2022 é o ano que não terminou. Claro, escrevo no dia 6 de dezembro. Então, pelo calendário gregoriano realmente o período de 12 meses ainda não se encerrou. Mas o que me refiro é a algo mais profundo e subjetivo. Ou seja, a maneira reiterada como determinados assuntos no Brasil parecem não ter conclusão nunca.

Novas variantes de um mesmo tema

Um exemplo de que 2022 é o ano que não terminou? Vamos à pandemia. Aparentemente, era uma preocupação passada. Aos poucos, mesmo os mais cautelosos foram abrindo mão do uso de máscaras e voltando ao convívio social sem restrições. Até que novas variantes vieram, aos poucos, mostrando que a pandemia não acabou. Para piorar, a campanha de vacinação contra a covid é praticamente inexistente por parte do já quase extinto governo Bolsonaro. Além disso, o Ministério da Saúde não comprou as vacinas com maior proteção contra as variantes mais recentes do coronavírus. Ou seja, é uma preocupação que não vai acabar neste ano.

Teimosia eleitoral?

Outro sintoma de que 2022 é um ano atípico para o encerramento de ciclos, são as eleições presidenciais. Para os apoiadores do candidato derrotado, o pleito não acabou. Eles pedem recontagem, anulação da votação ou intervenção militar, enquanto permanecem em frente a quartéis, gritando palavras desconexas de ordem. E os protestos contra a vitória de Lula parecem não ter um fim previsto. Além dos acampados saudosos da ditadura, nesta semana manifestantes tentaram invadir um hotel em Brasília onde o presidente eleito está hospedado. O tema eleições, pelo jeito, só acabará com a posse de Lula na virada do ano. Ainda assim, permanece o receio de que parte da população siga negando o resultado das urnas.

Militares intrometidos onde não devem

Fora dessa perspectiva anual e entrando em uma espécie de espiral do tempo, vemos integrantes das Forças Armadas intrometidos na política, apoiando as manifestações golpistas. Além disso, não é incomum vermos oficiais do Exército fazendo declarações de cunho ideológico nas redes sociais, o que é considerado transgressão disciplinar pela caserna. Neste aspecto, 2022 se assemelha – de forma perigosa – a 1968, o ano que realmente não terminou. Há 54 anos, os militares brasileiros apertavam ainda mais o cerco a quem era contra a ditadura, com o AI-5 e outros atos antidemocráticos. Naquela época, artistas eram perseguidos e tratados como comunistas e subversivos. Infelizmente, este pensamento está longe de ser algo ultrapassado. Em 2022, o ano que não terminou, parece estar na moda ser contra a democracia e apoiar um capitão derrotado que chora em público para comover seu eleitorado.

O livro que inspirou este texto

1968: o ano que não terminou, de Zuenir Ventura, é um clássico brasileiro de não ficção lançado em 1989. Na obra, o jornalista aborda os diversos fatos históricos que marcaram o Brasil e o mundo naquele ano. Muitos destes acontecimentos têm repercussão ainda na atualidade. Recentemente, Zuenir Ventura declarou que considera que 1968 “ainda não terminou”. 

Imagem: Freepik/Reprodução

 

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Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br