Saio da sessão de abertura da Mostra de Cinemas Africanos e, no percurso de volta pra casa, escrevo este texto mentalmente.

Após a sessão de Supa Modo, de Likarion Wainaina, do Quênia, participei de um debate sobre distribuição e circulação dos filmes africanos com Ana Camila, curadora da Mostra e pesquisadora, e Gabriela Almeida, incansável organizadora da edição de Porto Alegre – a primeira edição ocorreu em Salvador, dias antes. O texto abaixo contém o fluxo do pensamento. Em próximas postagens pretendo voltar ao tema e ao filme com a profundidade que merecem.

A Mostra de Cinemas Africanos, edição de Porto Alegre, segue até dia 16/12, na Cinemateca Capitólio. Programação completa na página do evento e no site da Cinemateca.

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Ainda hoje, quase 60 anos depois da emergência dos cinemas africanos, a grande maioria dos filmes continua invisível. É importante destacar que atualmente são poucos os países africanos que possuem algum tipo de incentivo através de políticas públicas voltadas ao cinema, sendo que, dos que têm, a maioria são os países que já eram independentes antes de 1960, como é o caso do Egito, do Marrocos, ao norte, e da África do Sul.

Os festivais de cinema pioneiros, como a Jornada Cinematográfica de Cartago, na Tunísia (1966), e o Festival Panafricano de Ouagadougou, em Burkina Faso, três anos depois, surgiram com o intuito de colocar o cinema na rota da distribuição e exibição, numa tentativa (bem sucedida) de romper os resquícios da dominação colonial que, é claro, não desaparece imediatamente após as independências.

Essa história, no entanto, não é linear. Em alguns países, as “estruturas de cinema” cresceram e se reduziram de modo muito específico, dadas as condições políticas de cada país. Países diversos ofereceram respostas diversas a esses problemas. Burkina Faso, por exemplo, nacionalizou, nos anos 1970, a cadeia produtiva de cinema, inclusive assumindo o controle das salas de cinema.

A Nigéria formou, nos anos 1990, uma verdadeira indústria do vídeo, com filmes lançados diretamente em DVD se popularizando ano após ano, criando uma regularidade e, a bem dizer, uma atividade participativa na economia nacional. Em quantidade de filmes, Nollywood, como é chamada a indústria nigeriana, é uma das maiores do mundo.

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Supa Modo

(ou “precisamos fazer um filme”)

História de amor e paixão pela criação de imagens, o filme de Likarion Wainaina é o cinema pulsando como energia criativa, como desejo e necessidade por imagens.

Supa Modo tematiza o próprio cinema (e sua condição de produção, circulação e exibição), trazendo-o para dentro da trama. A jovem Jo, vítima de uma doença terminal, crê que possui superpoderes. Sua família e amigos, com exceção da mãe, incentivam a jovem heroína a testar suas forças sobre-humanas constantemente. Seus amigos resolvem fazer um filme sobre isso, tendo Jo, Supa Modo, como protagonista.

Como justificaremos um filme?, pergunta um personagem ao ficar sabendo da ideia de um filme de super-herói na região onde mora. A surpresa é um tanto maior pois, provavelmente, ele deverá participar da produção. A preocupação, no entanto, diz muito sobre as angústias que, desde sempre, marcaram a feitura das cinematografias africanas.

Acreditar no cinema, em sua magia, conhecendo seus fluxos criativos, suas heranças estéticas globais, o seu referencial incontornável e, ao mesmo tempo, amarrar dramaticamente uma situação crítica com humor colocando em cena questões de cinema locais, definitivamente, não é um processo simples.

O filme negocia, internamente, esse arranjo dramático: desde o início o espectador entende a gravidade da doença de Jo. No entanto, o filme inteiro é jogado para cima, não só pelo riso, mas pela substância animada de seu espírito (do texto e da maioria das soluções visuais encontradas para resolver as cenas). Nada disso é aleatório ou acidental, pois Supa Modo pensa a encenação com absoluta e rigorosa clareza a partir dos seus temas, dos seus motivos, e não o contrário.

Se a imaginação consegue voar, então, de fato, é possível voar.

Supa Modo, de Likarion Wainaina (Quênia, 2018). Com Stycie Waweru, Marrianne Nungo, Nyawara Ndambia, Johnson Gitau Chege, Humphrey Maina, Joseph Omari.

Pedro Henrique Gomes
Author

Crítico de cinema. Membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. É um dos editores do Zinematógrafo e colaborador das revistas Janela e Teorema. Publica no blog Tudo É Crítica.

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