Um mar amorfo de bestialidades quase neutraliza a discussão sobre outras coisas nos tempos que correm. O governo Bolsonaro é desprezível, autoritário e corrupto. Precisa acabar. Seus séquitos apoiadores financeiros vivem muito bem no luxo dos veludos. Mas a crueldade dos monstros sanguessugas não pode paralisar-nos e é preciso reagir. Uma forma imprescindível de reação é a manutenção da quarentena para quem tem condições e pode mantê-la. No momento, a quarentena é a luta armada de 2020.

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Em meio a tudo isso, os filmes me aquecem. Certamente a sessão mais memorável deste maio que está prestes a se esgotar, levando com ele a vida de muita gente, espalhadas nos muitos brasis que temos no Brasil, ao descompasso do desprezível conjunto de abomináveis senhores da morte que dizem nos governar, enfim, eu dizia que a sessão mais marcante dessa quarentena, até aqui, foi a de A Casa e o Mundo (Índia, 1984), de Satyajit Ray. Curioso que, como em boa parte da obra cinematográfica do cineasta indiano, a casa, isto é, o espaço interior (ambiente dos dramas corriqueiros e cotidianos, mas também espaço para onde converge uma série de problemas do mundo, pois indissociáveis) existe pois há um fora dele, o exterior. Os espaços em Ray têm contornos e, ao mesmo tempo, respeitam aqui a intimidade da câmera clássica. Ele tem, no entanto, a malícia que faz do seu cinema uma viagem atenta ao conjunto de valores em vigor no espaço do qual ele fazia parte.

A história de A Casa e o Mundo é uma história conjugal, passada em Calcutá, e ela toma forma inteiramente no espaço doméstico. Estrutura dramática habitual em Ray, é possível conhecer o mundo com aquilo que ele nos dá a ver por meio de suas imagens e é necessário se inserir nesse mundo a partir de uma série de decisões (morais, absolutamente).

Bimala é casada com um homem intelectual, rico e liberal, e se vê encantada pelo amigo do marido que ele próprio insiste em lhe apresentar, contrariando a tradição. A tensão que se cria é exatamente resultado disso, consequência de crises constantes da tríade de personagens protagonistas, e comporta todos os conflitos, hesitações e vacilos possíveis naquele registro. Não há existência passiva no conjunto de ações assumidas pelos três, e suas decisões movem a trama. O narrador não deseja esconder as pistas, os motivos dos seus personagens. Ao contrário, ele espera que o espectador os decodifique. Nesse sentido, a razão de Ray opera de modo distinto a de um Bergman, Ozu ou de Fellini, por exemplo, que operam mais no mistério.

Satyajit Ray era um observador engenhoso e responsável. Audacioso, em A Casa e o Mundo ele não só “comenta” a cultura oficial, mas a interpreta compreendendo suas verdades mais íntimas – e suas falsidades também, seus vespeiros e suas contradições. Parece ser a melhor forma de fazer cinema político.

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Vale acompanhar as redes da Mostra de Cinemas Africanos. A Mostra coordena o Cine África, que está promovendo debates também com uma galera muito qualificada para falar sobre os filmes africanos. Espia a programação aqui. Além do Cine África, segue até o dia o 7 de junho o We Are One – A Global Film Festival, e o pessoal da Mostra publicou uma página com as exibições dos filmes africanos que integram a programação do festival, que são disponibilizados no YouTube.

Pedro Henrique Gomes
Author

Crítico de cinema. Membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. É um dos editores do Zinematógrafo e colaborador das revistas Janela e Teorema. Publica no blog Tudo É Crítica.

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