É bem possível que nenhum artista contemporâneo seja tão criticado no Brasil como Pabllo Vittar. Suas apresentações são minuciosamente analisadas. Qualquer deslize vocal torna-se imperdoável. O prazer em desqualificar seu trabalho revela a compulsão obsessiva de seus haters. A caixa de comentários – sempre ela – em qualquer post sobre a artista nas redes sociais e em portais de notícia comprova o que estou dizendo.

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Estou há algum tempo tentando entender esse fenômeno. Não encontrei respostas definitivas, mas tenho algumas hipóteses.

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Primeiramente, busquei no próprio sucesso de Pabllo Vittar a explicação para as críticas. Afinal parece natural que qualquer artista com uma grande base de fãs tenha, também, uma grande base de haters. Mas isso não é totalmente verdade. Caetano Veloso, Chico Buarque, Paul McCartney… Tento pensar em outros artistas com projeção multitudinária e não me recordo de ver nenhum deles gerar uma forte carga negativa de comentários em publicações a seu respeito.

Descartada esta hipótese, passo a focar na técnica vocal de Pabllo Vittar. Não entendo absolutamente nada de música e canto, tecnicamente falando. É claro que consigo identificar quando alguém desafina, quando algo está errado ou um pouco estranho. Mas é só. E Pabllo nunca me soou desconfortável de ouvir. Qual grande artista nunca desafinou, nunca falhou ao tentar atingir determinada nota ou alcançar um tom? Surpreendentemente, todos os haters de Pabllo Vittar tornaram-se críticos musicais de uma hora para outra, especialistas na mais fina análise de técnicas vocais.

https://youtu.be/EmxPMJ7UZ88

O mais recente campo de batalha neste sentido foi provocado por Ed Motta. Com mais de 400 mil seguidores no Facebook e um público cativo, o cantor postou um vídeo de Pabllo interpretando o clássico I Have Nothing, da Whitney Houston, no programa Altas Horas. Ed Motta não economizou elogios: “Eu chorei de verdade vendo porque não imaginava essa musicalidade, timbre lindo nas notas graves e quando atingiu as notas altas foi com propriedade. Depois conferi pelo YouTube que faz tempo que o talento dela é verdadeiro e genuíno”.

O comentário de Ed Motta enfureceu seus fãs, que se viram realmente perplexos e incapazes de entender como o ídolo poderia gostar de Pabllo Vittar. Cumpriram a própria expectativa do cantor, que, mesmo sem conhecer profundamente o trabalho da drag queen, já havia percebido que ela é alvo de críticas desproporcionais: “Muita gente denominada/inventada pelo mercado como ‘artista’ com grandes vendagens, premiações simuladas, não tem um terço da capacidade vocal de Pablo Vittar. Pablo faz um sucesso imenso, mas tem um exército de ódio yang que se incomoda profundamente com o que isso representa na sociedade obediente e engessada”.

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Só me restou uma última hipótese: a do preconceito. Relutei em aceitá-la, de tão óbvia e simples que aparenta ser. Mas é a única explicação plausível

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Veja bem, não estou aqui dizendo que quem não gosta de Pabllo Vittar é preconceituoso e homofóbico. Estou dizendo que preconceituoso e homofóbico é quem se orgulha de não gostar de Pabllo Vittar. Quem gosta de odiar seu trabalho, quem se incomoda com sua projeção e sente uma necessidade incontrolável de demonstrar a todo mundo o quão desconfortável se sente com a existência da artista.

O pior é quando utilizam outros ícones da arte LGBT para camuflar o preconceito. Como se gostar de Renato Russo, Freddie Mercury e Cazuza isentasse qualquer um de ser homofóbico. É o velho e bom “não tenho nada contra, inclusive tenho amigos que são”.

Discussões a respeito da qualidade técnica e artística de produções e agentes culturais são sempre perigosas. Primeiro, porque são extremamente subjetivas. Segundo, porque podem facilmente cair na vala comum do elitismo, que se expressa em todas as ideologias. Enquanto os conservadores de direita opõem uma certa noção elevada de cultura ao que se costuma classificar inferiormente como “cultura popular”, uma esquerda mais ortodoxa não cansa de responsabilizar as superestruturas da indústria cultural pela massificação de produções com suposta baixa qualidade. Um debate deste tipo está condenado a terminar pior do que quando começou.

O que importa é que uma drag queen de fora do circuito Rio-São Paulo, de origem humilde e vinda dos grotões do Brasil, esteja atingindo projeção internacional em sua carreira. No país que mais mata LGBTs no mundo, não é pouca coisa.

Foto: Mídia Ninja

Samir Oliveira
Author

Acabei me descobrindo jornalista enquanto observava o mundo de fora e militante LGBT enquanto experimentava a vida de dentro.

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