Última atualização em 13/11/2022

O telefone tocou às 18h45 do dia 15 de maio de 1972. Everaldo atendeu e se surpreendeu ao ouvir a voz do advogado Felix Back em uma segunda-feira à noite e logo imaginou que devia ser algo importante. E de fato, era. O também amigo ligara para avisar que Everaldo estava fora da Seleção Brasileira.

Não era um tempo de redes sociais em que os jogadores gravam suas reações ao anúncio da convocação, então ninguém sabe exatamente o que passou pela cabeça do jogador naquele momento. Mas certamente não era um samba-enredo do Bambas da Orgia, o sabor daquela eventual dose de uísque com gelo ou o cheiro da grama do sítio de Viamão. Poderia, sim, ser um samba-canção de Lupicínio Rodrigues, porque talvez nem ele soubesse exatamente o que trazia no peito, se era ciúme ou despeito. Afinal, foram cinco anos de Seleção.

Everaldo tinha que sair em seguida, ia com a esposa para um churrasco em Ipanema, na Zona Sul de Porto Alegre, onde a turma da Seleção Gaúcha estava reunida para comemorar a vitória sobre o Uruguai, de alguns dias antes. Mas ele esperou pelo Jornal Nacional daquela noite para confirmar. Vai que fosse daqueles sonhos matreiros em que a gente pensa que está acordado. Mas não era. Ele realmente fora cortado da Seleção. O jogo em abril contra o Paraguai, na capital gaúcha, havia sido o último.

Já no local da festa, os companheiros estavam inconformados. O meia-esquerda Torino, que também jogava no Grêmio, era o mais incomodado e esbravejava. Everaldo, não. Ele estava calmo. Talvez tenha sido o tempo entre o telefonema e a voz de Cid Moreira. Talvez o tempo entre a casa e o Dodge Dart. Talvez o tempo ao volante tenha sido suficiente para passar a sensação de mal-estar. Ele chegou tranquilo, cumprimentou a todos e já foi dizendo que estava tudo bem e que se havia jogadores em melhores condições, Zagallo, então técnico da Seleção, estava certo em convocá-los. “Tá certo”, dizia ele. Mas não estava. O futebol é um movimento da paixão e Everaldo não imaginava que aquele seria o começo de um evento que entraria para a história do futebol brasileiro.

Ao lado de Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza, Clodoaldo, Gérson, Rivelino, Tostão, Pelé e Jairzinho, Everaldo foi titular daquela que ficou conhecida como a melhor seleção de todos os tempos. Mesmo assim, o jogador do Grêmio não foi convocado para a Mini Copa, um torneio organizado pelo governo e pela Confederação Brasileira de Desportos (CDB) para celebrar os 150 anos da Independência do Brasil e que, segundo Zagallo, serviria como homenagem e despedida de alguns heróis do tri.

Por isso, o estado inteiro se insurgiu para defender Everaldo, o lateral-esquerdo do Brasil na Copa do México em 1970, e ele se tornou personagem central de um dos episódios mais insanos da história do futebol no país. Ele foi um dos motivos pelos quais a Seleção Brasileira enfrentou a Seleção Gaúcha em um jogo de desagravo em 17 junho de 1972.

De um lado, uma Seleção Gaúcha com os melhores da Dupla Grenal. Schneider; Espinosa, Ancheta, Figueroa e Everaldo; Carbone, Tovar e Torino; Valdomiro, Claudiomiro, Oberti e depois Mazinho. Do outro, a Seleção Brasileira de Futebol. Leão, depois Sérgio, no gol; Zé Maria, Brito, Vantuir e Marco Antônio; Clodoaldo, Piazza e Rivelino; Jairzinho, Leivinha e Paulo César Lima. Pela lógica, seria uma partida festiva no Estádio Beira-Rio. Os heróis do tri seriam celebrados, assim como seriam exaltados os gaúchos nascidos no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, na Argentina, no Chile ou Uruguai. Mas não foi o que aconteceu. Cem mil pessoas vaiaram quem vestia amarelo como se fossem os rivais a quem, naquele momento, abraçavam. Queimaram bandeiras do Brasil e maldisseram o Hino Nacional em plena Ditadura Militar.

Mas quem era esse cara, capaz de mobilizar gremistas e colorados ao mesmo tempo? Quem era esse cara que virou estrela cedo demais? Para Jairzinho, o Furacão da Copa de 70, não era apenas o companheiro Everaldo. “Era um dos melhores laterais da história do futebol brasileiro e mundial.”

Everaldo Marques da Silva nasceu em 11 de setembro de 1944, no bairro da Glória, em Porto Alegre. Era filho do seu Osvaldo e da dona Florinda que, desde cedo, entenderam que o futebol seria parte da vida do guri. Devia ter cerca de dez anos quando começou a jogar pelo Marabá entre companheiros bem mais velhos. Em 1970, um desses parceiros deu uma entrevista ao repórter Lupi Martins, da Rádio Guaíba. “Era um dos melhores de todos”, disse o “boleiro” anônimo.

 

“O seu Hermogêneo, nosso técnico, dizia assim: esse rapaz, no futuro, talvez seja um grande craque.”

 

Everaldo foi para as categorias de base do Grêmio em 1957, quando tinha de 12 para 13 anos. O tricolor gaúcho foi a única casa do jogador, exceto por um breve período em que foi emprestado ao Juventude, em 64. Mas se não houve variação de clube, sobrou mudança de posição. Ele começou na zaga do Marabá, chegou como centro-médio no Grêmio, foi experimentado como centroavante no time de Caxias do Sul, até que, mesmo destro, foi parar na lateral-esquerda quando voltou ao tricolor. Segundo o jornalista Batista Filho, foi obra do técnico Darci Schmidt. “Foi ele quem viu que o Everaldo teria que ser lateral-esquerdo, pela forma de condução da bola e do espaço que dava para fazer essa troca de posição que nós vamos chamar de transição.” E ainda há um detalhe: nas primeiras convocações para a Seleção, ele vai como lateral-direito. O goleiro Jair Eraldo dos Santos, companheiro de Grêmio e amigo de Everaldo, lembra que, além do tempo de bola excelente, o lateral chutava tanto com a esquerda quanto a direita. “Então é por isso que ele chegou na seleção nessa posição”, recorda.

A primeira convocação foi em 1967. De alguma forma, ele furava a bolha de Rio e São Paulo e se firmava na lateral com bastante técnica e poucas faltas, qualidades que eram frutos de talento e personalidade mas também de muita dedicação. O Luís Fernando, sobrinho do jogador, conta que ele tinha uma jogada que era marca registrada: o bote. “Ao final de cada treino, ele colocava uma camiseta bem junto à lateral do campo e depois vinha correndo e dava um carrinho. A camiseta era lançada longe e o principal era não levantar a grama do chão. A camiseta tinha que se deslocar no ar, sair da posição inicial, mas não podia levantar a grama. Era para desarmar e roubas a bola sem machucar os adversários”, conta o sobrinho. Ele treinava à exaustão. E funcionou.

Everaldo tornou-se uma peça importante no tricolor. O lateral Zeca Rodrigues, campeão brasileiro com o Palmeiras, só conseguiu ume brecha no time titular do Grêmio quando o companheiro decidiu se casar. Everaldo e Cleci se casaram em 27 de dezembro de 1967. Juntos, eles tiveram duas filhas: Denise, que nasceu em 1968, e Deise, três anos mais nova. Zeca aproveitou a lua-de-mel e jogou toda a primeira fase de 68, em que o Grêmio seria heptacampeão gaúcho. Mas faltou sorte. “No último jogo do turno eu amanheci com um torcicolo. Aí ele entrou de novo.”

No início de 1970, não se sabia qual seria o time titular da Seleção Brasileira na Copa do México. Pra se ter uma ideia, acreditava-se que Mário Jorge Lobo Zagallo apostaria numa linha de ataque com Rogério, Gérson, Jairzinho, Roberto e Paulo Cesar – só dois desses acabaram sendo titulares. Rogério, por exemplo, era ponta-direita do Botafogo na época, mas hoje só lembra dele quem acompanha futebol há muito tempo. É um bom exemplo do tamanho da dúvida sobre os titulares.

A situação era tão incerta que houve um momento em que o zagueiro Brito gritou para os repórteres da varanda da concentração, perguntando se tinham um exemplar do Jornal do Brasil. “Serve outro?”, responderam. “Não, tem que ser o Jornal do Brasil para poder procurar emprego na parte dos classificados.” Com Everaldo, a dúvida era ainda maior. Apesar de convocado inúmeras vezes, ele não era o titular de Zagallo e disputava a vaga com Marco Antônio, que tinha apenas 19 anos e era o mais jovem do grupo.

À época, a revista Placar fez uma enquete para conhecer os queridinhos da torcida e o lateral-esquerdo do Fluminense conquistou o maior apoio popular. Nada menos que 87% escalaram Marco Antônio como titular. Não era pouca coisa. Para se ter uma ideia, Pelé tinha o apoio de 73% dos entrevistados. Também por isso, a escalação para a estreia da Copa do Mundo foi uma surpresa: Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gerson e Pelé; Jairzinho, Tostão e Rivelino. Marco Antônio estava fora.

Nos jornais da época, a justificativa oficial era de que Marco Antônio estava lesionado. Mas isso nunca foi muito bem explicado e a versão que ficou foi a de que o jogador “não aguentou o tranco”. Ou, se alguém preferir o trocadilho, “amarelou”. É a explicação de que o jornalista Mário Marcos de Souza se recorda. “O Zagalo me falou numa cobertura de Seleção Brasileira e deve ter falado para vários profissionais. “Jogador meu que chega na véspera de uma decisão e vem com história de dorzinha, está fora do time.” E foi o que o Marco Antônio fez.” Everaldo seria o lateral-esquerdo titular em 3 de junho de 1970 contra a Tchecoslováquia, na estreia do Brasil no México.

Já eram três anos de convocações, mas ser titular em uma Copa do Mundo era algo novo para Everaldo. E imenso. Segundo nos conta Denise Helena da Silva, filha do jogador, era também um sonho antigo. Naquela época, ser jogador de futebol era o sonho de todo guri de vila. Minha avó dizia que quando tinha jogo da Seleção Brasileira, ele enchia a casa de bandeirinhas e dizia: um dia eu vou estar lá.” “O que eu posso querer mais?” Era isso que ele dizia nas páginas da Placar.

O Brasil venceu a Tchecoslováquia por 4 a 1. No dia seguinte, o jornal O Estado de São Paulo indicava que, dos quatro defensores, apenas Everaldo não havia recebido citação negativa com relação ao jogo de estreia da Copa de 70. Em seguida, o jogador foi apelidado de o “Gauchão da Copa” pelo narrador Geraldo José De Almeida. “O Everaldo, ele deu aquilo que a seleção precisava, que era marcar melhor pelo lado esquerdo, já que o Marco Antônio não marcava muito. E o Everaldo sabia das suas limitações, não era um grande apoiador, então ele pegava a bola e dava pra quem sabia”, lembra o jornalista João Carlos Belmonte. A lateral-esquerda era dele. Ele só ficou fora de um jogo por lesão e voltou para enfrentar o Uruguai pelas semifinais e, é claro, vencer.

O Brasil jogou a final contra a Itália e venceu por 4 a 1. Uma partida que coroou a melhor seleção de todos os tempos e que até hoje serve de inspiração para o futebol moderno. O técnico Zagallo montou um time perfeito e improvável ao mesmo tempo, pois reunia, nas mais variadas posições, jogadores que tinham praticamente a mesmo função: Gerson, Tostão, Pelé, Jairzinho e Rivelino vestiam a camisa 10 nos respectivos clubes. E essa final, especificamente, tinha algo especial: era a reunião dois bicampeões – até então – que teriam a honra e o privilégio de lutar pelo tricampeonato que renderia a posse da Taça Jules Rimet em definitivo.

 

“Ô Everaldo, no momento que você sentiu realmente no México que você seria campeão do mundo, qual foi o jogo?”

“Foi o primeiro jogo”

Rádio Guaíba, 26 de junho de 1970

 

Os heróis do tri foram enaltecidos com todas as glórias merecidas. E Everaldo, que 52 anos depois nem sempre é lembrado quando se tem no time os brilhantes pés de Pelé, Tostão, Jairzinho, Rivelino, Gérson, Clodoaldo, figurava como eleito entre os melhores da competição. Ele, que chegou de mansinho como reserva de Marco Antônio e conquistou a titularidade, segundo Denise, com uma ajudinha especial.

 

O Pelé tinha um carinho muito grande por meu pai. Eu sei que foi por uma mãozinha dele que o meu pai se tornou titular da seleção brasileira. E teve uma vez que ele veio a Porto Alegre e queria muito comer um carreteiro. Ele ligou pro meu pai e disse: “Everaldo, estou chegando em Porto Alegre e eu vou jantar na tua casa. E tem que ser uma comida gaúcha.” Então minha tia fez um carreteiro de charque pra ela. Não era uma amizade assim, de estar um na casa do outro. Mas ele tirou um dia pra isso. E Pelé é Pelé né? Receber uma ligação do Pelé é maravilhoso, receber o Pelé em casa não é pra qualquer um”, lembra a filha.

 

Com ou sem carreteiro, com ou sem a ajuda de Pelé, o que fica é o que se viu em campo. Ele foi o titular da lateral-esquerda na Copa de 70 pela qualidade do futebol que tinha. “Eu quero te dizer que o Everaldo, pra mim, foi um dos melhores laterais da história do futebol brasileiro e mundial. E como homem um exemplo de personalidade e um exemplo de participação coletiva”, lembra Jairzinho, o Furacão da Copa.

O sonho de Everaldo estava realizado. Do guri que pendurava bandeirinhas da seleção na Glória, em Porto Alegre, ele vestiu a amarelinha e trouxe a Copa do Mundo pra o Brasil fazendo parte da melhor seleção de todos os tempos. Como ele disse à Rádio Guaíba na volta do México, uma vida boa o esperava. “É, talvez com a Copa do Mundo eu consiga a minha independência financeira, mas acho que vai me dar a vida mais regular até a minha morte. Eu acho que até a minha morte, tem bastante tempo.” Não tinha.

Em 1974, Cláudio Duarte era o lateral-direto do Internacional. Naquela noite, o time havia jogado no interior contra o Inter de Santa Maria e voltava de ônibus para a capital gaúcha. Claudião não conseguia dormir em movimento, até hoje não consegue, segundo ele, então viajava no banco da frente, com o motorista. “Eu lembro que a gente vinha retornando pela BR-290 e havia aquele tumulto todo ali naquela reta e que era um acidente. Não nos deixaram parar. O ônibus passou devagarzinho e a gente, da janela, perguntou: “o que houve?” “Acidente com jogador do Grêmio.”

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Era o Everaldo

O corpo estendido no chão na noite de outubro de 1974 era o do Gauchão da Copa, um dos heróis do Tri

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Lasier Martins, que à época era repórter da Caldas Júnior, estava nesse mesmo jogo e passou por essa mesma rodovia, nessa mesma noite. Nós estávamos vindo de Santa Maria, nove e meia da noite, quando de longe nós avistamos um aglomerado de gente sobre a pista. E aí o motorista reduziu a velocidade da caminhonete e quando nos aproximamos o Lupi [Martins, irmão de Lasier e também repórter da Guaíba] gritou: é o carro do Everaldo.”

Em 1970, quando o Brasil foi campeão do Mundo, Everaldo ganhou um carro de presente de uma concessionária de Porto Alegre. Nos arquivos da Rádio Guaíba, está registrado o momento em que o repórter João Carlos Belmonte pergunta sobre a cor ideal do automóvel.

 

– Olha, eu não sei bem, tem duas cores, é a cor azul, porque eu gosto, e também tem essa cor, esse amarelinho ouro, mas vamos ver, talvez quando eu chegar lá eu escolha uma cor que gosto mais, mas vamos ver.

– Nossos cumprimentos Everaldo, muito obrigado. E como eu disse foi uma alegria poder estabelecer esse contato você e seus familiares e sobretudo lhe dar essa notícia de que é proprietário de um flamante Dodge Dart zero quilômetro.

 

O carro com que ele bateu em um caminhão carregado de arroz também era um Dodge, mas não era o que ele ganhou, como todo mundo sempre pensou. O Dodge Dart que ele ganhou tinha as cores do tricolor gaúcho. A lataria era de um azul metálico, tinha a capota preta e era branco por dentro. Mas dois anos depois ele compraria outro Dodge. Agora sim, na cor “amarelinho ouro” que ele cita na entrevista. Foi com esse carro que ele viajou.

Everaldo era candidato a deputado estadual pela Arena com o número 1246 e aproveitou um jogo de veteranos do Grêmio em Cachoeira do Sul para fazer campanha naquela noite. Loivo Johann, que também era jogador do Grêmio, acompanhou o amigo naquela viagem. Fomos juntos e na volta toda a delegação parou em Pantano Grande.  E daí jantamos e fomos embora. Eu parei pra abastecer no posto logo adiante e ele encostou do meu lado. Ele me chamava de alemão. “Ô Alemão, eu vou tocando aí.” “Vai que eu já vou também, só vou abastecer e já vou.” Depois que eu saí, uns 30km depois daquele posto, eu vi o carro atravessado da faixa.” Loivo foi o segundo a chegar no local e a imagem marca a memória ainda hoje, quase 50 anos depois. “Eu perdi um grande amigo. Foi um acidente muito feio, ele entrou embaixo do caminhão carregado. Eu cheguei e fui tentar falar com ele, ele ainda estava vivo, mas a esposa e a filha mais nova já tinham falecido. Eu trouxe a Denise, que se salvou. Ela veio comigo.”

O Loivo levou a Denise, que à época tinha seis anos, para o Hospital de Pronto-Socorro de Porto Alegre. Ela lembra de quase tudo. “Nós fomos pra um jogo de futebol e meu pai sempre levava alguém da família. Então ele levou a minha tia, a irmã dele; mais a minha outra tia, irmã da minha mãe; a minha mãe,  minha irmã e o meu tio Jardelino, que era um tio lá de Alegrete que morava aqui em Porto Alegre, primo da minha avó. E nós fomos pra um campo onde tinha um estádio de futebol com uma arquibancada toda pintada de branco. Então eu e a minha irmã brincamos um monte naquela arquibancada. E depois eu lembro da volta, um posto de gasolina onde nós paramos, ele conversou com o Loivo, vários carros pararam para abastecer. E depois eu adormeci no banco de trás, no colo da minha tia. Aí eu não lembro de mais nada.” 

O professor Cesar Augusto Barcellos Guazzelli, hoje, é titular do departamento de História da UFRGS. Mas antes de ser historiador, ele exerceu a medicina por 13 anos. E estava de plantão no HPS naquela noite.

 

Era impressionante, porque ele parecia muito musculoso, muito forte, porque ele estava com uma hemorragia interna muito grande. Eu já nem lembro quais as lesões que ele teve, mas eram múltiplas lesões. Ele morreu logo depois de chegar. Foi uma coisa realmente muito chocante, porque quando a pessoa deixa ser um número e passa a ter um nome, é outra coisa. Não é um “poli-traumatizado”, o nome dele é Everaldo Marques da Silva.”

 

O companheiro Atílio Ancheta, que à época também jogava no Grêmio, esperava Everaldo para uma celebração em casa e ficou surpreso quando o telefone tocou e chegou a notícia do acidente, porque o amigo era cuidadoso na estrada. “Ele tinha o Dodge e eu tinha um Alpha Romeo. E saíamos a passear com as duas famílias e ele nunca andou rápido. Porque eu me lembro muitas vezes de que nós viajámos e eu andava a 80 ou 100 km/h e ele ficava para trás. Eu freava num lugar, tomava um refrigerante e ele aparecia quinze minutos depois.” Depois de uma hora, um novo telefone com o aviso de que Everaldo tinha falecido. Nessa hora, o amigo já não consegue continuar. Ancheta precisou interromper a entrevista por alguns minutos neste ponto, os olhos se encheram de lágrimas e a voz não saía. É como se ele tivesse sido transportado para o enredo do bolero mais triste que já cantou.

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Everaldo Marques da Silva faleceu em 27 de outubro de 1974, aos 30 anos de idade

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Naquela noite, também morreram a esposa, Cleci; a filha caçula, Deise; e sua irmã, Romilda. A morte de Everaldo foi uma tragédia daquelas que tem poder de anestesiar uma multidão. A família despedaçou-se. E com ela, o estado inteiro. No Grêmio, o trauma foi coletivo. O Luís Fernando, sobrinho do jogador, era criança. Mas jamais esqueceu daquela madrugada.

Talvez hoje as pessoas não tenham dimensão do tamanho de Everaldo, embora devessem. “O Everaldo pegou um nome que acho que nenhum jogador gaúcho depois alcançou na mesma proporção. Lamentavelmente, morreu ali o Everaldo, mas ficou o nome. Ficou o nome, ficou a família e ficou a estrela”, ressalta o jornalista Lasier Martins. O Everaldo é aquela estrela dourada na bandeira no Grêmio.

A ideia foi do então vice-presidente do Grêmio, Sérgio Ilha Moreira. “Um belo dia, em 1970, o Flávio Obino, nosso querido presidente, e eu conversávamos sobre esse feito de um jogador do Grêmio ter entrado na história do futebol brasileiro e como o clube se inseria nesse contexto. E me veio à mente a colocação de uma estrela dourada na bandeira do Grêmio. A história pode ser esquecida por algum tempo, mas jamais será apagada. E a estrela ali na bandeira do Grêmio é isso. Cada vez que eu passo pela Arena ou vejo uma bandeira do Grêmio tremulando, eu me lembro do Everaldo.”

Mas será que é o caso quando se pensa nas novas gerações? Será que todo gremista conhece Everaldo? Será que todo mundo sabe quem é aquela estrela? Será que todo mundo sabe que ele fez parte daquela seleção que encantou o mundo e foi escolhido como um dos melhores por jornalistas brasileiros e estrangeiros? “Se fizerem uma enquete do significado da estrela da bandeira do Grêmio, muita gente não vai saber essa resposta e eu acho que isso faz parte desse apagamento de quem contou essa história, de quem está contando essa história.” Quem diz isso é o Marcelo Carvalho, coordenador do Observatório Contra a Discriminação Racial no Futebol. “Quem está simbolizando pra torcida qual é o símbolo daquela estrela. E eu acho que isso faz parte desse apagamento. A gente não conta essas histórias, a gente deixa elas serem ditas pelo povo. E aí o povo vai trazer as suas versões. E eu acho que essa história do racismo tem muito isso. De a gente esquecer os grandes ídolos que o futebol brasileiro já teve que eram negros.

E o apagamento do Everaldo começou em vida. No dia seguinte ao enterro do jogador, enquanto jornais gaúchos como Zero Hora e Correio do Povo exaltavam os feitos da estrela, no centro do país, a despedida era melancólica. “A morte de Everaldo, o tricampeão infeliz”, esse é o título da reportagem com a notícia triste do jornal “O Estado de São Paulo”.

“Não tivesse sido tricampeão mundial, Everaldo seria sempre marcado pelo azar. Menino pobre nascido no dia 11 de setembro de 1944, tornou-se titular do Grêmio justamente quando, depois de 13 anos de domínio no futebol gaúcho, o time entrava em decadência. Foi também o mais pobre dos tricampeões, o que jamais conseguiu aplicar bem o dinheiro trazido pela rápida fama: descontrolado por problemas financeiros, perdeu primeiro a posição na seleção, em 72, depois agrediu um juiz e tornou-se reserva no seu próprio time.”

Esse episódio a que a reportagem se refere talvez seja a única mancha no currículo de Everaldo. Muito embora, para torcedores devotos como o escritor Eduardo Bueno, tenha sido um ponto alto. O que eu mais gosto do Everaldo é quando ele resolveu fazer justiça com as próprias mãos com o juiz José Faville Neto. O Grêmio era tradicionalmente roubado pelas arbitragens do centro do país e por algumas locais também. Eu estava presente naquele jogo contra o Cruzeiro e o tal José deu um pênalti que não foi. Aí o Everaldo recebeu um Will Smith. Não sei se essa lembrança vai ser fugaz ou não, mas o Will Smith é o ator que fez justiça com as próprias mãos no Oscar. O Everaldo também”, contou.

Apesar do entusiasmo do Peninha, como disse o jornalista Michel Laurence em uma crônica, os personagens não combinavam com o enredo. Um árbitro honesto e um jogador discreto. Foi uma surpresa, especialmente para um jogador que receberia o Prêmio Belfor Duarte naquele ano, por fair play. Mas ele foi suspenso do futebol por um ano.

Ninguém sabe exatamente o que houve para que Everaldo agredisse o árbitro fisicamente, mas a matéria do Estadão indica que o descontrole aconteceu porque ele enfrentava problemas financeiros. Como todos os tricampeões, Everaldo ganhara uma agência lotérica da Caixa Econômica Federal, mas essa loja teve a licença cassada por irregularidades cometidas por dois funcionários. E a estância que ele tinha em Viamão também não rendia o esperado. E assim listava os infortúnios do jogador.

Mas quando desembarcou em Porto Alegre voltando do México, em 70, Everaldo deixou o testamento de como queria ser lembrado. Eu espero que os torcedores do Rio Grande do Sul e a crônica, em primeiro lugar, me vejam como me viam antes, para que eu seja aquele que era antes.” Que assim seja.

A chegada do Everaldo depois da Copa do México, em 26 de junho 1970 foi uma consagração. Depois de ir à Brasília, onde a Seleção foi recepcionada com toda a pompa e circunstância, ele foi esperado por milhares de pessoas em Porto Alegre.

 

“Uma multidão enorme se faz presente e a parte fronteira de Salgado Filho aqui na parte milhares de pessoas com bandeiras do Brasil, do Grêmio, até mesmo do Internacional, estão presentes aqui para recepcionar o craque tricampeão do mundo, o Everaldo. Agora lá o Everaldo Marques da Silva, erguendo uma réplica da taça.”

Rádio Guaíba

Essa imagem eternizada no som da transmissão da Rádio Guaíba também está nas páginas de todos os jornais do RS. Everaldo vestia um conjunto de calça e jaqueta de couro, ou melhor, de camurça, em tom de caramelo. A jaqueta tinha franjas ao melhor estilo Buffalo Bill, como disse Divino Fonseca na Placar.

Depois de sair do Aeroporto Salgado Filho, Everaldo foi sentado em um trono armado sobre um caminhão. E acomodado como um rei, não estava sozinho. De um lado, a esposa, de outro, a mãe. No colo, a pequena Denise. O cortejo saiu do aeroporto Salgado Filho com destino ao Palácio Piratini, onde Everaldo seria recepcionado pelo Governador do Estado.

Uma escola de samba cadenciava a festa das 100 mil pessoas que saíram às ruas para receber o ídolo. “Um gaúcho que aguentou o repuxo”, como estava escrito em várias das faixas espalhadas pela cidade. “Foi uma loucura e ali a festa eram colorados e gremistas.”  Essa lembrança do Mário Marcos é importante, porque mostra que unir gremistas e colorados era uma constante pra o Everaldo.

Naquele momento, a ovação dos gaúchos com relação a Everaldo parecia daquelas coisas que não se repetem. Mas voltou a acontecer. E assim voltamos ao começo da nossa história, a 15 de maio de 1972.

Everaldo estava fora. O técnico da Seleção em 72 era Mário Jorge Lobo Zagallo e cabia a ele escolher o time que disputaria a Taça da Independência, o nome oficial da Mini-Copa. E ele não só cortou o Gauchão da Copa como ignorou o colorado Claudiomiro, frustrando as duas torcidas. No dia 16, os jornais já estampavam: “Gaúchos declaram guerra à seleção”.

O torneio era ideia do general Emilio Garrastazu Médici, o ditador do momento, e a sugestão foi prontamente acatada por João Havelange, então presidente da CBD, que era como se chamava a CBF na época. Os dois concordaram que era preciso celebrar os 150 anos da Independência do Brasil. Mas Havelange ainda tinha um segundo motivo: estava de olho na eleição da FIFA e essa era a oportunidade perfeita para fazer campanha.

Mas deixar os gaúchos de fora gerou um clima de revolta que estava nos jornais, nas ondas das rádios e invadia a TV. Imprensa, dirigentes de Grêmio e Inter, jogadores e torcedores faziam, naquele momento, acusações severas à CBD, afirmando que os diretores da entidade estavam comprometidos com os clubes cariocas. Além disso, começaram a ventilar a ideia de que não prestigiariam as semifinais da Mini-Copa, que aconteceriam em Porto Alegre. Dizia-se em alto e bom som que Havelange não ganharia dinheiro nenhum por aqui, nem para pagar a bola. E isso era um problema imenso para o dirigente, porque ele tinha saído por aí, mundo afora, oferecendo rios de dinheiro pra trazer seleções pra o Brasil e votos a sua eleição na FIFA.

Há registros em jornais de São Paulo que a gauchada estava tão incomodada que arriscava ameaçar Havelange, dizendo que era melhor ele não aparecer por estas bandas. O jornalista Lauro Quadros deixou a intimidação registrada na Folha da Manhã.

 

“Olha gente: a convocação do Zagalo, 24 horas depois daquele banho que demos nos uruguaios, é uma vergonheira. Um monte de cariocas, um pouco de paulistas, vários mineiros e nenhum gaúcho. Com toda a força do nosso futebol, comprovada reiteradamente, é dose! Querem uma prova da sujeira? Everaldo foi o único tricampeão desconvocado. Por Rodrigues Neto, do Flamengo de Zagalo. Para o RS, uma punhalada, tal como o esquecimento de Claudiomiro. Agora sei porque o Zagalo não veio ao Beira-Rio domingo. Aliás, depois dessa, nem precisa vir mais.”

 

Além dos jogos da Mini Copa previstos pra o Beira-Rio, tinha jogo-treino da Seleção marcado para acontecer em Porto Alegre no dia 17 de junho. O colunista Antônio Carlos Porto, da Folha da Manhã, dizia que Havelange já podia alterar os planos. O presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Rubens Hoffmeister, também não media palavras. Disse que, com a não-convocação de Everaldo, “cortaram a única ponta que mantinha o estado ligado ao esporte nacional.”

Enquanto isso, Everaldo, que seguia discreto, afirmando que recebia aquela desconvocação com a mesma simplicidade com que recebeu a primeira convocação, em 67. O lateral-esquerdo do Grêmio era um homem inteligente. Disse ao jornal Estado de São Paulo que se os convocados tivessem a mesma sorte que ele teve, ele nunca mais seria chamado.” Ou seja, a encrenca tinha tudo para esfriar, só precisava de tempo, mas Havelange cometeu um erro fatal.

No dia 17 de maio, durante visita à Federação do Comércio de São Paulo, Havelange disse que os gaúchos não tinham sentimento de brasilidade. Pode até parecer lógico para quem pensa numa Revolução Farroupilha da vida, mas os gaúchos não aceitaram, especialmente em um momento de exaltação nacionalista do regime militar. “Houve uma comoção nacional, eu me lembro claramente, e a mídia gaúcha insuflou isso”, lembra o escritor Eduardo Bueno.

A frase de Havelange foi como sal nas feridas dos gaúchos, que sempre se sentiram rejeitados. Era um desacato. Afinal, apesar da pecha separatista, o Rio Grande do Sul queria que João Havelange soubesse que o Brasil vai até o Chuí. Inclusive a autoridade máxima do estado. No dia seguinte à declaração de Havelange, o governador Euclides Triches enviou um telegrama ao presidente da CDB pedindo explicações:

“Peço ao ilustre presidente a gentileza de informar o exato teor das declarações prestadas na sede da Federação do Comércio de São Paulo, aqui divulgadas, atribuindo a torcedores gaúchos a falta de sentimento de brasilidade. Saudações, Euclides Triches.”

Os deputados estaduais também não pouparam críticas à CBD e os parlamentares de Arena e MDB, talvez em uma união ainda mais estranha que de gremistas e colorados naqueles tempos, aprovaram o texto de outro telegrama por unanimidade:

“Os deputados gaúchos com assento nesta Casa (a Assembleia Legislativa), por unanimidade, deploram sua manifestação perante empresários paulistas. Até a presente data, ninguém precisou ensinar lições de patriotismo e brasilidade ao povo gaúcho, que tem sido mestre nesse setor. Fica convidado a vir até o rio Grande do Sul, a fim de aprender, ao longo de nossa história, os exemplos mais vivos e dignificantes de como se constitui com lutas e sacrifícios, as páginas da história brasileira.”

 

O prefeito que hoje é nome de viaduto, o arenista Thompson Flores, lamentava o ocorrido. O vereador que hoje é nome de Largo, o emedebista Glênio Peres, era taxativo: “Havelange demonstra não ter condições para nem mesmo dirigir uma liga esportiva do interior.”

No final da tarde no dia 18 já se acumulavam dezenas de pronunciamentos, listas e abaixo-assinados com mensagens de protesto. Todas deveriam ser enviadas ao presidente Médici. Uma delas, que circulava pela Rua da Praia, no centro da capital, indicava que  os signatários manifestavam “a mais viva repulsa face à manifestação do presidente da CBD”. E foi a partir deste dia que a imprensa gaúcha começou a chamar Havelange de Jean Marie – o nome oficial do dirigente, dando uma letrinha sobre brasilidade.

Zagallo errou primeiro, ao não convocar Everaldo para disputar a MiniCopa. Havelange errou depois, ao dizer que os gaúchos não tinham sentimento de brasilidade. Os dois equívocos combinados, foram a oportunidade perfeita para um jogo de desagravo: a Seleção Brasileira deveria enfrentar uma Seleção Gaúcha. E o presidente da FGF, Rubens Hoffmeister, propôs o duelo como a única maneira de recompensar os sulistas.

O presidente da CBD arrastou a resposta tanto quanto pôde, mas finalmente, em 12 de junho de 72, apenas cinco dias antes da data do amistoso agendado para Porto Alegre, é que chega a confirmação de que “os brasileiros” enfrentariam um selecionado gaúcho. Para acomodar a agenda, o Hamburgo, adversário no jogo-treino,  passaria a enfrentar a equipe Olímpica, com os jovens Falcão e Abel. Além disso, toda a renda do jogo seria destinada às obras sociais da primeira-dama do estado. Assim, os dois jogos serviriam como homenagem ao povo gaúcho e assinalariam um ponto final nas divergências entre a CBD e o povo do Rio Grande.

No dia 13 de junho, a Federação Gaúcha de Futebol publicou um livreto com a convocação. Otávio Junior, neto do Everaldo, encontrou um original. O lateral-esquerdo do Grêmio, discreto nas manifestações sobre esse jogo do qual é personagem central, guardou esse material com cuidado. Talvez um sinal de que aquele momento foi, sim, muito importante pra ele. Na lista estavam jogadores de Grêmio e Inter.

Os convocados se apresentaram no dia 14 para treinar e no dia 15 para a concentração. Foram dias em que, pelo menos para os atletas, a rivalidade Grenal quase desapareceu. E os mais jovens estavam maravilhados. “Eu lembro que eu e alguns outros jovens, a gente procurava nos treinamentos tentar fazer uma ligação com o Everaldo. Tentar conversar, porque ele era a estrela, a gente estava quase naquela de pedir “por favor” pra ficar junto, né? Então foi um exemplo que me foi muito positivo”, lembra Cláudio Duarte, que na época tinha 21 anos.

Apesar do apoio dos colegas, Everaldo sabia que estava no meio dessa guerra. Por mais que o erro de Havelange tenha sido determinante para o jogo acontecer, tudo começou com a não-convocação do jogador. E não deixava de ser um peso, como lembra Bráulio Lima, o “Menino de Ouro” do Inter. “Ele estava um pouco ansioso, um pouco nervoso. Durante um treino, ele estava sentado e eu sentei na bola perto dele e disse assim: o que é pior, jogar esse jogo ou uma decisão contra a Itália? Ele começou a rir e a descontrair e eu digo: deixa que a gente pega a bronca pra ti. E o Figueroa foi lá disse: deixa que nós abraçamos, tu vai lá e joga o teu futebol.”

Então, em 17 de junho de 1972, sob os olhares de 100 mil pessoas, os times entraram em campo juntos – muito como uma estratégia frustrada para inibir a vaia monumental. Os capitães empunhavam a mesma bandeira do Brasil. De um lado, Brito, do outro, Everaldo. “E se eu bem lembro, uma coisa que foi notada por todos é que quando os times entraram em campo, os jogadores da Seleção Brasileira fizeram questão de cumprimentar o Everaldo.”

A vaia foi inédita para a Seleção Brasileira, acostumada a ovações mesmo de adversários. Mas a torcida, que não estava para diplomacias, não cedeu. O primeiro gol da Seleção Gaúcha ocorreu aos três minutos do primeiro tempo, pelos pés de Tovar, e o estádio Beira-Rio quase veio abaixo. Quando Jairzinho fez o primeiro gol da Canarinho, foi um silêncio sepulcral.

O jogo terminou com um quase amargo 3 a 3, que, no fim, foi um placar perfeito para o desagravo, Everaldo saiu gigante, os gaúchos lavaram a alma e os brasileiros, apesar de melindrados, não voltaram para casa humilhados.

“Vamos lá, pessoal. Quem é o bom na cuíca? Pergunta uma voz não identificável. Torino, gremista todo de vermelho, estava numa rodinha com Sérgio, Beto, Everaldo e Cláudio, batucando nos vestiários do Beira-Rio. Nem pareciam os adversários valentes dos Grenais. Até Oberti, argentino fechado, batia no banco, imitando um pandeiro, batucando.

Aparício [o treinador da Seleção Gaúcha], olhando de longe, disse: é fácil comandar um time assim. Veja como eles se entendem.”

Zero Hora, maio de 1972

 

É possível presumir que foi a redenção de Everaldo, embora ele não verbalizasse. Mas é conjectura. Ele é descrito sempre como um cara discreto, tranquilo, de poucas palavras e que vivia para a família. Quase 50 anos após sua morte, a filha Denise lembra de detalhes cheios de carinho. “Eu lembro do meu pai bem em casa mesmo, de chinelo de dedo, bermuda, camiseta e curtindo a música dele na vitrola. Eu lembro da Páscoa, também. Ele gostava muito e a gente tinha que procurar o ovo.”

Mas quem conhecia ele de perto, como o Loivo, o Zeca e o Ancheta, também sabia que ele gostava de uma festa. Apesar da discrição e tranquilidade, ele se soltava quando o assunto era samba. Tanto ele quanto a esposa Cleci, cujo pai foi presidente da escola de samba Bambas da Orgia. Aliás, foi na quadra da azul e branco que eles se conheceram. “Ele sempre me convidava para os ensaios, para ir lá no baile, e eu dizia: “Everaldo, alemão não gosta de carnaval.” “Mas vamos junto lá, vamos tomar uma cervejinha”, dizia ele. Ele gostava muito de mim, daí eu ia com ele pros Bambas lá na travessa da Protásio”, conta Loivo.

O gosto pela música era tanto que ele e o goleiro Jair até se aventuraram pela noite porto-alegrense. Nós tivemos em Porto Alegre um bar chamado emboscada, no centro. Com música ao vivo, muito tira-gosto. E foi muito legal, vivia lotado. Tivemos até Sargentelli”, conta o amigo.

E quando acabava a temporada do futebol, o caminho era praia. “A gente era um trio, eu, Espinosa e Everaldo. E quando começava as férias, a gente ia junto para aquela região das praias, Tramandaí, Cidreira. E a gente, puxa vida, até inventava algum tipo de roupa. Tinha um alfaiate em Porto Alegre muito famoso que fazia pra nós alguns negócios diferentes”, conta Jair, fazendo referencia ao alfaiate Reis, que vestia os jogadores de futebol mais atentos às tendências.

E Everaldo era um deles, segundo a Denise. Ele era elegantérrimo, ele gostava de se vestir bem, ele gostava de coisas boas.” E gostava de inventar moda, de acordo com os amigos. O Zeca Rodrigues, que também é padrinho da Denise, conta que as roupas do jogador do Grêmio eram um espetáculo à parte. Eu lembro do casamento do Valdir Espinosa, nós fomos padrinhos. Era eu, ele e o Jair. E o Everaldo colocou um terno que era uma coisa inexplicável, parecia essas fazendas para fazer sofá. Ele foi gozado por todo mundo, foi um motivo de gozação.”

O meu pai, todo tempo possível que ele tinha pra estar com a gente, ele era pai. Ele tinha tempo de brincar, de nos levar pra passear. Ele me ensinou a gostar de samba, porque é o ritmo que eu mais gosto, que me embala, que me faz feliz. Foi ele quem me apresentou, Lupicínio Rodrigues e Paulo Diniz. Eu lembro bem. Ele gostava de estar em casa com a gente. Eu tomava uísque” com ele. O meu era água com gelo e ele tomava uísque, né?

Ele também gostava muito de reunir a família, de fazer churrasco, de estar com os amigos também e a gente sempre fez parte disso. Ele sempre levava os amigos pra dentro de casa. Pra mim sempre era festa, todo dia era festa.  Ele era uma pessoa que adorava a vida. Ele tinha muito tempo pra ser pai, pra ser marido, pra ser irmão.”

Olhando pra trás, pensando na mobilização que ele provocou, não é estranho. Não é estranho que alguém tão amado fosse capaz de unir gremistas e colorados três vezes: quando voltou da Copa, quando não foi convocado para a Mini Copa e quando faleceu.  Então eu espero que os torcedores do Rio Grande do Sul e a crônica em primeiro lugar me vejam como me viam antes para que eu seja aquele que era antes”, disse ele em 70.

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Texto: Geórgia Santos

Entrevistas: Cléber Grabauska e Silvio Benfica

Produção: Márcio Beyer

 

 

Author

Jornalista, radialista, cientista política e uma viajante inveterada. Tem uma relação de amor com a comida. Gringa, não recusa um vinho e uma polenta. Fez da viagem um objetivo de vida. Lisboa é um dos seus lugares preferidos no mundo, embora as melhores histórias estejam na Itália.