Não tem coisa que me revolte mais como pessoa do que violência, abuso, maus-tratos, abandono, enfim, tudo que envolva crianças. Ao mesmo tempo que me embrulha o estômago, desperta uma raiva que desconheço em mim.

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Engana-se quem acha que repórter é um ser frio, isento por completo ou que jamais se envolve com os fatos. Tem coisas que são difíceis demais de cobrir. Já até contei alguns casos aqui para vocês

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Pois bem. Esta semana ocorreu algo que não cobri, mas me revoltou e fez lembrar de outras coberturas. A história de uma guriazinha de cinco anos que teve uma baita coragem de, após um abuso em pleno supermercado de Porto Alegre, fugir do pedófilo e ainda contar para a mãe o que ocorreu.

Lembrei de uma semana há uns quatro anos. Era repórter em Porto Alegre e passei cinco dias cobrindo três casos de abuso sexual de crianças pelo interior do Rio Grande do Sul. Um delegado contou detalhes sobre um padre que abusava dos coroinhas da igreja. Foi insuportável de ouvir e nem tinha condições de publicar um relato tão escabroso. Os outros dois eram de pais que abusavam das filhas. Recordo bem de um em que a menina tinha somente dois anos. Eu disse dois anos.

É impossível ficar alheio ou não sentir nada diante de fatos como estes. Cada colega procura um meio de liberar sua indignação. Eu falo, escrevo, faço questão de publicar e publicar e publicar coisas como esta para que não se repitam. E que a atitude desta guriazinha sirva de esperança para que as futuras gerações tenham a coragem dela de lutar contra violências como esta. E com isso, quem sabe, as próximas nem tenham motivos para precisar de tanta coragem.

Renata Colombo
Author

Saiu de Porto Alegre e antes de invadir os estúdios da Rádio CBN, em São Paulo, trabalhava como repórter de política em Brasília. Possui 14 prêmios e é a única no rádio brasileiro a receber o prêmio Rey de España. Com um pé na Alemanha, adora uma cerveja se considera livre, leve e solta.

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