Para quem preza a liberdade e o progresso social, as manifestações crescentes por intervenção militar são aterradoras. Não apenas ecoam horrores que o Brasil nunca resolveu de fato, mas também demonstram a fragilidade de nossa tentativa democrática e o risco de recuo em tudo que se conquistou, e a duras penas, nas últimas poucas décadas. A qualquer defensor de ideias progressistas e transformadoras cabe o repúdio enfático e intransigente a essa sandice, por menos provável que eventualmente seja, condenando e, se necessário, indo às ruas contra esse fantasma tóxico e grotesco que quer nos roubar a perspectiva de andar para a frente. Intervenção militar é o diabo, em suma. Imagino que estamos todos de acordo quanto a tudo isso.

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A questão é: o que estamos propondo como alternativa a essa tolice de intervenção militar?

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Não muita coisa, sou forçado a dizer. Diante da paralisação dos caminhoneiros – onde esse grito foi intenso, tanto na sinceridade de vários trabalhadores quanto no oportunismo de quem quer sequestrar o movimento para si – a esquerda mostrou incapaz de posicionar-se e agir. Passou o tempo todo tentando cravar uma leitura a respeito: chamou o movimento de locaute e, quando o acordo dos patrões com o governo foi ignorado pelos grevistas, passou a ver em tudo uma conspiração difusa em prol do cancelamento das eleições. Uma leitura, perdoem a franqueza, feita tal uma colcha de retalhos, juntando tecidos de diferentes origens e qualidades e, com eles, construindo uma mortalha de apreensão. Isso nas redes sociais, é claro – porque a esquerda organizada, os partidos políticos e sindicatos nem mesmo nesse patamar chegaram: ficaram boquiabertos, atônitos diante de um movimento de trabalhadores que não conhecem e sob o qual não têm qualquer influência.

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Uma leitura do momento é muito difícil, e é preciso reconhecer isso se temos qualquer pretensão de avançar. Ninguém sabe direito o que está acontecendo, simples assim. Mas, antes de morrer de medo da volta da ditadura, é importante tentar entender na boca de quem o bordão surge e, acima de tudo, o que essas pessoas querem dizer quando o repetem.

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Há desencanto. Há a revolta de quem conseguia viver bem antes, não consegue mais agora e não entende bem por que isso está acontecendo. Há um sentimento enorme de que os políticos, os sindicatos, as organizações e instituições fracassaram, todas, em manter o país nos eixos. Há a certeza de que estão sendo roubados, mesmo sem que saibam bem por quem e por quais meios. De que falta dinheiro para eles, que muito trabalham, e sobra para outros, que parecem fazer pouco ou nenhum esforço honesto para ter tanta coisa a seu favor. E agora, que tanta coisa aconteceu em tão pouco tempo, há a descoberta de um poder de pressão, que consegue atingir muita gente, mas que não se sabe bem como direcionar.

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Diante de problemas complexos, a tendência natural daqueles que não os compreendem a fundo é buscar respostas simples. No momento, só um grupo está oferecendo uma suposta resposta. Simples, definitiva, com a figura heroica que costuma seduzir um país tão chegado em salvadores. Intervenção militar.

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Não se trata, no caso, de ir aos que pedem a volta dos heróis fardados e convencê-los todos, na base da retórica, do disparate que estão pedindo. Mas, sim, de entender as angústias de grupos expressivos e dizer algo a respeito delas, ao invés de perder tempo precioso idealizando as próprias. Uma reforma tributária com taxação de heranças e grandes fortunas, para citar um único exemplo, pode perfeitamente ser colocada na pauta nacional neste momento, em que a tributação de combustíveis está nas discussões de tanta gente. Ou mesmo algo mais radical e transformador, que se proponha a rearranjar o jogo político-econômico e dar a ele outros contornos. Não como forma de convencer os pró-intervenção do que quer que seja, mas de evitar que os que despertam agora para o problema tenham apenas esse slogan tosco para se agarrar.

E mais: que fim levou o espírito transformador da ala progressista? Onde está o brilho nos olhos, a postura que enxerga oportunidades revolucionárias nos momentos de grande incerteza? Se só nos resta mesmo essa leitura amarga e auto-confirmatória, essa falta de disposição em disputar mentes, esse temor paralisante diante do que não está sob controle, então não resta quase nada. Esse fantasma doentio de intervenção militar terá, sim, chance de triunfar – pelo simples motivo de que não estaremos lá para ao menos tentar deter seu avanço. A mudança não surge onde falta o encanto, e não foi plantando amargura que se conquistou o pouco que temos e que estamos tão temerosos de perder.

Foto:  Vladimir Platonow / Agência Brasil 

Igor Natusch
Author

Jornalista e escritor. Tem especial interesse em Direitos Humanos, política e direitos fundamentais na internet. Liberdade para o ser humano, não para as instituições que o oprimem. Acredita que toda ação e posicionamento tem o poder de transformar o mundo.

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