Por Leandro Godinho*

Tomo a liberdade de considerar que se você está lendo esse texto, é porque já sabe que, na noite de 19 de novembro passada, João Alberto Silveira Freitas foi espancado até a morte por duas pessoas que trabalhavam na segurança do supermercado Carrefour, em Porto Alegre.

.
João Alberto, o Beto, era um negro
.

Muito já foi dito sobre o ocorrido. Dentro desse muito, uma edição do podcast Bendita Sois Vós, publicado nesta quarta-feira, dia 25, que trouxe para a sua bancada outros dois jornalistas: Maikio Guimarães e Marcelo Nepomuceno. Aos 12 minutos e 20 segundos do programa, Geórgia Santos, a apresentadora do podcast, elabora uma pergunta que me fez sentar aqui para escrever essa espécie torta de resposta, ou tréplica — porque a pergunta, na verdade, foi respondida durante a gravação por Nepomuceno: aconteceria com uma pessoa branca o que aconteceu com o Beto?

Grande parte da tragédia do nosso racismo, para mim, passa pela dificuldade de responder a essa pergunta. Não porque o racismo seja algo difícil de ser visto no Brasil. Alguém que esteja lendo essa frase nunca ouviu ou contou uma piada de preto na infância? Alguém nunca ouviu a frase “preto correndo é ladrão”? “Nêga do cabelo duro” não é título de apenas um grande sucesso do cancioneiro musical brasileiro, mas de dois. (E não estou citando todo um universo de dados computados que nos dizem, há anos, que a pele negra torna a vida de qualquer pessoa, mas em especial de pobres e mulheres, muito mais difícil no Brasil — o que não é privilégio nosso, porque o mesmo fenômeno acontece no mundo todo.)

A tragédia, penso, é que mesmo dentro dessa realidade, uma realidade onde a gente sabe o nome das pessoas negras que, por exemplo, sentam na bancada de um telejornal (porque todas as outras são brancas), ou são nomeadas para o Supremo Tribunal Federal (porque todas as outras são brancas), ou chegam a qualquer lugar de destaque onde as pessoas são sempre, sempre, sempre brancas, o racismo não vira um assunto.

.
Porque para ser assunto, o racismo ainda precisa do aval das pessoas brancas, que não são as vítimas
.

Acontece que não basta ser branco para não ser um fodido no Brasil. Existem pessoas brancas e pobres, e mais do que apenas pobres, mas fodidas — sem a perspectiva do acesso a uma vida melhor. Essas pessoas também são maltratadas pelo país, pela vida, também estão sujeitas ao que a vida reserva para quem não pode pagar plano de saúde, escola particular, condomínio: elas também não podem passear no shopping, entrar nos bancos, frequentar salas de embarque de aeroportos sem parecer corpos estranhos.

Talvez para essas pessoas, quando um negro acusa o racismo, ele está se valendo de algo que ela não tem — a pele negra — para fugir dessa miséria. O racismo, que é crime, pode ser confundido com uma espécie de privilégio dentro da nossa tragédia racial. Para essas pessoas, ser vista como alguém a ser esculachado porque parece pobre demais para ter direito a ter voz também deve ser uma realidade muito concreta. Quando uma pessoa negra aponta o racismo, essa pessoa percebe que perdeu mais uma vez: se acontecer comigo, o que vou dizer?

.
Mas é claro: quando acontece, a gente sabe, a vítima tem pele negra
.

Não é à toa que moramos num país onde minorias lutam para que racismo, feminicídio e homofobia sejam judicializados. Isso não é privilégio. Ser negro, ser mulher e ser gay nesse país não é privilégio. Pessoas negras, mulheres e gays sofrem violências cotidianas porque apenas são. Estar bem vestido não garante a quem tem pele negra a segurança de dormir em casa.

Beto, lembremos, estava com a sua esposa na fila de um supermercado, pagando as compras. Algo se passou nessa cena que atraiu os seguranças para Beto e partir daí, Beto deixou de ser um homem para ser um negro que não aceitou o esculacho. E foi assim que mataram mais um preto no Brasil.

*Leandro Godinho, servidor público

Texto originalmente publicado na página Peço Perdão, no Medium

.

Imagem: montagem com foto de Luiza Castro, do Sul 21, durante protesto realizado em Porto Alegre em 20/11/2020

Colaborador Vós
Author

Contamos com a COLABORAÇÃO ATIVA dos nossos leitores, que podem nos enviar seus textos de acordo com as nossas orientações. Os autores voluntários são muito importantes para que todas as vozes sejam ouvidas. Sem a participação da comunidade, não teremos a humanidade de volta.

Comentários no Facebook