“O rock n’roll é mais importante para a economia da Grã-Bretanha do que o carvão”

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A frase, atribuída a Tony Blair, foi citada durante o debate Políticas Culturais, realizado dentro da programação do Poa Jazz Festival. A declaração teve como objetivo enfatizar como em outros países a Cultura é vista como um instrumento de aquecimento econômico, à exemplo também de Hollywood e da indústria fonográfica norte-americana.

Abordar “os caminhos e propostas para governos e projetos privados”, conforme cita o subtítulo desse debate, tornou-se um assunto primordial para quem vive (e sobrevive) da Arte no Brasil, após uma campanha presidencial em que a candidatura eleita demonizou o meio cultural. Parte da opinião pública acredita nas declarações reiteradas de que os artistas não iriam mais mamar nas tetas do governo, em uma referência à Lei Rouanet e demais leis de incentivo mantidas pelo poder público.

A conversa realizada no dia 20 de novembro, em Porto Alegre contou com a modesta presença de 25 espectadores, em um evento gratuito e realizado no Studio Clio, um centro cultural localizado em um bairro central da cidade. Participaram Rafael Balle (coordenador do Procultura-RS), Flávio Adonis (ex-secretário de Cultura de Canoas, município na região metropolitana de Porto Alegre), Alexandre Vargas (gestor cultural) e Tarson Nuñez (doutor em Ciência Política), com mediação de Carlos Badia, curador do POA Jazz Festival. O secretário de Cultura da capital, Luciano Alabarse, deveria participar do bate-papo, mas fez apenas uma fala na abertura do encontro e saiu para outro compromisso. O discurso improvisado, apesar de conter falas de apoio ao meio cultural, gerou críticas ao longo do evento, que não puderam receber o contraponto devido à ausência do secretário.

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A cultura em Porto Alegre

Alabarse declarou-se favorável à manutenção das leis de incentivo, independente de governos e ideologias mas ponderou que a resistência cultural deverá mesmo sustentar-se por meio de parcerias com empresas e agentes culturais. Admitiu que sua pasta pouco pode fazer pela Cultura na cidade, por ter um orçamento apertado.

Em um comentário com uma crítica indireta à prefeitura, recordou que precisou explicar aos gestores a importância cultural da Feira do Livro de Porto Alegre para que não houvesse cobrança de aluguel para o uso do espaço público. Por fim, ressaltou que sem Cultura a sociedade correria o risco de cair na barbárie.

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Entre a política e o consumo

Na sequência, o cientista político Tarson Nuñez deu uma verdadeira aula sobre a economia criativa e a geração de emprego e renda decorrentes do meio cultural, um fato geralmente ignorado por governantes. Ele reconhece que o caráter intangível da Arte por vezes dificulta a mensuração por parte de economistas e, mesmo com a informalidade ainda presente nesse setor do Brasil, o especialista considera inegável que os ganhos trazidos à economia por meio da Cultura.

E ainda fez um alerta sobre o perigo decorrente do resultado da eleição presidencial. “O governo está apoiado em dois princípios historicamente contrários à Cultura: o militarismo e o fundamentalismo religioso. Militares e religiosos em geral não lidam bem com a crítica e a subversão da Arte”, destacou.

Já o gestor cultural Alexandre Vargas enfatizou que a nossa sociedade está formando consumidores, e não cidadãos. “Só isso explica o sujeito ir ao show do Roger Waters e espantar-se com críticas a Jair Bolsonaro. Falta pensamento crítico ao brasileiro e isso só ocorre por meio da cidadania.”

Não houve consenso entre os participantes se a criticada Lei Rouanet será ou não extinta com a troca de governo. No cenário atual, em que não há nem sinalização de quem ocupará a pasta da Cultura só resta a incerteza. Porém, a aglutinação das áreas da Cultura, Educação e Esporte em um único ministério é dada como certa.

Resta ao meio cultural unir-se cada vez mais e tentar fomentar as políticas públicas regionais, focadas nos artistas locais e, de preferência, de vanguarda.

Imagem: Telas de Andy Warhol/Reprodução Internet

Flávia Cunha
Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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