Do filme policial ao drama familiar, de monstros urbanos ao futuro distópico, as histórias narradas por Bong Joon-ho nunca renunciaram ao espetáculo de gêneros tal como proposto pelo cineasta em Parasita. Não é uma novidade, portanto, que, neste seu mais recente filme, uma sequência seja ao mesmo tempo repleta de violência graficamente explícita e, num golpe súbito, vire a chave para se desdobrar no mais sutil diálogo bem humorado, calibrado por um domínio das tensões que circulam em cena. O cineasta sul-coreano bem sabe como se movimentar entre as sensibilidades do espectador neste filme que, assim como o anterior, O Expresso do Amanhã (2013), propõe uma trama entre duas classes antagônicas e inconciliáveis. Cada personagem que aparece em cena provoca uma mudança de tom, embaralhando as ações. Parasita talvez seja o ápice dessa brincadeira – com Memórias de um Assassino (2003), talvez o seu melhor filme.

Esse conjunto de formas de expressão, de modulações da representação, mediado pelo trânsito entre diversos gêneros cinematográficos, no entanto, está organizado com a seriedade de quem compreende a dificuldade em estabelecer um registro tão político sem a gritaria do filme militante, muito satisfeito com suas certezas éticas.

No filme, Kim Ki-taek (Kang-ho Song) e sua família articulam modos de conseguir penetrar o universo de Park, cujo patriarca é um famoso arquiteto cheio de posses e poderes. Os Ki-taek moram num porão apertado. Aos poucos, Kim, sua esposa e seus filhos passam a trabalhar para a família Park. O aspecto aparentemente caricatural dessa oposição de classes se configura num jogo em que “os de baixo” tentam uma inserção forçada no universo “dos de cima”, que eles mesmos reconhecem como falso e careta. Mas embora a tentação da análise tenha instigado a crítica a buscar um sentido político na “luta de classes”, como se fosse apenas uma questão de opor os donos dos meios de produção contra a classe trabalhadora (e não é), o arquétipo da representação de Parasita parece interessado nos aspectos da sujeição que essa diferença social produz (e aquilo que os sujeitos produzem nela): os modos de (vi)ver a vida são exatamente outros e estarão sempre em rota de colisão – e, por isso, também as reações a eles, como o final do filme parece querer deixar evidente.

Curiosa articulação, pois os conflitos físicos do filme se estabelecem, praticamente todos, entre os mais humildes: com o homem que esbanja seu alcoolismo regularmente em frente a janela da casa da família Ki-taek até ser reprimido pelos moradores, justamente indignados, e entre a antiga funcionária e a própria família Ki-taek durante a segunda metade do filme. Em Parasita, a única conciliação possível entre ricos e pobres é, talvez ironicamente como na vida, um laço sexual, de paixão. Esse laço, ao contrário de todos os outros, nunca é rompido no filme. Nunca é rompido pois, no âmbito dos humildes, são as mulheres que tramam e indicam as decisões, seguram a barra (e se sacrificam, se sujam, se expõem…). Embora os gestos de violência física sejam iniciados e nutridos com gosto pelos homens, a maquinação dos planos, as melhores ideias, as defesas dos pontos de vista, ficam com as mulheres, isto é, a tapeçaria intelectual é fruto da imaginação feminina, enquanto a operação dessa organização mental é corporificada pelo masculino.

Diante desse conjunto de elementos e motivos cinematográficos que se desenredam de modo rocambolesco, a trajetória narrativa de Parasita comporta vários momentos que funcionam como clímax e estes ganham força pois a câmera de Bong Joon-Ho não tolera excessos. À primeira vista simples, sua mise en scène é determinada na busca por ângulos e enquadramentos precisos, fixos apenas no movimento do equipamento, pois a dinâmica interna das cenas são de uma força visual abundante. Joon-Ho quer enquadrar os rostos a uma distância segura, nem muito perto (em close), nem muito distante (em plano americano), preferindo planos médios para, com a força de seu elenco, dar a força expressiva ao filme. Essa construção dos elementos visuais do filme, que são tanto seus cenários quanto sua encenação e seus aspectos de representação, são as matérias do cineasta que, combinadas ao primoroso conjunto do elenco, reforçam a tensão do filme, que é constante. A esta obscenidade moral e estética que é a desigualdade social, o filme de Bong Joon-ho responde com uma combinação elegante de golpes que, como em quase toda boa história, sabe como gozar seu fim. É um dos melhores do ano.

Parasite, de Bong Joon-ho (Coréia do Sul, 2019). Com Kang-Ho Song, Woo-sik Choi, Park So-Dam, Chang Hyae Jin, Sun-Kyun Lee, Cho Yeo-jeong, Myeong-hoon Park.

Pedro Henrique Gomes
Author

Crítico de cinema. Membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. É um dos editores do Zinematógrafo e colaborador das revistas Janela e Teorema. Publica no blog Tudo É Crítica.

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