SPOILER ALERT: Se você ainda não terminou de ver a nona temporada de RuPaul’s Drag Race, não leia este texto.

Eu sou um admirador da cultura drag. Foi através desta cultura que tive minhas primeiras experiências de socialização no mundo LGBT, como até já relatei em um texto aqui. A libertação que esta forma de expressão artística permite a quem faz e desperta em quem a aprecia é algo revigorante.

Acompanhei com entusiasmo todos os episódios de RuPaul’s Drag Race e posso dizer com algum grau de certeza que esta última temporada elevou a competição – e a arte drag – a um novo patamar. A vitória de Sasha Velour trouxe um componente de inovação e ousadia que outras temporadas não se arriscaram a coroar.

Se você ainda não viu este lipsync, por favor, veja, divulgue e enalteça!

É verdade que Sasha não foi a personagem mais completa ao longo da temporada, como foi o caso de Shea Couleé, uma excelente atriz, fashionista, performer e bailarina. Mas Sasha nunca deixou a desejar, tanto é que nunca ficou entre as duas piores de nenhum episódio.

Sasha não foi a mais completa, mas sem dúvida foi a mais versátil, dando uma característica única a tudo que fazia – mesmo quando estava totalmente fora de sua zona de conforto, como em desafios que envolviam humor e dança. Isso fez com que ela se destacasse inclusive no Snatch Game, um desafio icônico da série e que pode traçar uma linha definitiva entre vencedoras e perdedoras. Sua versão de Marlene Dietrich foi milimetricamente executada e deu visibilidade à principal característica de Sasha Velour: a inteligência. Estamos falando de alguém que cogitou performar Judith Butler no Snatch Game, algo que PRECISA acontecer ainda, por favor!

Esta cena certamente provocou reações semelhantes ao Red Wedding de Game of Thrones. Aja que o diga!

Sasha é, sem dúvida, a drag mais inteligente e politizada que já participou da competição. Conseguiu provar que um bom lipsync não se resume a passos de dança, mas à criatividade, capacidade de intepretação e elementos de inovação que possam ir além das manjadas trocas de roupa no meio da performance.

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A cena em que Sasha Velour tira sua peruca ruiva e começa a ser coberta por pétalas de rosas vai ficar definitivamente marcada como o Red Wedding do mundo LGBT

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Com aquela interpretação, Sasha comprovou que não estava apenas fazendo uma performance, estava criando algo novo e mandando uma mensagem. É evidente que Sasha teve o cuidado de dosar sua inteligência e seu potencial político ao longo da temporada, afinal de contas sabemos muito bem que essas duas características não costumam ser exatamente atrativas em um reality show. Não é isso que o mercado do entretenimento procura ou faz questão de difundir. Não se trata de uma crítica arrogante, até porque – repito – sou um fã de carteirinha da série. Trata-se do reconhecimento de que a realidade do sistema em que vivemos é bem mais dura do que as brechas e possibilidades de ruptura que ele apresenta.

Sozinha, Sasha Velour não irá revolucionar a cultura drag. Mas certamente é um passo a mais no sentido de uma mudança positiva. Não é à toa que suas primeiras palavras após a vitória foram: “Vamos mudar essa porra toda”.

Foto: VH1

Author

Acabei me descobrindo jornalista enquanto observava o mundo de fora e militante LGBT enquanto experimentava a vida de dentro.