E se Jesus Cristo fosse uma travesti vivendo entre nós até os dias de hoje? Essa é a premissa do espetáculo “O evangelho segundo Jesus, rainha do céu”, dirigido por Natalia Mallo e interpretado por Renata Carvalho. Tive o privilégio de assistir à peça semana passada no festival Porto Alegre em Cena. Saí impressionado.

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É impossível não se comover com a potência revolucionária de seu texto e com a atuação primorosa de Renata. Ela sustenta o monólogo durante uma hora com força titânica

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O roteiro é recheado de parábolas bíblicas, como não poderia deixar de ser. Em muitos momentos, as referências são trazidas à luz da atualidade para refletir sobre problemas sociais e opressões a populações vulneráveis. Uma das cenas que mais me tocou foi quando Jesus relembra a tentativa de apedrejamento de uma mulher em praça pública. Num tom celestial, sua intervenção conclamou os presentes: “Quem nunca pecou que atire a primeira pedra”. E então a multidão se dissipou.

A Jesus travesti interpretada por Renata Carvalho domina na ponta da língua as gírias do mundo LGBT. Frequenta baile funk e celebra de forma quase divina o prazer em todas as suas formas – inclusive o sexual.

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O espetáculo é um grito de luta por direitos a mulheres, negros e negras e à população LGBT – especialmente à população trans. A cena final da peça é praticamente um manifesto

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Não sou um crítico de teatro. Este texto traz apenas minhas impressões leigas sobre o espetáculo. Uma dramatização que provocou a fúria de setores conservadores que consideram uma ofensa a possibilidade de que Jesus Cristo seja retratado como uma travesti e interpretado por uma atriz travesti.

Estes setores sentiram-se fortalecidos com a decisão vergonhosa do banco Santander de encerrar a exposição Queermuseu em Porto Alegre. Por isso, ingressaram na Justiça para censurar a peça em Jundiaí e levaram. Encontraram um juiz conservador o bastante para atender ao pedido, numa sentença que é uma verdadeira afronta ao Estado laico. Em Porto Alegre, duas ações foram protocoladas na tentativa de interditar a peça. Felizmente aqui a Justiça não vestiu a vergonhosa farda da censura. O magistrado declarou textualmente que impedir a realização do espetáculo é censurar a liberdade de pensamento e o avanço da humanidade.

Tive a oportunidade de conversar com a Renata Carvalho e a Natalia Mallo antes da peça, no teatro Bruno Kiefer da Casa de Cultura Mario Quintana. Elas gentilmente receberam ativistas do movimento LGBT da cidade e se mostraram muito interessadas na construção de necessárias pontes entre a expressão artística e a luta por direitos.

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O tiro dos reacionários saiu pela culatra

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A censura à peça em Jundiaí deu visibilidade ao espetáculo e gerou uma onda de solidariedade em torno de atriz Renata Carvalho. Isso ficou demonstrado em Porto Alegre através do encontro da atriz com os movimentos LGBTs e do expressivo público que lotou o teatro. A imprensa compareceu em peso para entrevistar a atriz e a diretora e realizar a cobertura da estreia da peça.

Em meio a tantos retrocessos, a plena exibição de “O evangelho segundo Jesus, rainha do céu” em Porto Alegre e o sucesso atingido pelo espetáculo soaram como um ritual de resistência e liberdade. Como disse Simone de Beauvoir: não existem tempos mortos. E nós estamos bem vivos!

Foto: Ligia Jardim/Divulgação

Samir Oliveira
Author

Acabei me descobrindo jornalista enquanto observava o mundo de fora e militante LGBT enquanto experimentava a vida de dentro.

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