No mês de junho eu passei duas semanas produzindo  uma série de reportagens para falar sobre um tema que respeito muito: segurança pública. O desafio era mapear os principais problemas de segurança do estado mais rico da federação e lançar para os postulantes ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

Passei um dia inteiro lendo, relendo matérias, teses, artigos, conversando com especialistas da área até, enfim, delimitar cinco temas (correspondentes a cada um dos dias da semana). Passei outro dia inteiro digerindo a ideia de contar cada um deles em apenas três minutos e 30 segundos. É, amigos…rádio não é mais um latifúndio. Em tempos de 140 caracteres, quem tem três minutos é rei.

O resultado foi bom. Na exata semana em que a matéria foi ao ar, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública lançou seu anuário mostrando problemas, justamente, nas áreas que eu tinha selecionado. No dia da estréia a Ouvidoria das Polícias de São Paulo divulgou um relatório enfatizando os métodos bastante questionáveis da PM paulista.

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O primeiro capítulo foi ao ar falando sobre os desafios para frear a letalidade da polícia que mata muito. Em 2017, os policiais paulistas (civis e militares) mataram 942 pessoas. Isso. Quase mil pessoas foram mortas em 365 dias.

 

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Foi um recorde histórico desde 2001 – quando o acompanhamento começou a ser feito – e motivo de luz vermelha até para a Ouvidoria das Polícias. O órgão constatou que em 70% dos casos de morte houve excesso por parte dos policiais.

Para falar dessa história, conheci um grupo de mães que me contou como cada um de seus filhos havia sido morto “em confronto” com policiais. Curiosamente, esses casos não envolviam confronto embora, sim, esses jovens estivessem cometendo crimes na hora que foram mortos. Crimes pelos quais nunca foram julgados, por razões óbvias. Para lidar com a dor sozinhas, sem amparo do estado, elas formaram o Mães em Luto da Leste, um grupo de apoio para encorajar outras mães vítimas da violência policial.  A história de cada uma delas renderia uma série inteira.

Eu sabia que a repercussão entre os ouvintes paulistas – paulistanos, em sua maioria – seria negativa. Aqui, no estado mais rico do país, a segregação geográfica (a periferia é, de fato, na periferia) cega ainda mais a percepção dos cidadãos para a violência que acontece lá, depois das marginais.  Mas o que me surpreendeu foi a reação bastante legítima de uma colega que me questionou se eu não estava “falando só para a nossa bolha”.  Ela adorou a matéria, mas me alertou para o fato de a reportagem  “não tocar o coração” dos nossos ouvintes, já que a real preocupação deles era com a “sensação de insegurança” no estado.

Isso me fez pensar muito sobre as bolhas. Será que falar do perigo que representa termos uma polícia altamente letal é falar para um nicho específico? Será que a grande maioria das pessoas entende quando ouvimos especialistas falando em “necessidade de intervenção séria para frear a alta letalidade policial, fruto de uma escolha política, desde os tempos da república velha”

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“As pessoas não querem ouvir do candidato que ele vai investir em políticas públicas de educação para evitar que jovens entrem para o crime”, me disse ela. “Elas querem ouvir da boca do candidato: não vou deixar seu filho virar bandido”, completou.

 

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E faz todo o sentido. Faz todo o sentido na nossa sociedade pautada pelo medo. O medo de morrer num assalto, o medo de morrer por engano, o medo de ser estuprada, o medo de reagir mal, o medo de sair na rua.  A tal sensação de insegurança.  Faz todo sentido que isso toque o coração de uma sociedade que tem 29% dos adultos de 15 a 64 anos analfabetos funcionais – o equivalente a cerca de 38 milhões de pessoas. Como esperar que seja feita uma relação complexa de causa e efeito, quando o básico não fica claro.

É aí que está o perigo daqueles (não vou nomear, pois não é preciso) que falam o que o cidadão amedrontado quer ouvir e, por outro lado, daqueles (novamente não falo nomes)  que defendem a salvação do mundo através de saraus de poesia e aulas de bambolê.

Pensei muito sobre isso e sobre a nossa real função no jornalismo, na comunicação. Será que estamos falando para bolhas? Esse medo exagerado também não é, de certa forma, fruto do viés que escolhemos para tratar da criminalidade? Fruto do estereótipo do criminoso? Do desespero por achar culpados? Não seria essa sensação se insegurança também uma bolha?

A repercussão das outras matérias não foi diferente. Quando mostrei a falta de estrutura e superlotação dos presídios paulistas e que, por isso, prender demais  não resolve, recebi um e-mail de um ouvinte dizendo: “não quer chorar no rádio, não cria filho bandido”. Quando falei da falta de controle que o estado tem sobre as armas apreendidas e registadas, recebi outro dizendo “ah, então só o bandido pode ter arma, mocinha”?

No final dos cinco capítulos  eu me questionei mais do que quando comecei a empreitada. Por estar fora da lida diária da reportagem há um tempinho, isso mexeu comigo, especialmente. Mas acho que fiz a coisa certa. Não estamos aqui só para criar conteúdo sob demanda. É preciso causar desconforto. Nem que seja em nós mesmos, nas nossas convicções.

Para entender, sugiro a audição da série de reportagens

Violência Policial você ouve aqui

Desvalorização das polícias investigativas você ouve aqui 

Superlotação dos presídios e PCC você ouve aqui 

Descontrole no uso de armas de fogo você ouve aqui 

Crescimento nos registros de estupro você ouve aqui 
Évelin Argenta
Author

Saiu de Porto Alegre e invadiu os estúdios da Rádio CBN, em São Paulo. Possui uma voz que associada ao raciocínio rápido produz o exemplo perfeito do que é jornalismo ao vivo de verdade. Com um pé na Itália e, direto da Serra Gaúcha, não dispensa uma festa. Mas é uma colona que só come uva in natura – passa a passa.

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