Em busca de financiamento para seu próximo filme, Elia Suleiman sai da Palestina para Europa e, de lá, para a América tentando viabilizar a produção de seu novo trabalho. Na condição de artista observador interessado nas coisas que correm, Suleiman visita o mundo para voltar, insólito, à sua Terra. O cineasta, personagem (interno) do filme, e o narrador, autor (externo) da obra, deslocam as instâncias da narração para o estudo da própria condição metafórica desses encontros narrativos, e o resultado de suas imagens não preenche os requisitos para um humanismo de fachada. O Paraíso Deve Ser Aqui abre um diálogo e questiona a instituição que expropriou a Palestina dos palestinos em forma de ocupação colonial, rindo com tristeza e duvidando com a esperança de um futuro melhor.

Em alguns momentos, o filme me remeteu a uma sequência de Week-end à Francesa (1967), de Godard, no qual um homem pergunta a outro, no meio da estrada, se ele está em um filme ou na realidade? Em Godard, a resposta está na condição claramente cinematográfica das imagens. Para Suleiman, cuja narrativa explora os requisitos de um cinema de humor sofisticado, a resposta, de forma semelhante, consiste em oferecer uma observação do mundo a partir de um olhar em trânsito entre o universo do real e o da ficção de modo didático e frontal, postos como questões para o cineasta e seus motivos cinematográficos. Este seu mais recente filme faz exatamente esse exercício, não se baseando no mundo, mas sendo o mundo.

Como em Godard, o exagero não é caricatura, mas observação e análise do conjunto de um repertório historicamente construído, inclusive e precisamente por meio das imagens que circulam, tencionam e codificam o mundo contemporâneo. Em um mundo assim, nem há necessidade de guerras com canhões, snipers e foguetes para sua horripilância se manifestar. Suleiman recorre, claro, a uma encenação hiperbólica de aspectos que caracterizam as culturas por onde o seu personagem-cineasta passa, como Paris e Nova Yorque. O militarismo surdo, expresso didaticamente, inviabiliza a promoção do diálogo na megalópole americana, individualizando o tecido social. Ricardo Piglia escreveu, em seu O Caminho de Ida, cujo narrador-personagem não é senão um grande observador, assim como o Suleiman de O Paraíso Deve Ser Aqui, que é por isso que, não conseguindo recorrer aos colegas de trabalho (possibilidade de uma organização coletiva via sindicato), um trabalhador bem resolve subir no alto de um prédio e atirar contra seus compatriotas para apurar suas angústias individuais (que, todavia, certamente não são só as suas).

Quando as pessoas ocupam as ruas, o que ocorre é confusão, atropelo e fúria. Na Paris encontrada pelo cineasta, do alto da janela de onde está abrigado, localiza um imenso vazio nas ruas e que em todos os lugares é decodificado por uma série de episódios burlescos, capilarizados pela presença interventora do Estado, mediado pelas forças policiais e ironizado sem dó pelo filme. A polícia parisiense frontalmente ignora a presença de um Palestino num café quando precisa realizar sua inspeção; por outro lado, a norte-americana aprofunda a paranoia terrorista desconfiando de qualquer um.

Não raro, os fragmentos que lidam mais diretamente com a noção de identidade e nacionalidade são os mais cômicos, talvez justo pela insatisfação com a forma como acontecem: nunca há respostas, apenas moderadas reações faciais diante de mundos que lhes são estranhos e hostis. O debate com os estudantes de cinema, em Nova Yorque, por exemplo, e a cena em que uma produtora diz a ele que “seu filme não é suficientemente Palestino”. A noção de identidade é trazida didaticamente, inclusive, pela voz do próprio personagem: “Eu sou palestino”, diz a um taxista empolgado com o encontro. Evocando aquilo que Machado de Assis chamou de “certo instinto de nacionalidade”, a tarefa do autor, tomada pelos chifres por Suleiman, consiste em estudar o mundo em que vive e as implicações de cada ação individual no conjunto da sociedade, provocando tensões, colocando as contradições em cena.

Consciente de que essa representação não se dá sem uma outra tensão, imanente,  o cineasta sabe que, da América Latina e de Cuba ao cinema do continente africano, entre outros, a possibilidade de imagens de fora do eixo narrarem por dentro do eixo a partir da condição do estrangeiro sempre espantou o olhar Ocidental, ansioso em conhecer como o terceiro-mundismo via e vê a si mesmo. Suas imagens mostram isso. Ciente dessa tensão,  Elia Suleiman se encarrega de dar ao espectador um retrato surreal daquilo que a realidade é incapaz de cativar.

It Must Be Heaven, de Elia Suleiman (Palestina/Alemanha/Catar, 2019). Com Elia Suleiman, Gael García Bernal, Tarik Kopty, Kareem Ghneim.

Pedro Henrique Gomes
Author

Crítico de cinema. Membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. É um dos editores do Zinematógrafo e colaborador das revistas Janela e Teorema. Publica no blog Tudo É Crítica.

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