Tenho certeza que a maioria de vocês já teve contato com a manifestação asquerosa do comunicador Gustavo Negreiros, então um dos profissionais da rádio 96 FM, do Rio Grande do Norte. Mais um dos muitos homens brancos adultos incomodados com a postura enfática e sem pedidos de desculpa da ativista Greta Thunberg, dedicou-se o jornalista a vomitar infâmias, no ar, contra a sueca – entre elas, dizer que faltava vida sexual a uma adolescente de 16 anos, diagnosticada com síndrome de Asperger.

Alertado por uma participante do programa de que estava se referindo a uma menor de idade, o cidadão não apenas reforçou as barbaridades, como desceu ainda mais o nível, dizendo que Greta deveria limitar-se a ficar fumando maconha em seu país natal. Felizmente, a reação ocorreu: a emissora perdeu patrocínios importantes, Negreiros foi demitido da 96 FM e deve enfrentar ainda alguns (justos) percalços em sua vida profissional.

Mas a fala odiosa do radialista nem foi a coisa mais preocupante, sabe. Referir-se desta forma a uma jovem é evidentemente horrendo, repugnante, vulgar, desolador – mas, infelizmente, não é novidade que muitos pensem de forma igualmente suja sobre mulheres, de qualquer idade, que ousem manifestar o que pensam na esfera pública.

O mais preocupante, para mim, está na voz contemporizadora de algum outro participante do programa, que não consegui identificar.

Diante das tentativas da participante de colocar um freio no chorume verbal de Negreiros, essa pessoa achou que era momento não de dar fim ao espetáculo abjeto, mas de aplicar panos quentes. “Não precisamos levar para os extremos“, disse a voz, ignorada pela metralhadora de lixo do apresentador.

Extremos? Só existe um extremo nessa fala: o extremo de ódio, ignorância, misoginia e pensamento depravado contra uma jovem menor de idade, proferido por um profissional de mídia no microfone de uma importante emissora de rádio local. E esse extremo precisa ser combatido assim que surge, de forma enfática e sem conciliação, exatamente como a mulher presente ao programa se esforçou, sem qualquer auxílio, para fazer.

É possível enxergar, em situações como essa, uma vitória discursiva do reacionarismo moderno: o bom senso e a revolta diante do absurdo viraram coisas “extremadas”.

Se você contesta, por exemplo, o extremo de uma política genocida como a do governador do RJ, Wilson Witzel, você está indo pro “outro extremo”. Se você pede que os detentos nas degradadas penitenciárias brasileiras sejam tratados com o mínimo de dignidade, você é visto quase como um radical, tão “extremado” quanto os que sugerem que ladrões de celular sejam trucidados no meio da rua. Se você diz que Jair Bolsonaro é, na leitura mais generosa possível, um completo despreparado para ser sequer síndico de prédio, que dirá presidente do Brasil, o super-trunfo do “e o Lula? E a Dilma?” virá não apenas do perfil com foto de ovo no Twitter, mas do âncora do telejornal e do colunista de política.

Claro que isso tudo é uma consequência direta da legitimação do grotesco como argumento, do delírio como temática, da infâmia como linha ideológica autorizada a tomar lugar na mesa de debate.

Como permitiu-se que a podridão tivesse voz ao microfone, passa a ser necessário disfarçar de alguma forma o absurdo que é sua presença, como se fingir que a besta não é uma besta fizesse dela menos ameaçadora. E a consequência é tratar o razoável como se extremado também fosse, para construir uma simetria capaz de criar, mesmo que de forma precária, uma ilusão de equilíbrio.

Mas não: contestar um escroto que diz que a revolta de uma adolescente é falta de sexo não é extremado. Trata-se, isso sim, de uma atitude obrigatória para qualquer adulto razoável na sala. E o mesmo cabe quando somos expostos a governadores que acham que “atirar na cabecinha” é política de segurança pública, ministros e candidatos a embaixador que reproduzem infâmias contra líderes políticos estrangeiros, presidentes que publicam vídeos com golden shower e atacam desafetos tripudiando sobre a morte de seus pais.

Em casos assim, não existem “extremos”: existe o absurdo e a necessidade de enfrentá-lo.

Em um mundo onde revoltar-se diante do monstruoso é ser “extremo”, qual será a linha do meio? Ofender só de leve, ser apenas um pouquinho mentiroso, matar só uma ou duas pessoas por semana?

Normalizar o intolerável é perigosíssimo. E impedir que isso ocorra passa por contestar também a ponderação forçada dos que não querem se incomodar.

Foto: 96 FM / YouTube / Reprodução

Igor Natusch
Author

Jornalista e escritor. Tem especial interesse em Direitos Humanos, política e direitos fundamentais na internet. Liberdade para o ser humano, não para as instituições que o oprimem. Acredita que toda ação e posicionamento tem o poder de transformar o mundo.

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