Há 24 anos, o 29 de agosto é o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Nessa data, em 1996, foi realizado o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas. Com o passar dos anos, a data foi se fortalecendo em meio à militância e seus apoiadores, ficando o próprio mês de agosto marcado por ações e iniciativas para tornar mais visível para a sociedade o “L” da sigla LGBTQIA+.

UMA LUTA NECESSÁRIA

Mas por que datas como essa são necessárias, você aí, heterossexual, pode estar se perguntando. Porque o amor entre iguais muitas vezes é motivo de preconceito e violência. No caso de mulheres, são inúmeros os relatos de casos de agressão por uma mera demonstração de carinho em público. Por isso, é necessário dar cada vez mais visibilidade ao tema, para mostrar o que deveria ser óbvio: toda forma de amor deve ser respeitada.

REPRESENTATIVIDADE IMPORTA

Em entrevista para a coluna Voos Literários, a produtora cultural e livreira Ariane Laubin, de 40 anos, ressalta que ainda é necessário dar visibilidade às mulheres lésbicas, que até em eventos e nos movimentos LGBTs não têm tanta representatividade. “As paradas de orgulho ainda têm, inclusive na programação artística, poucas mulheres lésbicas. Há pouca representatividade nesse sentido. Por isso, cada vez mais precisamos marcar o agosto como o mês da visibilidade lésbica.”

Ariane é casada com Bia Garbelini desde 2016. As duas são mães da Sofia, pré-adolescente com Síndrome de Williams. “A maternidade lésbica existe e não está dentro de padrões fechados em caixas”, ressalta. 

CONVIDADA ESPECIAL

Fiz o convite para Ariane Laubin indicar livros em que a temática lésbica é apresentada de alguma forma. Ela pontuou como iniciativas como essa contribuem para dar mais visibilidade à questão e enviou 5 obras sobre o assunto. Abaixo, seguem as indicações, com sinopses e breves comentários escritos pela colunista aqui.

Bem-vindos ao paraíso
Autora: Nicole Dennis-benn

Sinopse: Em um resort luxuoso nas belas praias de areia branca da Jamaica, Margot luta para manter Thandi, sua irmã mais nova, na escola. Ensinada desde pequena a usar o corpo para sobreviver, ela está determinada a proteger Thandi do mesmo destino. Mas quando a construção de um novo hotel ameaça sua vila, Margot enxerga uma oportunidade de independência financeira e a chance de admitir um segredo chocante: seu amor proibido por outra mulher.

Comentário: É o romance de estreia da escritora jamaicana Nicole Dennis-benn, lançado em 2016. A obra foi considerada Melhor Livro do Ano pelo jornal The New York Times. A escritora é reconhecida por abordar a questão lésbica em suas obras, em uma perspectiva feminista. Também é autora do romance Paty, lançado em 2019.

Carol
Autora: Patrícia Highsmith

Sinopse: Em plenos anos 50, a escritora Patricia Highsmith lançou ‘Carol’ – primeiro romance que aborda uma relação amorosa entre mulheres com um final feliz. O polêmico livro foi publicado na época como ‘The price of salt’, sob o pseudônimo de Claire Morgan. Na história, Therese Belivet trabalha como vendedora na seção de bonecas de uma loja de departamentos. O emprego funciona como um bico para juntar dinheiro – o que ela de fato quer é construir uma carreira como cenógrafa de teatro.

É época de Natal em Nova York, e a loja está lotada. Em meio a tantos rostos desconhecidos, Therese fica hipnotizada ao ver uma distinta cliente se aproximar. É Carol. Assim começa o romance entre a jovem Therese e Carol – recém-separada e mãe de uma filha -, um amor repentino e fatal, que se transforma em uma constante troca de experiências. Mas, numa tentativa de escapar dos olhares reprovadores dos amigos e familiares, elas saem de carro em uma viagem pelos Estados Unidos. Essa aventura acaba se tornando perigosa quando elas percebem que estão sendo seguidas por um detetive.

Comentário: A obra ficou mais conhecida do grande público após a adaptação para o cinema, em 2015. O longa-metragem é estrelado por Cate Blanchett e Rooney Mara, com direção de Tood Haynes. O filme teve boa repercussão e recebeu seis indicações ao Oscar, incluindo melhor roteiro adaptado, além de melhor atriz e melhor atriz coadjuvante, entre outros categorias. 

Aimée e Jaguar
Autora: Érica Fischer

Sinopse: Aos 29 anos, Elisabeth Wust, a Lilly, é uma típica dona de casa alemã. Casada com um funcionário do governo, tem quatro filhos pequenos, uma rotina de classe média. Com 21 anos de idade, Felice Scheagenheim é o oposto de Lilly. Culta, segura e refinada, um símbolo de mulher independente. Estamos em Berlim, em 1942, o chanceler é Adolf Hitler, e Felice, judia, está na clandestinidade para tentar sobreviver. Apesar de tudo, as duas mulheres se apaixonam, tendo como trilhas sonoras marchas militares, num cenário de bombardeios. Na primavera de 1943, Felice se muda para a casa de Lilly. ‘Aimée & Jaguar’, como passaram a se chamar, conta a história de amor entre as duas mulheres.

Comentário: O livro é baseado em fatos reais, o que torna a história ainda mais interessante. A autora, Érica Fischer, é jornalista e fez um trabalho de pesquisa que resultou na obra, lançada em 1994. Ela analisou cartas, diários e poemas trocados entre as protagonistas dessa história de amor. Também entrevistou amigos ainda vivos das duas mulheres para conseguir apresentar detalhes dos fatos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial.  

Amora
Autora: Natalia Borges Polesso

Sinopse: Seria pouco dizer que os contos de Amora versam sobre relações homossexuais entre mulheres. Também estão aqui o maravilhamento, o estupor e o medo das descobertas. O encontro consigo mesmo, sobretudo quando ele ocorre fora dos padrões, pode trazer desafios ou tornar impossível seguir sem transformação. É necessário avançar, explorar o desconhecido, desestabilizar as estruturas para chegar, enfim, ao sossego de quem vive com honestidade.

Comentário:  A obra foi premiada com o Jabuti de melhor livro, entre outras distinções. Em maio de 2020, a versão em inglês do livro da escritora gaúcha foi lançado nos Estados Unidos e Reino Unido. Em suas redes sociais, Natalia Borges Polesso comentou, em uma postagem sobre a publicação de sua obra traduzida para o inglês: “Eu queria escrever um livro com histórias nas quais eu pudesse me reconhecer. Queria fazer uma boa ficção também. […] Queria me sentir um pouco Caio [Fernando Abreu], um pouco Cassandra [Rios], um pouco Clarice [Lispector].”

Tomates Verdes Fritos
Autora: Fannie Flagg

Sinopse: Combinando humor irresistível a uma narrativa comovente, Fannie Flagg usa capítulos curtos que alternam épocas — a década de 1980, as primeiras décadas do século XX, os anos 1930 — e histórias superpostas para criar um rico painel humano e social. O livro mistura as histórias do Café da Parada do Apito com os encontros casuais entre a dona de casa infeliz Evelyn Couch e a octogenária sra. Threadgoode numa casa de repouso. As protagonistas das memórias da sra. Threadgoode são Idge e Ruth, donas do Café, que quebram convenções e enfrentam todo tipo de ameaças e preconceitos. Ao longo de suas conversas, Evelyn acaba recuperando sua identidade e a sra. Threadgoode retoma seu próprio passado.

Comentário: A obra não é abertamente lésbica, porém a história de amor fica nas entrelinhas. Na adaptação para o cinema, o relacionamento lésbico é praticamente invisibilizado. A atriz Mary-Louise Parker comentou, em uma entrevista, que pediu muitas vezes para que Jon Avnet, diretor do longa-metragem lançado em 1991, mostrasse claramente o romance entre sua personagem Ruth e Idgie, interpretada pela atriz Mary Stuart Masterson. Não foi atendida em seu pedido. As duas são mostradas no filme como grande amigas.

Azul é a cor mais quente
Autora: Julie Maroh

Sinopse: Tradução da novela gráfica “Le bleu est une couleur chaude”, da francesa Julie Maroh. O livro conta a história de Clementine, uma jovem de 15 anos que descobre o amor ao conhecer Emma, uma garota de cabelos azuis. Através de textos do diário de Clementine, o leitor acompanha o primeiro encontro das duas e caminha entre as descobertas, tristezas e maravilhas que essa relação pode trazer. A novela gráfica foi lançada na França em 2010, já tem diversas versões, incluindo para o inglês, espanhol, alemão, italiano e holandês, e ganhou, em 2011, o Prêmio de Público do Festival Internacional de Angoulême.

Além disso, foi filmada em 2012 pelo franco-tunisiano Abdelatiff Kechiche e levou a Palma de Ouro, prêmio mais importante do Festival de Cannes. Em tempos de luta por direitos e de novas questões políticas, Azul é a cor mais quente surge para mostrar o lado poético e universal do amor, sem apontar regras ou gêneros.

Comentário: A versão em quadrinhos que inspirou o filme homônimo é considerada muito mais apropriada para mostrar a história de amor entre Emma e Clementine, além de ter mais profundidade e delicadeza . Alguns críticos apontaram o fato de que o filme aborda o romance lésbico por uma perspectiva heteronormativa e masculina. Além disso, no ano passado, foram divulgado os sistemáticos abusos do diretor com as duas atrizes durante as gravações do filme.

Imagem: Reprodução/Internet

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

Comentários no Facebook