Ridicularizada por seus opositores, a insólita escolha de roupas para o encontro de ministros deve ter sido um dos maiores acertos de Jair Bolsonaro desde que assumiu a presidência. De sandálias, calça de tactel e camiseta pirata de time de futebol, o presidente faz uma poderosa declaração de princípios, que talvez passe batida para quem o detesta: afirma-se como outsider em todas as situações, o líder que despreza liturgias vazias, o cara simples que não se esforça em agradar os engravatados.

Ele não está tentando ser um dos poderosos: o presidente está, na verdade, trollando todos eles. E dessacralizando a instituição Presidência da República no processo.

Convenhamos: é exatamente para isso que os fãs de Bolsonaro o elegeram, é exatamente isso que esperam que ele faça. Essa inadequação deixa o sistema mais fraco diante de Bolsonaro, e não o contrário. Populismo moderno, em sua essência. Um golaço simbólico, goste você disso ou não.

Jair Bolsonaro é, de fato, muito bom em ser o avatar do movimento que encabeça. Talvez seja a única coisa em que ele é, de fato, acima da média.

A questão que fica é: será suficiente?

Porque qualquer um que olhe para os primeiros 45 dias de governo Bolsonaro com o mínimo de espírito inquiridor vai poder constatar que, no que se refere ao governar propriamente dito, o atual mandatário está sendo um desastre. Não há, por assim dizer, um governo: há uma maçaroca de interesses distintos e divergentes, uma coleção de agendas em conflito, uma explosão de impulsos, vaidades e recalques exigindo imediata gratificação.

O governo Bolsonaro é, na verdade, a geleia formada pela união dessas coisas todas, incapaz de passar firmeza e que dá sinais evidentes de estar prestes a desandar. E o comando de Jair Bolsonaro sobre esse agrupamento tem se mostrado precário, para não dizer inexistente.

A forma amadora e inepta como o governo federal lidou com a situação em torno de Gustavo Bebianno é o mais recente desdobramento dessa incapacidade – e, possivelmente, um dos mais graves para a gestão como um todo. Diante das graves acusações de candidaturas laranjas nas eleições de 2018, Carlos Bolsonaro não hesitou em expor o desafeto, chamando-o publicamente de mentiroso – e logo viria a própria conta de Jair Bolsonaro no Twitter dar RT na acusação, em uma fritura pública das mais escancaradas que já se viu.

O problema é que Bebianno, embora novato na política, não é um qualquer. Trata-se de uma figura bem vista pela ala militar do governo e um dos raros interlocutores do governo Bolsonaro no Congresso – ao ponto do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, deixar bem claro que a saída dele daria um recado tão ruim aos parlamentares que até a reforma da previdência poderia entrar em risco.

Diante da necessidade inarredável de decidir, Jair Bolsonaro ausentou-se. Recusou-se a receber seu suposto braço-direito em reunião, ficou esperando que ele se demitisse por vontade própria e, quando ficou claro que isso não aconteceria, foi preciso que Onyx Lorenzoni fosse até Bebianno assegurar-lhe que não haveria demissão. Se pensarmos que, há cerca de três anos, Bebbiano e Bolsonaro sequer se conheciam, o temor em desagradar o companheiro na berlinda sussurra coisas nada tranquilizadoras para o país.

Recém saído de uma longa internação hospitalar, tudo que Bolsonaro se dispôs a fazer diante da crise foi aparecer em uma reunião de governo de chinelos e calça de abrigo, usando a própria falta de jeito como ferramenta midiática.

Deu certo, até certo ponto: as redes sociais, pelo menos, estão discutindo mais o desalinho do presidente do que sua escancarada incapacidade de governar. Mas é pouco – e todos em Brasília e adjacências sabem disso, por mais que se esforcem para não admitir.

Preocupado com as manchetes, o governo precisa igualmente achar um jeito de, ao menos, tentar governar. Há uma reforma encomendada a aprovar, há investimentos internacionais para atrair, uma economia que ainda está longe de vender saúde, e nada disso irá embora com meia dúzia de aparições engraçadas e propostas (como a Lei Anti-Crime) que jogam para a torcida sem pensar no que virá depois. Isso pode funcionar para a fandom estabelecida, e tende a ter efeito transitório sobre os que depositaram um voto de angústia em Bolsonaro, mas nem todo mundo está disposto a apostar seu dinheiro e seu futuro em um avatar, como o Brasil fez. E logo grandes atores econômicos vão exigir algum tipo de certeza – de uma forma, ou de outra.

Mesmo porque, por mais divertidos que sejam, os avatares não são eternos. Quando a gente não se sente mais representado pela foto de perfil no Facebook, a gente troca por outra. Sabe como é.

Foto: Reprodução / @MajorVitorHugo / Twitter

Igor Natusch
Author

Jornalista e escritor. Tem especial interesse em Direitos Humanos, política e direitos fundamentais na internet. Liberdade para o ser humano, não para as instituições que o oprimem. Acredita que toda ação e posicionamento tem o poder de transformar o mundo.

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