“Vocês todos são uma geração perdida.” — GERTRUDE STEIN

A citação é de uma das epígrafes do livro O Sol Também se Levanta, de Ernest Hemingway. A referência de Gertrude Stein, escritora e incentivadora de artistas em início de carreria, era à chamada lost generation. Jovens que lutaram na Primeira Guerra Mundial e voltaram para a casa sem emprego, em meio ao que depois depois se revelou uma imensa crise financeira – a chamada Grande Depressão. Essa geração perdida resolveu aproveitar a vida, bebendo, dançando e sendo inconsequentes, no que culminou nos loucos anos 20.

Quase 100 anos depois no Brasil, será que os jovens correm de alguma forma o risco de serem chamados de uma nova geração perdida? Também vivemos momentos de caos econômico e de poucas perspectivas, o que pode levar os jovens a tomar medidas nem sempre consideradas coerentes para outras faixas etárias. 

Mas o que adultos e idosos brasileiros do século 21 esperam dos mais jovens?

Um dos conflitos geracionais mais evidentes é a forma com que os jovens encaram o mercado de trabalho. “Não tem a mesma seriedade”, reclamam os acima de 60 anos que consideram o correto ficar no mesmo emprego a vida inteira. “Mas qual emprego?”, retrucarão os milhares de desempregados na faixa etária até 25 anos. “Então, vão estudar pra aumentar as chances de trabalhar”, responde a vovó que não entende que as universidades públicas estão sendo sucateadas e que as bolsas minguaram nos últimos anos nas instituições de ensino privadas.

Mas daí os jovens, ao perceberem tudo isso que está acontecendo, resolvem de vez em quando ir para as ruas e protestar por melhorias na educação, por exemplo. Para adultos e idosos de um país sem tradição de adesão da maioria da população à manifestações contra desigualdades sociais, os jovens querem é balbúrdia. “Tudo coisa de esquerdopata, não viram que tão falando de novo na tal Marielle?”, reclamam os cidadãos de bem acima dos 40, querendo mesmo que os jovens acomodem-se dentro do que lhes é oferecido (mesmo que seja pouco). 

Ou será que preferem a velha geração perdida de 1920, que tinha ojeriza à política e queria apenas se divertir? Não, também não serve, já que criticam parte dos jovens brasileiros que é alienada e canguru (mora com os pais depois dos 30 anos). Mas o que querem dos jovens brasileiros, afinal?  

Na falta de uma resposta e à espera de protestos consistentes contra o pacote de medidas econômicas proposto ao Congresso pelo ministro Paulo Guedes, encerro essa reflexão com a segunda epígrafe do livro O Sol Também se Levanta, de Hemingway, um dos expoentes da lost generation:

“Geração vai, e geração vem; mas a terra permanece para sempre… Levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar onde nasce de novo… O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; volve-se e revolve-se na sua carreira e retorna aos seus circuitos… Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr.” — ECLESIASTES

Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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