Ansiedade é um dos sintomas mais comuns dessa nossa pós-modernidade. Muito trabalho, pouco dinheiro, reforma da Previdência, Vaza-jato, cobranças de todo o tipo via whatsapp, os amigos todos felizes nas redes sociais e aquela sensação interna de solidão. Como lidar com tudo isso? 

Tem gente que “desconta” na comida.  Vamos como alguns livros mostram a relação entre gastronomia e emoções, de diferentes formas.

COMIDA EM EXCESSO PARA FICAR INVISÍVEL

Quem diria que Shonda Rhimes, a poderosa roteirista e produtora de sucessos como Grey’s Anatomy, Scandal e How to get away with murder, seria acometida de males como insegurança e ansiedade? Em O Ano Em Que Eu Disse Sim, a criadora da Shondaland faz sinceras reflexões e revelações sobre o seu modo de reagir à pressão da indústria do entretenimento, muito longe da fortaleza que sua imagem pública poderia transparecer.

No trecho abaixo, Shonda Rhimes se dá conta de como usa os alimentos como um instrumento para fugir de seus problemas e como é difícil admitir que está insatisfeita com a obesidade:

A feminista dentro de mim não queria ter a discussão consigo mesma. Eu me ressentia da necessidade de conversar sobre peso. Sentia como se estivesse me julgando em relação à aparência. Parecia fútil. Parecia misógino. Parecia… traição, o fato de eu me importar. Meu corpo é  apenas o recipiente no qual carrego meu cérebro por aí. […] Meucorpo é apenas o recipiente no qual carrego meu cérebro por aí. Eu dizia enquanto comia potes de sorvete. Eu dizia enquanto comia pizzas inteiras. […]  A timidez. A introversão. As camadas de gordura. Sou uma escritora bastante nerd que, aparentemente, da noite para o dia, se tornou… bem, famosa. […] E as pessoas começaram a conhecer meu nome e a reconhecer meu rosto. E com isso vem muita atenção. Eu não queria que me olhassem. Não me sentia bem em ser vista. Só queria escrever e andar com os mesmos amigos com quem sempre andei e ser deixada em paz. Como se alcança isso nesta cidade? Seu corpo se torna um recipiente para o cérebro. Era um sistema de segurança muito bom.”

COZINHAR PARA FUGIR DOS PROBLEMAS

Não se esqueça de Paris, de Deborah Mckinlay, aborda a curiosa amizade à distância entre um escritor famoso em um momento de bloqueio criativo e uma solitária fã que sofre de síndrome do pânico. Em comum, o hábito de elaborar pratos sofisticados no dia a dia, como uma forma de refugiar-se da realidade.

Digitou algumas palavras e parou. Depois ficou sentado sem se mover por um instante, lutando contra o bloqueio. Em seguida, agitou os dedos e decidiu que já era tarde, que estava cansado, e releu a carta de Eve sobre as ameixas. Era sua favorita até o momento, além de ser a mais longa. Parecia estranho como a correspondência com Eve, apesar de tão recente, estava se tornando rapidamente uma parte significativa de sua vida. Ao ler as cartas, ele entrava em contato consigo mesmo, com sua melhor parte. Sentia no papel timbrado o aroma agradável e fresco de ervas. Jack queria consolidar a amizade. Aprofundá-la. Então, à uma hora da manhã, escreveu: ‘Cozinhar é o que eu faço de melhor. Quando escrevo, consigo atravessar a linha de chegada com tranquilidade, mas sem nenhum estilo específico. E, com pessoas, tendo a tropeçar no primeiro obstáculo.”

SENTINDO AS EMOÇÕES DE QUEM COZINHA

Em A Peculiar Tristeza Guardada num Bolo de Limão, de Aimee Bender, acompanhamos a trajetória da protagonista Rosie e sua relação com sua família disfuncional. O enredo começa quando a personagem, ainda criança, ganha de presente de aniversário um bolo feito pela mãe. É o momento em se dá conta de sua peculiar habilidade de perceber os sentimentos de quem preparou os alimentos:

Eu podia sentir claramente o sabor do chocolate, mas nos recantos da boca, e, como se estivesse se expandindo e abrindo, parecia que ela também se enchia com o sabor da pequenez, da sensação de encolhimento, de irritação, um sabor de distanciamento que eu de algum modo sabia que estava ligado à minha mãe. Era um sabor confuso do raciocínio dela, em espiral, quase como se eu pudesse sentir o sabor do ranger de seus dentes que dava origem à enxaqueca que a obrigava a tomar tantas aspirinas quantas fossem necessárias, todo um estoque de aspirinas no criado-mudo, como algo que faltasse no que ela dissera: “Vou só me deitar um pouco…”. Não era um gosto ruim, mas havia uma espécie de ausência da perfeição dos sabores, o que fazia com que o bolo parecesse oco, como se o limão e o chocolate estivessem apenas envolvendo o vazio. As mãos habilidosas de minha mãe fizeram o bolo e sua mente soubera como equilibrar os ingredientes, mas ela não estava lá, quero dizer, no bolo.”

RELAÇÃO SAUDÁVEL COM A COMIDA

Volto ao incrível O Ano Em que Eu Disse Sim para concluir esse texto de forma positiva. Shonda Rhimes relata que resolveu exercitar-se e ter uma alimentação mais equilibrada, o que resultou em uma autoconfiança maior para lidar com a fama:

Não há problema em querer ser vista. Não há problema em gostar de ser vista. Sou vista. […] E gosto do que vejo ali. Aquela garota parece feliz. Só foi preciso o tipo certo de ‘sim’. E  salada. Ah, sim. Betsy [a personal trainer] estava certa. Ajuda mesmo se treinar para gostar de saladas. Odeio quando ela está certa.”

  • PS: Esse texto não é uma apologia ao corpo perfeito muito menos à anorexia ou bulimia. Mas um alerta singelo para a busca de uma relação equilibrada entre saborear os alimentos e aceitação corporal. Se sentir que algo não vai bem nesse quesito, procure um especialista. Pode ser um médico ou um psicólogo. O importante é não sofrer em silêncio.

Foto: Engin Akyurt/Pexels.com

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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