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Quem são esses homens nas calçadas? Faço essa pergunta com certa frequência. Algumas vezes em voz alta. Quem são os homens nas calçadas, vendendo tantas coisas? De onde vem? O que fazem? O que pensam? Alguns sorriem. Outros mal piscam. As pálpebras que abrigam aquele olhar distante parecem imóveis. Tantos com jeito de solidão. É como se estivessem sozinhos em pleno centro da inquieta Porto Alegre. Quem são, de verdade, esses homens nas calçadas?

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Ele vestia camiseta e bermudas brancas, duas peças simples que cresciam em contraste com a pele retinta e a luz do final de tarde. Não sei se posso dizer que eram bermudas, talvez fossem o que eu chamava de capri na adolescência, um tipo de calças curtas, abaixo do joelho. Usava chinelos, estava à vontade com a areia entrando em contato com os pés. Era estiloso. A roupa toda era parte de um costume que ele arrematava com uma fina jaqueta de uma conhecida marca esportiva. Tinha capuz. Adidas, talvez? Acho que lembro das listras confundindo-se com os dentes perfeitos que apareciam com o sorriso fácil e autêntico, típicos de alguém que não conhece a timidez. Ele dava todos os indícios de que queria conversar. De que precisava conversar.

Conheci-o na praia do Quintão. Enquanto minha mãe negociava uma rede com seu Messias, distraí-me com as dezenas de óculos que esse imigrante vendia na calçada da esquina da farmácia, pertinho do Asun. Tinha uma coleção incrível. Ele sorria. Aquele mesmo riso fácil e autêntico permanecia, inabalável. Enquanto eu experimentava alguns modelos e demonstrava uma extrema incapacidade de colocá-los de volta no lugar apropriado, dona Gertrudes apareceu sem que eu percebesse e, com a nova rede em punho, recriminou meus impulsos.

 

“Mais óculos, Geórgia? Isso é quase uma obsessão.”

“Mãe, não é tanto assim.”

 

Era tanto assim. Eu ria e tentava convencer a ela e a mim de que eu precisava realizar aquela compra. Afinal, o preço estava tão bom e as armações tão bonitas e eu tão afim. Ele também ria enquanto ela revirava os olhos e eu fingia que não era comigo. Despedi-me sem perguntar seu nome. Eu tinha pressa, o vento era intenso e eu oscilava entre quase quebrar os dentes ao mastigar grãos de areia, tentar manter os olhos abertos e domar meu cabelo, que parecia preso em um vórtice de redemoinho. Fui, mas determinada a voltar.

Voltei. No dia seguinte, parei na mesma esquina movimentada e ele sorriu novamente, novamente fácil, novamente autêntico. Ele havia lembrado de mim. Não só de mim.

 

“Cadê a mãe? Não veio hoje?”, perguntou rindo, provavelmente revivendo na memória a cena ridícula da qual fomos protagonistas no dia anterior.

“Hoje não. Fugi!”, respondi brincando.

 

Nem tão brincando assim. Aproveitei a companhia do marido pouco preocupado com o que eu faço com meu dinheiro e comprei os óculos sem os olhares maternos de desaprovação. Com mais calma e menos vento, perguntei seu nome.

 

“Mamadou.”

 

Mamadou é esse homem de 27 anos que está no Brasil há dois. Chegou à procura de emprego, assim como a maioria dos 1,06 milhão de estrangeiros que vivem no país, segundo dados do Ministério da Justiça. Mais de 50 mil estão no Rio Grande do Sul. A socióloga Aline Passuelo, à época da entrevista, trabalhava com Grupo de Assessoria a Imigrantes e Refugiados (GAIRE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),  que presta gratuitamente assessoria jurídica, psicológica e social. Ela explicou que os estrangeiros que chegam ao Rio Grande do Sul vem, principalmente, do Haiti, Senegal, Colômbia e Síria.

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“SOU DO SENEGAL. JÁ OUVIU FALAR NO SENEGAL?”

“Claro, Mamadou.”

“Mesmo? Muita gente não sabe onde fica o Senegal.”

Senegal. Foto: Vladimir Zhoga / Shutterstock.com

O Senegal é daqueles lugares em que a natureza hipnotiza. As cores são quentes, as roupas compõem um mosaico em contraluz enquanto a terra e o pouco verde se encontram perto da água salgada. Há muito tempo é considerada uma democracia bem-sucedida da África Ocidental. Desde a independência da França em 4 de abril de 1960, já são décadas de tradição de governos estáveis e comando civil. Também é um país extremamente seguro. A capital Dakar é berço de artes com sua Village des Arts, lar e galeria de cerca de 50 artistas. Também vem de lá o primeiro filme do continente. Borom Sarret (1963), do diretor senegalês Ousmane Sembène, foi o primeiro filmado na África por um diretor africano e negro. É de tirar o fôlego.

Mas é daqueles lugares que tira o fôlego e não devolve. O país é um dos mais pobres do mundo. Na comparação com o Produto Interno Bruto (PIB) de outras nações, dados Banco Mundial mostram o Senegal na 154º posição em uma lista de 185. O resultado é um também baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), uma medida comparativa de fatores como riqueza, alfabetização, educação, expectativa de vida e natalidade. Na classificação da Organização das Nações Unidas (ONU), o Senegal ocupa a posição de 162 em um rol com 168 países.

Com 15 milhões de habitantes, a maioria da população é composta por jovens que não tem emprego ou oportunidades em uma terra que sobrevive da agricultura e precisa enfrentar as secas cada vez piores. A nuvem de poeira pode ser bonita ao expectador do célebre Rally Dakar, mas na realidade é a representação da sede, da falta de ar, de um destino árido. A solução é encontrar o futuro em outro lugar.

Senegal. Vladimir Zhoga / Shutterstock.com

A professora Juliana Rossa auxilia os imigrantes senegaleses em Caxias do Sul de diversas formas e, após alguns anos de convívio e uma longa visita ao país, percebe que há um padrão no perfil do imigrante. “A família costuma escolher um representante para migrar, ele vai ter uma responsabilidade com a família que ficou. Esse representante é jovem, saudável, com muita vontade de trabalhar e, geralmente, instruído.”

É do Senegal que vêm os homens nas calçadas. Vêm para trabalhar. Como diz a professora Juliana, “se não fosse o trabalho, seria turismo”. E com certeza não é turismo.

A imigração do Senegal não é um movimento recente. Após a independência da França, em 1960, homens senegaleses migraram para os Estados Unidos e Europa à procura de algo em que acreditar. O pai de Mor Ndiaye foi para a Espanha na década de 80, mas ele resolveu vir para o Brasil, à procura do lugar que aparecia nas histórias contadas por um amigo quando eram crianças. “Eu tinha um amigo de infância que passava as férias aqui, o pai dele trabalhava no consulado em São Paulo. Quanto ele voltava, ele só falava nisso. Então eu cresci e escolhi o Brasil para viver.”

Mor chegou em 2008, quando ainda havia poucos compatriotas em Porto Alegre. Mas em 2014 o movimento migratório aumentou quando uma terrível estiagem acometeu o Senegal ao mesmo tempo em que o mercado brasileiro precisava de mão de obra em função da Copa do Mundo. Milhares de senegaleses decidiram procurar pelo futuro no Brasil.

Mor Ndiaye, Presidente da Associação dos Imigrantes Senegaleses. Imagem: Catraca Filmes

“A gente sabia que o Brasil era muito violento e difícil, mas também um país de alto crescimento. Quando eu cheguei, cheguei na época em que oportunidade estava sobrando.” Mor trabalha como Relações Públicas em uma grande empresa, encontrou a oportunidade que procurava. Mesmo privilegiado, porém, ele sabe como é difícil despencar em um estado como o Rio Grande do Sul. Por isso, criou a Associação dos Imigrantes Senegaleses para ajudar aos mais de 4,2 mil patrícios que vivem no Estado – 1200 somente na capital e em torno de 800 em Caxias do Sul.

“Tu gostas de morar aqui, Mamadou?

“É bom aqui, a gente consegue ganhar um dinheirinho para viver com dignidade e ajudar a família. Mas tem que trabalhar bastante. Bom, em qualquer lugar do mundo tem que trabalhar bastante, não é mesmo?”

“É mesmo. Mas ainda é bom?” 

“Quando cheguei, não demorei para conseguir trabalho. Trabalhei em muitas coisas, tinha emprego fixo. Mas agora já não é assim. Então tive que procurar o que fazer.”

Mamadou não é lacônico, apesar do tom, tampouco  pessimista. Nada disso. Disse com o sorriso. Aquele fácil e inabalável.

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QUE FAZER? 

O BRASIL ENTRE OS DESEMPREGADOS E OS EXPLORADOS

O otimismo não altera o fato de que a conjuntura mudou muito em menos de quatro anos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, no período de novembro a janeiro do ano passado, 12,7 milhões de pessoas estavam desempregadas no Brasil. É praticamente a população do Senegal inteira. E isso, obviamente, afeta os estrangeiros. A advogada Márcia Abreu, do Serviço de Assessoria Jurídica Universitária da UFRGS (Saju), esclarece que, em 2014, as principais dificuldades enfrentadas pelos imigrantes eram o idioma (os senegaleses falam francês) e falta de moradia, além da questão da regularização de documentação. Hoje, é a falta de emprego. “Antes já era um problema. Em qualquer entrevista de emprego, inclusive no Sine, quando viam que era imigrante, nem olhavam o currículo, já davam subemprego. E agora mudou bastante, a gente tá vivendo um momento muito diferente, não tem comparação com anos atrás.”

Mamadou não me disse o sobrenome, mas contou que está feliz por poder trabalhar de forma tranquila, alimentar-se, dormir bem. Ele sabe que é, de certa forma, privilegiado. A maioria demora para conseguir uma vida estável e isso faz com que perdure uma condição de extrema vulnerabilidade. E os problemas que se acumulam com a falta de emprego são inúmeros e imensos e desumanos. “A maior preocupação do imigrante é trabalhar, para dar um começo e se regularizar. Ele não vai se preocupar tanto com o tipo de serviço que ele tem escolher, qual salário vai receber e onde trabalhar. Muitas vezes, imigrantes trabalham em serviços que os brasileiros não trabalham, mas isso não deixa de ser um serviço digno.”

Mor conversava comigo em uma sala que fica no quarto andar de um prédio no centro de Porto Alegre. Na Rua dos Andradas, antes e sempre Rua da Praia. Enquanto ele fala sobre a procura de serviço, da janela eu avisto os homens nas calçadas. Não vejo Mamadou. Mas vejo Mohammed, cujo nome ainda não sei mas com quem prometo conversar. Não consigo parar de pensar no quão vulneráveis eles estão. E eles estão. Nossa conversa é interrompida por um rapaz que preferiu não divulgar o nome.

“Esse rapaz aqui é um exemplo do que eu estava te falando.”

“Ele sofreu algum tipo de exploração?”

“Sim. Ele estava trabalhando num local e foi demitido meses depois sem justa causa. Não recebeu direitos, não recebeu salário, não sabe a quem recorrer e vai acabar entrando numa vida vulnerável. Mas não é só ele. Isso mostra que uma grade quantidade de imigrantes vive nessa situação.”

E bastou falar da primeira história para os relatos de opressão brotarem na memória dolorida de quem vê as consequências da escravidão entranhadas no racismo estrutural do Brasil.

 

“Tem outro caso de três imigrantes que estavam trabalhando e foram demitidos. Três meses sem receber salário, mais de três anos sem férias.

“Uma menina trabalhava de empregada em uma casa, se acidentou dentro do serviço porque ela trabalhava mais do que deveria. Trabalhava quase 24 horas por dia. Ela morava no serviço. Ela não tinha horário pra começar e terminar. Acordava antes de todos, ia dormir depois de todo mundo. Então ela caiu, fora do horário que deveria ser o serviço, mas estava trabalhando. Quebrou o braço. Só que a empregadora disse pra ela não falar que estava trabalhando. No final das contas, ela foi mandada embora, não recebeu salário, não tinha onde morar e ainda ficou sem poder trabalhar.”

O procurador Luiz Alessandro Machado, do Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Sul (MPT-RS), conta que, há dois anos, foi instaurado um procedimento promocional (3124/2016) para tratar dos imigrantes que vivem no Estado. Principalmente em relação ao trabalho escravo, tráfico de pessoas e discriminação. “Os imigrantes muitas vezes não sabem aonde denunciar, não tem em quem confiar, tem dificuldade em se comunicar, isso faz com quem fiquem muito mais vulneráveis à exploração.”

Há inúmeros registros de caso de exploração e/ou racismo no interior do Estado envolvendo senegaleses e haitianos. E há casos envolvendo pessoas de outras nacionalidades. Na região de Passo Fundo, nos municípios de Arvorezinha e Doutor Ricardo, o MPT desvelou um esquema de aliciamento de trabalhadores uruguaios, paraguaios e argentinos para a produção de erva-mate. Inclusive com intervenção dos chamados atravessadores – ou coiotes. Eles eram mantidos em condições degradantes e análogas ao trabalho escravo.

O órgão esbarra na resistência dos imigrantes em levar adiante as denúncias de abuso. “A maioria só  vem em situação extrema, quando não recebe o dinheiro e quer ir embora.” Ele lembra, porém, que os imigrantes podem se sentir seguros ao conduzir qualquer denúncia ao MPT, que pode ajudar, inclusive, na produção de novos documentos. A aprovação da resolução normativa 122 dá aos procuradores a atribuição para requerer o visto a quem foi vítima de exploração ou tráfico de pessoas. Com isso, podem permanecer no Brasil por até cinco anos.

Mas o procurador admite que há falhas na verificação dos problemas. “A gente tá fazendo um mapeamento da situação e abriu um procedimento investigatório para cada uma das empresas que empregam trabalhadores imigrantes e pedimos fiscalizações para o Ministério do Trabalho.” Até o momento, os maiores problemas estão vinculados ao assédio moral e discriminação racial.

A limitação maior está na verificação do trabalho informal, no qual o procurador Luiz Alessandro Machado reconhece haver espaço para atuação. O RS é o terceiro estado que mais emprega imigrantes no país (10%), mesmo assim, cada vez menos os senegaleses conseguem emprego com carteira assinada. Em 2014, o mercado formal absorvia os recém chegados na construção civil, em grandes fábricas, empresas de limpeza e serviços gerais e, principalmente, em frigoríficos. Com o crescimento da exportação de carne para países árabes, cresceu a demanda de mão-de-obra muçulmana para executar o abate halal, que é a forma como um animal deve ser abatido de acordo com as leis do Alcorão. Mas com a crise econômica, política e social que o Brasil enfrenta, os imigrantes foram os primeiros demitidos. E se já era raro que alguém valorizasse sua capacidade intelectual, a conjuntura política brasileiro dificultou isso ainda mais. A professora Juliana Rossa contou que até o currículo pode ser um problema. As documentações são diferentes, os endereços fluidos e comprovantes são difíceis de apresentar. “Tem muitas particularidades no mundo do trabalho, e esse mercado não se abre pra eles.”

Mamadou, então, recorreu ao que sabe.

“Eu gosto de vender. No Senegal, a maior parte das pessoas trabalha na agricultura, mas não tem espaço pra todo mundo. Então o jovem vende. A gente começa a vender cedo.”

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QUEFAZER 

O SENEGAL E UMA POPULAÇÃO MOLDADA PARA O COMÉRCIO

Em um erro de digitação, descobri a existência da palavra “quefazer”. Assim mesmo, tudo junto. Minha ignorância me impedia de saber que significa ocupação. Conforme o dicionário, é um vocábulo descrito como o trabalho que se faz por hábito, costume. Imediatamente pensei nos homens nas calçadas. Não é por acaso que eles optam pelo comércio ambulante. No Senegal, 70% da população é formada por jovens que não tem onde trabalhar em um país que sobrevive da agricultura e sofre com as estiagens. Como consequência, eles migram para as grandes cidades na esperança de serem absorvidos pelo comércio, uma arte que se não é inata os acompanha desde muito cedo e faz parte da cultura do país de maioria muçulmana.

Juliana Rossa é jornalista e professora da Faculdade Murialdo de Caxias do Sul. Há mais de cinco anos convive com os imigrantes e pesquisa sobre aspectos culturais específicos do Senegal. No doutorado em Letras pela UCS/UniRitter, centrou o estudo na poesia oral e na performance dos cantos religiosos. A caxiense viajou ao país, onde pôde não apenas aprofundar a investigação mas também desvendar um vínculo fortíssimo entre a religiosidade e a habilidade comercial.

Estima-se que 94% dos senegaleses sejam muçulmanos. O islamismo praticado no país é influenciado pelo Sufismo, conhecido como uma corrente mística que tem no Muridismo uma das fraternidades mais expressivas na etnia Wolof (que abrange quase metade da população do Senegal). O aspecto religioso é tão importante na sociedade que as crianças são encaminhadas para uma escola árabe desde muito cedo. Geralmente, os meninos passam a frequentar a escola corânica a partir dos cinco anos.

“Eles aprendem árabe e decoram o Alcorão. Dependendo da família, a criança fica mais ou menos tempo. Essas escolas corânicas são mantidas com doações, são espaços em que as crianças passam o dia relativamente sozinhas e precisam aprender a “se virar”, com pouquíssimo tempo para brincar. Essa escola caleja a personalidade deles. Por exemplo, às vezes, para almoçar, eles precisam pedir comida nas casas dos vizinhos. Ao fazer esse gesto, eles se colocam humildes. É como uma troca. Ao pedir ajuda, eles também se dispõem a ajudar, a tratar a todos muito bem e com muito respeito. Então, porque eles vendem muito bem? Porque eles retornam a essa formação inicial.”

Um professor senegalês foi quem explicou a relação à Juliana. É uma espécie de solicitude que se aprende desde muito cedo, como uma permuta de gentilezas. Algo que é reforçado nas pessoas que, dentro do Muridismo, praticam a corrente Baye Fall, facilmente identificáveis pelas roupas coloridas e os dreadlocks – às vezes confundidos com os Rastafari. “Se tu encontrares um Baye Fall e tu estiveres com frio, ele vai tirar a roupa que tem para que tu não sintas frio. Se há uma festa religiosa, ele vai cozinhar, ele vai fazer, ele que vai ajudar.”

O relato da professora Juliana Rossa mostra como a negociação faz parte de quem eles são. Eles vendem, vendem, vendem eletrônicos, vendem comida, vendem arte, vendem roupas, vendem.

Senegal. Vladimir Zhoga / Shutterstock.com

“A gente nasce naquele ambiente em que as pessoas vendem na rua. Muitas pessoas que estão aqui, já vendiam lá.” Mor não é vendedor, mas confirma que há essa preparação. As cidades estão envoltas na atmosfera das transações comerciais. Por isso, diante da crise no mercado formal brasileiro, recorrer ao comércio ambulante e informal é uma escolha natural para os senegaleses. Natural, mas não significa uma alternativa fácil.

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“O IMIGRANTE, QUANDO DECIDE SAIR, JÁ ESTÁ PREPARADO. TU TÁ INDO PRA OUTRO PAÍS, TEM QUE TOLERAR CERTAS COISAS.”

 

É preciso coragem para enfrentar as ruas na branca Porto Alegre. As certas coisas a que o Mor se refere em tolerar são pesadas. Não demoro para perceber que ele está falando de racismo, xenofobia, intolerância em todas as formas, preconceito de todos os jeitos.

“Se eu saio na rua e paro ali no menino que tá vendendo, em dez minutos eu vou reparar em alguma coisa preconceituosa que ele não vai perceber.”

“Como assim?”

“Porque eu estou aqui há mais tempo. Sou mais ligado.”

“Tu falas de racismo velado?”

“Isso, são pequenas coisas que eu percebo.”

“E coisas nem tão pequenas, acontecem?”

“Sim. Na semana passada, por exemplo, eu fui no tabelionato acompanhar alguém que precisava da minha ajuda para autenticar um documento. Quando a gente chegou o cara falou que não ia autenticar porque não era um documento oficial. Só que era um documento da Polícia Federal. O menino ficou arrasado.”

Eu recebo a informação com assombro. É o tipo de história que todos sabemos que existe, mas envergonha a confirmação. Acho que não consigo esconder o constrangimento e o rubor que toma conta do meu rosto. Mor se apressa em explicar que a maioria dos gaúchos trata os imigrantes com respeito, mas insisto que ele fale de quem não o faz. Superada a resistência inicial, ele emenda um desabafo no suspiro.

 

“A palavra “racismo”. Eu conheci o significado dessa palavra na prática há pouco tempo. Não é um problema no Senegal, mas aqui parece que vai ser sempre. Agora há pouco eu conversava com alguém que foi contratado em uma grande empresa, com carteira assinada, para um bom cargo de nível superior. Ele foi lá hoje e foi apresentado à pessoa que seria sua chefe. Ela olhou pra ele e disse: “eu não quero esse cara.”

“Por causa da cor.”

“Sim, por causa da cor. O racismo no Brasil existe e os imigrantes sofrem diariamente. E o problema não é ser imigrante, é ser imigrante africano e negro. O imigrante europeu com a mesma formação não encontra as mesmas dificuldades. O negro brasileiro sofre e o negro africano sofre.”

Conforme ele fala, meus ombros pesam com a vergonha que todo brasileiro deveria carregar. Imediatamente me lembro de uma frase da socióloga Aline Passuelo, com quem eu havia conversado muito tempo antes. “Jamais vou esquecer de um imigrante que me disse que descobriu que era negro no Brasil. Ele descobriu que ser negro era um problema no Brasil.”

Eu também jamais vou esquecer do que a Aline me contou. Em pleno século XXI, o negro africano atravessa o oceano para descobrir um país que não se permite livrar da cruel e torpe tradição escravagista. E esse comportamento social tem um impacto devastador no imaginário dos imigrantes senegaleses, que aguentam em silêncio e sozinhos. Não são poucos os que apresentam transtornos psicológicos, geralmente relacionados à depressão.

 

“Sofrem calados porque todos os dias acontecem pequenas coisas.”

“Tipo o que, Mor?

“O imigrante vai na farmácia e é ignorado. Vai na padaria e alguém repara na cor, que tem sotaque diferente, e não é atendido. Começa a ser tratado de forma diferente.”

“E como ele reage a essas coisas?”

“Ele não tem com quem reclamar, geralmente passa por tudo isso sem reclamar. Isso choca.”

E como. E acabam se fechando. Quando conheci o Mamadou, percebi que havia algo diferente. Ele queria conversar, precisava conversar e assim o fez. Abertamente. Com aquele sorriso fácil e inabalável. Isso era incomum. Nas outras vezes em que abordei um imigrante, fosse para uma conversa, fosse para uma entrevista, a resposta era amigável mas monossilábica. Mor me disse que era medo de ser julgado e maltratado. Fazia sentido. As palavras vinham carregadas de desconfiança, de receio. Foi assim com Mohammed, o menino que eu avistei da janela enquanto falava com Mor. Desligado o gravador, fui até ele. Comprei um cabo para o carregador do meu celular por quinze reais e perguntei seu nome. Ele me olhou com surpresa. Respondeu, mas cabreiro. Foi quando lembrei de algo que poderia quebrar o gelo.

“Tu foste levar uma chave a pedido do Mor para a senhora da portaria, não é mesmo?”

“Sim, como você sabe?”

“Eu estava sentada nas cadeiras que ficam na entrada.”

“Ah, sim. Agora eu me lembro.”

“Estava justamente aguardando para conversar com o Mor, estou fazendo uma reportagem sobre a vida dos imigrantes senegaleses aqui no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre. ”

“Que bom.”

“Tu vives aqui há quanto tempo?”

“Há dois anos. Eu tenho 22 anos, cheguei aqui com 20.”

“Vende bastante?”

“Não posso me queixar.”

“E gosta de morar aqui?”

“É bom, eu consigo ajudar minha família. Mas quero voltar.”

Quando ele encolheu os ombros e desviou o olhos, as palavras do Mor ecoaram nos meus ouvidos. Sorrio. Ele sorri de volta. Desejo sorte a ele e sigo meu rumo.

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FAZER O QUE? 

 

Meu avô fala muito isso. Seu Orozimbo é neto de imigrantes italianos. A família Pellizzaro chegou no Rio Grande do Sul no final do século XIX. Esquálidos de fome, pálidos de frio e vestindo farrapos. Chegaram aqui, há mais de cem anos, em busca de uma oportunidade, por menor que fosse.

Das histórias que o nono Giuseppe contava, creio que não figuravam relatos de preconceito. Em nenhum momento surgia a dor de ouvir de um brasileiro que eles estavam ali para roubar empregos ou para trazer doenças. Pelo contrário, eles inclusive foram incentivados pelo governo brasileiro. Ganharam terrenos para colonizar. E prosperaram. Alguém acreditou neles e eles tiveram a chance de prosperar.

“A gente só precisa de uma mínima oportunidade. De consideração e respeito.”

Imigrantes senegaleses trabalhando nas ruas de Porto Alegre. Foto: Geórgia Santos

São jovens. Estão batalhando, trabalhando, vivendo longe dos pais, longe da família, longe de tudo o que conhecem. Longe de festas em que toca mbalakh. Longe da voz de Youssou N´Dur. Longe das plantações de mil e dos pratos de diakhouté. Fazer o que?

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“Prazer em te conhecer, Mamadou.”

“Também, Geórgia.”

Não era uma entrevista. Era apenas uma conversa, eu só queria saber quem ele era, de verdade. Fiquei feliz em ver que era um cara cheio de sonhos, feliz, que corre atrás daquilo que acredita. Foi assim que conheci um dos homens nas calçadas. Espero que o sorriso continue fácil e inabalável.

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Reportagem: Geórgia Santos

Vídeo: Catraca Filmes

Geórgia Santos
Author

Jornalista, radialista, cientista política e uma viajante inveterada. Tem uma relação de amor com a comida. Gringa, não recusa um vinho e uma polenta. Fez da viagem um objetivo de vida. Lisboa é um dos seus lugares preferidos no mundo, embora as melhores histórias estejam na Itália.

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