exceto os caras nos barcos, uns bem próximos, ao redor do clube de velas, outros um pouco mais longe, mas nunca muitos, até porque o lago não é a 10 coisa mais linda do mundo. Quero dizer, todos nós gostaríamos que ele fosse ao menos um pouco mais azul. Lagos costumam ser azuis, não marrons, e as pessoas adoram o azul, é a cor favorita da maioria delas, isso tudo por causa do céu e da água (certamente não dessa), o que eu também vi num documentário, que é o que faço perto da hora de dormir. De qualquer maneira, está abrindo, o bar em que já estive um milhão de vezes, sentado conversando enquanto esmigalhava rótulos ou tentava rosas de guardanapo, na rua de pé com um copo descartável de vinho, ou então jogando sinuca no salão dos fundos, que podemos dizer que é uma parte construída literalmente dentro d’água, o que tem deixado a prefeitura puta da vida há uns vinte anos.”

Carol Bensimon, Sinuca embaixo d’água. Leia um trecho aqui.

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 O Parque Farroupilha, um dos mais frequentados pelos porto-alegrenses

“Passava agora pelo calçadão de areia da Redenção, pela Avenida João Pessoa, o parque ensolarado, os pássaros voando em bando, carros a passarem em alta velocidade, crianças que iam para o colégio, grandes nuvens que desenhavam formas estranhas no céu azul translúcido. […] Passou pela Faculdade de Direito, onde passara bons anos de sua vida, as recordações se atropelavam, estugou o passo, precisava vencer o passado que não lhe interessava mais. Passou pela frente do velho casarão da Santa Casa de Misericórdia, pelas casas iguais do quarteirão, pela Igreja da Conceição, os velhos portões de ferro trabalhado, os gradis cheios de arabescos, cruzou a Rua Santo Antônio e foi quando diminuiu o passo […]

Josué Guimarães, Camilo Mortágua. O romance se passo no ano de 1964, marcado pelo Golpe Militar.

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O Guaíba, com todo seu esplendor

“Fui até a minha praça, na volta do Gasômetro, e é só lá que encontro céu e rio à vontade, azuis, imensos, quase fundidos um com o outro. O céu e o rio vistos daqui da cidade são ávaros, mostram pedacinhos pequenos, perdidos no meio dos edifícios. Parecem ter vergonha de se mostrar. Lá, não.”

Caio Fernando Abreu, Limite Branco. Primeiro romance do autor e um dos poucos em que Porto Alegre aparece claramente como o cenário de um enredo

“O rio está tranquilo e o horizonte é de um verde tênue e aguado que vai se diluindo num azul desbotado. As montanhas ao longe são uma pincelada fraca de violeta. A superfície da água está toda crivada de estrelinhas de prata e ouro. Longe aparece o casario de Pedras, na encosta dum morro. Mais perto o Morro do Sabiá avança sobre o rio. O céu é tão azul, tão puro e luminoso, que Noel simplesmente não acredita que seja um céu de verdade.”

Erico Verissimo, Caminhos Cruzados. A obra do escritor inclui romances urbanos bem interessantes, como Noite e Clarissa, mesmo tendo ficado conhecido pela trilogia “O Tempo e O Vento”

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O centro de Porto Alegre

“Encontrei esse cachorro quase morto de fome na Praça da Alfândega, numa madrugada de outono fria pra cacete, quando voltava de um bar. Era um vira-lata que deixara de ser filhote fazia pouco tempo, preto com dezenas de manchas brancas. Na esquina havia uma caçamba de entulho da prefeitura. Vasculhei o lixo ali dentro e encontrei uma tira comprida de plástico. Improvisei uma coleira ao redor do pescoço do cachorro e o arrastei até o meu prédio, no alto da Duque.”

Daniel Galera, Até o dia em que o Cão Morreu, que inspirou o filme Cão Sem Dono

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A Porto Alegre do século XIX, que já tinha problemas de transporte público

“Há dias que é uma vergonha, os bondes levam horas e horas nos desvios. Ainda há pouco tempo, num passeio que eu fiz com o Ramalho, levamos duas horas e quarenta e cinco minutos do Parthenon à praça da Alfândega. O bonde descarrilou três vezes, esperou um quarto de hora em três desvios, as bestas rebentavam as correias de espaço a espaço.”

Paulino de Azurenha, Mário Totta e Souza Lobo, Estrychinina. Romance de 1897 que narra a história de amor impossível entre Chiquita, uma prostituta, e Neco, um rapaz de “boa família”. Em meio a esse impasse, o casal vaga pela cidade e o leitor consegue identificar casarões antigos da rua Riachuelo, a Rua da Praia, com seu comércio pulsante, e festividades realizadas na Praça da Alfândega e no Menino Deus.

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Um poema sobre Porto Alegre, por um poeta apaixonado pela cidade

O Mapa

Olho o mapa da cidade

Como quem examinasse

A anatomia de um corpo…

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita

Das ruas de Porto Alegre

Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,

Tanta nuança de paredes,

Há tanta moça bonita

Nas ruas que não andei

(E há uma rua encantada

Que nem em sonhos sonhei…)

Mario Quintana,  Apontamentos de História Sobrenatural. Publicado em 1976, quando o poeta estava com 70 anos.

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Foto: Eduardo Beleske/PMPA

Flávia Cunha
Author

Jornalista, formada pela Famecos (PUCRS), e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Apaixonada pela obra de Caio Fernando Abreu, uniu dois interesses e analisou o trabalho do escritor gaúcho como jornalista. Entre suas preferências literárias também estão, entre outros, García Márquez, Ernest Hemingway, Érico Veríssimo, Carol Bensimon e Daniel Galera. Não necessariamente nessa ordem. É fissurada por café e rock n’roll.

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