Só o narrador compreende (quase) tudo de antemão em O Irlandês. Quem narra, dentro do filme, é o personagem de Robert De Niro, cujas ações enformam a trama. Por isso, a trajetória da vida de Frank Sheeran é o fio condutor de todos os acontecimentos do filme. Não é pouco, pois o recorte vai da Segunda Guerra Mundial, passa pela Revolução Cubana, pelo assassinato de Kennedy e pela Guerra do Vietnã, por Watergate, pela Guerra do Kosovo e invade o novo milênio. Mas a monumentalidade do filme de Martin Scorsese não é explicada por sua duração ou por seu plano de fundo histórico, mas pelo aproveitamento preciso de seus elementos dramáticos e pelas instâncias de sua narração. Em uma história atravessada por incontáveis formas de violência, tanto aquela que envolve a trama quanto a que lhe serve de subtexto (a “História”), O Irlandês está configurado, também ritmicamente, não para surpreender o espectador ou aprisioná-lo na espera pelo grand finale, mas para contorcer e explorar cada uma de suas sequências em igual medida de grandeza.

É precisamente nesse espaço mediado pela força que o personagem de Robert De Niro transita ao longo de todo o filme, e o faz com capricho. Cindido entre a necessidade de “ganhar a vida” e a procura por algo maior e mais virtuoso, Sheeran se insere num espaço que a princípio não é seu. Nunca poderia ser. Nascido logo após o fim da Primeira Grande Guerra, ele se tornou um veterano da Segunda. Lá aprendeu a ser impiedoso. De motorista de caminhão convertido em líder sindical e braço de direito de mafiosos, Sheeran constroi a sua trajetória de vida encurtando a vida de outros. A encenação de Scorsese lhe dá o tempo e o espaço necessários para que suas contradições e ambiguidades apareçam, saltando entre os vários tempos narrativos, pausando e acelerando os desdobramentos e incorporando os eventos externos ao próprio mal-estar e forma de consciência do protagonista-narrador, o narrador que confessa, que relata a sua vida de crimes que não comporta grandes ambições ou remorsos: remorso é ser preso ou morto (a figura cinematográfica histórica do gângster sempre causou um borramento nas fronteiras da justiça, instituição que é, grosso modo, a única a tomar corpo no filme como mediadora dos conflitos que, paradoxal que seja, geralmente se dão entre os próprios conglomerados mafiosos).

Apesar do tom melancólico que ecoa aqui e ali a partir de uma espécie de abandono que muitos dos travellings que o filme opera indicam, inclusive em seus planos iniciais e finais, o abrigo que Frank Sheeran encontra não está exatamente nos laços de sangue, mas nos laços do crime, que, como se sabe, não são sólidos. É também a esta ambiguidade das relações (mais que na “complexidade” dos personagens) de família e poder que Scorsese deposita o esforço dramático do filme.

O modelo narrativo de O Irlandês alterna tempos como que para reforçar a ideia de que o passado e o futuro são reféns do presente e se confundem nele e, embora siga a cartilha cronológica clássica, em que um acontecimento prepara o terreno para outro, também a subverte. Essa manipulação temporal da ação lhe confere uma medida de grandeza incomum, pois seria fácil se perder em meio a tantas entradas e saídas de personagens, tantos elementos para aguçar a dispersão do foco narrativo. Scorsese é fiel ao passo macabro que seu protagonista realiza e raramente sai dele para dar movimento à trama do filme – e o faz com a calma do monge e a sabedoria do xamã. Lá onde Os Bons Companheiros e Cassino investiam na tradição, vá lá, épica da máfia (as drogas, o sexo, a sede juvenil da conquista do poder), O Irlandês se assenta na sobriedade da luz, nos pensamentos já corroídos pelas dúvidas e vacilos contaminados pelo tempo e a experiência, o que faz dele um filme mais nublado e disposto a fazer circular as suas contradições – e as de seus personagens que envelhecem. É asfixiante.

Essa obsessão pelos detalhes da representação não é arbitrária e o panorama que ela forma é inseparável da brutalidade da encenação. Se todo o ideário do American Dream estava florescendo “lá fora”, se a política externa do país, por meio das guerras, confirmava sua sanha conquistadora, O Irlandês não se mantém alheio a isso, mas lhe reserva pouca comoção. Baseado no livro de I Heard You Paint Houses, de Charles Brandt, em que os relatos de Sheeran confessam as suas práticas, o filme de Scorsese, assim como O Lobo de Wall Street, é fiel na medida certa aos seus contornos e contextos e não sucumbe a sociologismos para justificar as ações daquilo que deseja representar. Scorsese é um grande narrador criado ao modo dos clássicos: não se trata somente de “filmar o real” passivamente, mas de transformá-lo em criação própria, dar-lhe uma forma nova e revigorada.

Se a mirada de Scorsese aponta agora para o fim de um ciclo particular de representação (que a sua geração já apresentara modificada em relação aos cineastas das gerações anteriores), coisa que o faz com elegância, existem sempre inúmeras formas de recuperar os seus motivos. A tarefa só fica um pouco mais árdua para os cineastas que se empenharão nela.

The Irishman, de Martin Scorsese (EUA, 2019). Com Robert De Niro, Joe Pesci, Al Pacino, Harvey Keitel, Anna Paquin, Ray Romano, Bobby Cannavale.

Pedro Henrique Gomes
Author

Crítico de cinema. Membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. É um dos editores do Zinematógrafo e colaborador das revistas Janela e Teorema. Publica no blog Tudo É Crítica.

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