Igualmente. Um nome bem sugestivo para uma coluna que vai falar sobre cultura, política, sociedade e vivências atravessadas pela temática LGBT. Que vai se debruçar sobre uma comunidade que é diversa e que reproduz, dentro dela própria, mecanismos de opressão que seus indivíduos experimentam todos os dias quando saem de suas bolhas de convivência. É sobre isso que vou falar neste primeiro texto. Especificamente, sobre como existe toda uma população duplamente estigmatizada, utilizada de forma perversa em um jogo de interesses: os LGBTs palestinos, espremidos entre a maior empreitada colonial dos nossos tempos e o discurso islamofóbico, que infantiliza suas lutas e introduz modelos ocidentais de “salvação”.

Perdoem-me por trazer um assunto tão pesado para inaugurar este espaço, mas as brechas para falar sobre este tema não se apresentam com frequência na esfera pública. Como internacionalista e gay, não poderia começar esta coluna de outra forma.

O ano de 2012 foi crucial para mim. Eu estava cobrindo o Fórum Social Mundial em Porto Alegre, que ocorria sob a temática “Palestina Livre”. Qual foi minha surpresa quando, na marcha de abertura, percebi um cartaz carregado por jovens que dizia: “Queers against israeli apartheid”. Em uma tradução livre: “LGBTs contra o apartheid israelense”.

Meu faro de repórter e minha nada objetiva necessidade pessoal me empurraram rapidamente em direção aqueles jovens. Eu precisava saber o que estavam fazendo, em plena marcha pela libertação palestina, um bando de militantes transexuais, lésbicas, bissexuais e gays. Afinal, o que uma coisa poderia ter a ver com a outra? Absolutamente tudo.

Descobri que aqueles jovens estavam denunciando a prática de um aparato discursivo e ideológico em Israel que utiliza a existência de relativos direitos à população LGBT naquele país como cortina de fumaça para mascarar a situação de verdadeiro apartheid imposto ao povo palestino. Naquele dia eu conheci o termo “Pinkwashing”, que designa exatamente o sistema que tentei descrever na frase anterior. Israel tenta “pintar de rosa” seu regime racista e colonialista, utilizando os direitos LGBTs como uma espécie de atestado civilizatório para ofuscar as violações diárias que comete contra o povo palestino.

O pinkwashing é baseado em duas mentiras: uma, a de que a população LGBT em Israel vive em plena liberdade, livre de preconceitos; outra, a de que a população LGBT na Palestina e no mundo árabe em geral vive subjugada e perseguida.

Ambos os discursos precisam ser analisados com mais atenção. Em Israel, há uma cena LGBT bastante movimentada, sim. Tel Aviv é uma cidade dinâmica, com uma Parada LGBT multitudinária. Mas a menos de 40 km ergue-se uma muralha de 760 km de extensão e 8 metros de altura, que transforma a Cisjordânia em uma prisão a céu aberto. Por outro lado, sim, há LGBTfobia na sociedade palestina e muito tabu em torno do tema. Mas em qual sociedade não há? O Brasil, um país de ampla maioria cristã, é reconhecidamente o que mais mata transexuais no mundo.

Antes de serem LGBTs, os gays, lésbicas, bissexuais e transexuais palestinos são, sobretudo, cidadãos palestinos. E como tais estão sujeitos a toda carga discriminatória do regime israelense, tanto quanto qualquer outro compatriota. As balas e mísseis da IDF – as Israeli Defense Forces – não distinguem seus alvos por identidade de gênero ou orientação sexual, não importa o quanto Israel diga que está preocupado com o bem estar da população LGBT. Tampouco o fato de gays e lésbicas poderem servir livremente no exército israelense atenua a repressão causada por seus soldados.

Engana-se quem pensa que os LGBTs palestinos teriam uma vida livre e plena em Israel. Em primeiro lugar, Israel não concede asilo ou refúgio a palestinos. Os que conseguem cruzar a fronteira, permanecem ilegais no país, sujeitos à deportação e sem acesso a qualquer serviço público básico ou emprego de qualidade. E os LGBTs palestinos que estão ilegais em Israel – estima-se que somente em Tel Aviv sejam 2 mil – ainda podem ser forçados pelas agências de inteligência a atuarem como espiões, sob pena de serem mandados de volta à suas comunidades com sua sexualidade plenamente revelada, acusados ainda de serem colaboradores do regime israelense. Logo se vê que Israel não está preocupada com a população LGBT, mas sim com a legitimação de seu sistema de apartheid.

Para se libertar das armadilhas postas pelo pinkwashing, é preciso reconhecer que a população palestina é diversa. É preciso entender que os LGBTs palestinos travam sua própria luta contra o preconceito de uma forma indissociável da causa da libertação nacional. Que existem organizações não governamentais trabalhando com todos estes aspectos dentro da sociedade palestina de uma forma corajosa e pedagógica, como a Al Qaws – que, em árabe, significa arco-íris – e a Aswat, que significa “vozes”. Entidades que não colocam os LGBTs palestinos na encruzilhada de terem que decidir entre suas comunidades e seus laços identitários e sua sexualidade ou identidade de gênero.

Encerro este texto com as palavras de Fahad Ali: “Eu sou árabe. Eu sou palestino. Eu sou gay. Meu paraíso não é uma parada cheia de glitter em Tel Aviv. É uma Palestina livre”.

Samir Oliveira
Author

Acabei me descobrindo jornalista enquanto observava o mundo de fora e militante LGBT enquanto experimentava a vida de dentro.

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