A Arte é libertadora, é o único espaço onde não há fronteiras. Isso é revolucionário”. 

A reflexão foi feita por Silvia Abreu, ao longo da entrevista para o projeto Ativismo e Arte. Mas a conversa partiu do início da trajetória desta jornalista e produtora cultural, que começou cedo na área de Comunicação. De acordo com Silvia, aos 16 anos, já trabalhava no O Infomativo do Vale, jornal de Lajeado (RS), município localizado a 113 quilômetros de Porto Alegre. Quando chegou na capital gaúcha, começou a cursar Jornalismo na Universidade do Vale do Sinos (Unisinos) e ingressou na Zero Hora, um dos veículos mais tradicionais do Estado. Em paralelo ao jornalismo, as artes cênicas eram uma paixão.

Aliás, foi na Unisinos que ela ingressou em um grupo de teatro, dirigido pela professora Tania Wolf. “Tentei me inserir no universo cultural como atriz. Mas encontrei barreiras devido ao meu tipo físico. Não conseguia papéis que seriam para mulheres brancas – porque eu não era branca – e também não era preta o suficiente para fazer papéis de estereótipos negros, como de escravizadas. Fiquei num limbo”, lamenta, pontuando que a situação era ainda pior nesse sentido há 30 anos, quando passou por esse episódio de racismo estrutural.  

Produção cultural

Por isso, a produção cultural foi uma forma encontrada para trabalhar com Arte. Quando surgiu uma vaga como produtora no grupo Carta Aberta, dos Correios, decidiu se candidatar, apesar de ter pouca experiência na função. Na época, a vaga era ocupada por Sirmar Antunes, conhecido do público por sucessos no cinema como O dia em que Dorival encarou a guarda e A cabeça de Gumercindo Saraiva. Antunes resolveu dedicar-se exclusivamente à carreira de ator. Então, Silvia ficou em seu lugar. “Quem me indicou foi o Beto Hermann [músico e compositor]. Eu nunca tinha atuado com produção profissionalmente, só na Unisinos. Mas tive coragem suficiente para arriscar e acho que nunca ninguém percebeu”, diverte-se.

Cartografia dos palcos  

Produtora cultural inquieta, sempre atuou com projetos diversos, em teatro, música e literatura, entre outras áreas. Portanto, não ficaria parada durante a pandemia. Com o propósito de ajudar os colegas de profissão, resolveu fazer um mapeamento das condições de espaços de espetáculos em municípios gaúchos, já pensando em eventos futuros. “A ideia surgiu da minha prática profissional, já que toda vez que ia montar uma turnê, tinha dificuldade de saber informações técnicas sobre os espaços culturais”, destacou, durante a conversa para o projeto Ativismo e Arte. O Cartografia dos Palcos – Mapeamento dos Equipamentos Culturais do RS é uma parceria de Silvia com a jornalista Michele Rolim. “Começamos juntas a desenvolver o projeto. Foram muitas conversas e pesquisas até chegarmos ao resultado final, com os dados organizados em um site.” O projeto foi financiado pelo Procultura, da Secretaria de Cultura do Rio Grande do Sul. 

Frente Negra Gaúcha

Outro aspecto relevante da trajetória de Silvia é a atuação em coletivos antirracistas, entre eles a Frente Negra Gaúcha, lançada em 2019. Nessa entidade, é diretora de Comunicação. “As conversas para a criação da entidade começaram ainda em 2018, quando percebemos que a violação dos direitos das pessoas negras estava cada vez mais evidente”, recorda a jornalista. Ela enfatiza que a associação é sem fins lucrativos e suprapartidária. Explica que a frente é composta por pessoas negras e não negras, sem distinção de gênero, classe social, religião ou escolaridade. “A frente busca a coalizão de todas as forças para o enfrentamento do racismo sistêmico que estrutura a sociedade brasileira.” Conforme Silvia, a associação tem como objetivo a conscientização e a promoção do negro e do seu potencial por meio da formação e da representação política nos diferentes espaços de poder”, salienta. No site da entidade, é possível saber mais informações.

Para que serve a Arte?

Provocada durante a entrevista a responder aos detratores da Arte que argumentam que o fazer artístico “não serve para nada”, Silvia fez reflexões sensíveis e relevantes. “A Arte é libertadora, é o único espaço onde não há fronteiras. Isso é revolucionário. Por isso, eu amo a Arte, amo os artistas e defendo a Arte.” Além disso, reforça aspectos práticos que não são levados em consideração por quem critica os artistas. “A Arte é um vetor importantíssimo para a Economia da Cultura”, finaliza, referindo-se não apenas ao ramo da Economia que analisa os impactos econômicos do setor cultural, mas também à disseminação da diversidade e de identidades, entre outros aspectos. 

 

Silvia Abreu

Jornalista e produtora cultural, Integrante da MOVE – Rede de Artistas de Teatro de Porto Alegre, do Coletivo Nimba de Mulheres Negras e Diretora de Comunicação da Frente Negra Gaúcha. Para acompanhar os projetos culturais desenvolvidas pela produtora, acessem seu perfil no Instagram.

Ouça o podcast

 

 

Outros episódios

O projeto multimídia Ativismo e Arte está em seu terceiro episódio. No primeiro, a entrevista foi com Raquel Grabauska, atriz, produtora e diretora teatral, que durante a pandemia voltou seu foco de atuação para projetos sociais. A segunda entrevistada é Atena Beauvoir Roveda, escritora, poeta, professora e filósofa.

Ativismo e Arte – Quem Faz

Uma produção Vós e F Cunha Produtora

Apresentação e produção: Flávia Cunha

Edição de imagem e concepção gráfica: Flávio Siqueira

Edição de áudio: Geórgia Santos

 

Author

Flávia Cunha é jornalista há mais de 20 anos e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS. Desde 2015, atua somente na área cultural, em projetos literários e musicais. Sua paixão pelas duas áreas virou oficialmente uma empresa em 2018. Para saber mais: www.flaviacunha.com.br

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