A coluna Voos Literários pediu para João de Los Santos, historiador e idealizador da Lumia – Consultoria e Pesquisa Histórica, uma indicação literária que explicasse o feriado da Proclamação da República. O especialista foi além. Fez uma análise da conjuntura da época, sem deixar de lado as comparações necessárias com o período atual. A leitura vale muito a pena!

“Quase todos sabem que nessa quinta-feira, dia 15 de Novembro, será feriado. A maioria das pessoas não vai trabalhar. Alguns afortunados irão aproveitar e fazer um ‘feriadão’. Mas, afinal, o que foi a Proclamação da República, comemorada nesta data?

Já na segunda etapa do Ensino Fundamental fomos ensinados que no dia 15 de Novembro de 1889 o Marechal Deodoro da Fonseca se dirigiu à praça da Aclamação, atual praça da República, no Rio de Janeiro, e num ato apoteótico declarou que a partir daquele momento o Brasil deixava de ser uma monarquia. Ao menos era assim que nos ensinavam, nas aulas de OSPB ou Moral e Cívica, disciplinas que caíram em desuso e hoje não seriam mais adequadas para a nossa realidade. Mas isso é assunto para outro texto.

Em prol do advento da modernidade, militares, apoiados por latifundiários descontentes com o fim da escravidão e outros setores progressistas da sociedade, resolveram que era preciso inovar. Para garantir a liberdade de participação política de todos os brasileiros, maior autonomia das províncias, entre outros itens tão bem expressos na tão admirada constituição (norte-americana).

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Podemos afirmar que a “inauguração” do Estado brasileiro foi feita através de um golpe militar

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Conduzido por Deodoro e complementado por Floriano, teve seu cerne também nas diversas revoltas ocorridas (Inconfidência Mineira, Confederação do Equador, Guerra dos Farrapos, entre outras), ou seja, a República era oriunda  da insatisfação contra o poder centralizador da monarquia. No entanto, o poder que emana do povo não foi clamado por ele. Os que passeavam na praça naquele dia não faziam ideia do que estava acontecendo. Ao contrário dos outros golpes que viriam acontecer no Brasil, a cada 30 ou 40 anos, na média, este não teve chamamento ou apoio da grande massa.  As grandes questões que deveriam ser resolvidas como inserção dos negros na sociedade, distribuição de terras para incremento da produção e incentivo à indústria nacional, não foram resolvidas na República Velha. Muitas dessas questões até hoje estão em aberto.

No feriado da coisa do povo, não veremos procissões; não veremos desfiles, espartanos ou dionisíacos; no máximo ouviremos: “Interrompemos nossas transmissões para o pronunciamento do Excelentíssimo Presidente da República…”

P.S.:  Este texto contém ironia e não é didático. Seguem duas sugestões de leitura se você quiser se aprofundar no tema.

Livros: Para iniciantes, 1889, do Laurentino Gomes, é uma boa pedida. Embora receba críticas por focar em termos mais burlescos ao invés de uma análise mais aprofundada da economia, é extremamente bem escrito. Agora, se o interesse for aprofundar no assunto a referência é A Formação das Almas: o Imaginário da República no Brasil, de José Murilo de Carvalho. A narrativa é mesclada com imagens de pinturas, ilustrações de revistas e monumentos, sendo que o autor utiliza-se destes recursos para compor um cenário da sociedade da época.”

Imagem:  Pintura Proclamação da República, de Benedito Calixto, de 1893 (Reprodução/Internet)

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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