No apagar das luzes da eleição presidencial e sem a real perspectiva de que haverá alguma mudança no resultado, precisamos pensar em como serão nossos próximos, no mínimo, quatro anos. Falo isso como mulher, cidadã, mas, acima de tudo, como jornalista.

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Precisamos estar atentos e fortes para não jogar pelo ralo toda a liberdade que conquistamos ao longo do período democrático

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A eleição de Jair Bolsonaro (PSL), depois de 28 anos no Congresso Nacional sem ter apresentado produtividade condizente com o tempo que ocupa os corredores da Câmara, tem como fator fundamental a imprensa. Sob o pretexto de ridicularizar um parlamentar que não sabia de leis, não tinha presença marcante em comissões e se orgulhava em ostentar comportamentos misóginos, homofóbicos e racistas, fomos dando voz e cara a Jair Bolsonaro. Antes desconhecido, migrando de partido em partido, hoje exerce uma atração quase gravitacional em torno de uma sigla que só existe em função de seu nome. Jair Bolsonaro é, em parte, fruto da imprensa e do discurso construído em torno da Lava Jato.

O atual processo eleitoral, disputado principalmente no território virtual das redes, talvez revele mais sobre nós do que estávamos preparados para digerir. Diferentemente das reuniões fechadas, dos discursos enlatados preparados para a televisão, o atual processo contou com a voz ativa da população. Ao final nos descobrimos misóginos, racistas, homofóbicos e altamente egoístas. Sempre fomos assim, mas agora temos um legitimador, um líder, alguém que nos guia e nos representa.

Em momentos como os que se aproximam, a imprensa terá um papel fundamental, quase pedagógico. Será nossa função, mais do que nunca, dar voz aos descalabros vindouros, fiscalizar os eleitos, contestar os generais e, acima de tudo, insistir por informação pública. A era Bolsonaro talvez inaugure no Brasil o “sistema Trump de comunicação”, em que todos os avisos, decisões, opiniões, decretos e defesas serão feitos pelas redes sociais. O twitter será a agenda oficial do presidente e o Facebook sua rede de TV particular.

O advogado Francisco Brito Cruz, que é diretor do InternetLab – um centro independente de pesquisa em direito e tecnologia que está monitorando os tipos de propaganda usados pelas campanhas durante as eleições 2018 – faz uma avaliação interessante na Folha de São Paulo nesta segunda-feira (22). Muitos pesquisadores internacionais têm discutido que as pessoas antes se alimentavam em fontes que passavam pelos protocolos jornalísticos e que agora, talvez, estejam se alimentando menos nessas fontes, o que pode ter um impacto em termos de desinformação. Os veículos profissionais têm de competir por atenção com conteúdos de propaganda política travestidos de notícia.

Se a internet será o novo território da discussão pública, aos jornalistas caberá ainda mais resistência. O acesso a documentos públicos será cada vez mais difícil e a Lei de Acesso à Informação será utilizada de maneira diária para os fins mais banais. O represamento de informações precisará entrar na nossa rotina e precisaremos estar dispostos a buscar mecanismos que nos permitam continuar trabalhando.

Só para ter uma ideia do que nos espera, cito aqui um levantamento feito pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a Abraji. Do início deste ano até o primeiro turno das eleições, em 7 de outubro, 137 jornalistas em todo o país foram agredidos ou ameaçados enquanto trabalhavam na cobertura do processo eleitoral. Do total de casos, 62 se referem a agressões físicas e 75 a ataques e ameaças pela internet.

A pergunta dos próximos quatro anos será: Como lidar com a realidade de que o jornalismo sai desta campanha com a imagem de ser o partido de oposição? O discurso não ataca a concentração de poder da mídia ou um preconceito de classe, ataca a identidade da mídia, justamente no momento de maior crise do jornalismo como negócio. Ironicamente, nunca foi tão importante fazer jornalismo.

Évelin Argenta
Author

Saiu de Porto Alegre e invadiu os estúdios da Rádio CBN, em São Paulo. Possui uma voz que associada ao raciocínio rápido produz o exemplo perfeito do que é jornalismo ao vivo de verdade. Com um pé na Itália e, direto da Serra Gaúcha, não dispensa uma festa. Mas é uma colona que só come uva in natura – passa a passa.

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