A corrupção penetrou, como doença autoimune, todos os departamentos da política nacional. Sua estrutura organizacional está profundamente corrompida, e dela é preciso desconfiar sempre. Saúde e segurança funcionam apenas como estratégias de campanha e retórica política. Os grandes políticos manipulam o sistema, jogam sujo sem pestanejar, como mafiosos. Diante de tal cenário, manifestações eclodem e a sensação de apatia infesta o ambiente, as ruas e as consciências. O sistema político precisa ser corrigido, e ele está por um fio de romper.

Após uma tragédia familiar, o policial Miguel (Kiko Pissolato) decide ser o poder de reação a esse sistema. Ele identifica o descalabro ao ver o governador do Estado, notório corrupto, escapar e, somando isso a dor e o ódio que lhe consomem violentamente, veste a roupagem do justiceiro solitário. Compreendemos seus motivos: uma bala perdida encontrou o peito de sua filha quando eles iam a um jogo de futebol. No hospital, imensas filas e corredores lotados. A criança morre antes de ser atendida. Miguel faz a conexão entre as coisas e percebe que não há outra forma de lutar contra o sistema. A corrupção é a causadora dos problemas sociais.

Esse impulso inicial, que engatilha os desdobramentos do filme dirigido por Gustavo Bonafé, se mostra aos atropelos. É apressada inclusive sua cena mais dramática (a morte da filha), esvaziada diante do esqueleto do roteiro que se faz ver a todo o momento, marcando, grosso modo, todos os pontos de virada do filme. Com essa “construção” do jogo ficcional e fantasioso (Bonafé quer claramente distanciar seu filme do “real”; prefere narrar metaforicamente) é um tanto difícil aderir ao torpor raivoso de Miguel, comprar a sua indignação ao ponto de julgá-la legítima. É respeitável o esforço da produção em buscar “limpar” as motivações ideológicas de seu personagem. Mas não há pureza possível: assassinar políticos (e apenas políticos) para aplicar um corretivo no sistema que eles gerenciam é uma opção determinada por condições materiais e ideológicas, de entendimento da resolução de conflitos que extrapola as motivações individuais do anti-herói.

A cena da morte da filha de Miguel, aliás, depõe contra o filme. Na pressa com que sua ação transcorre, está claro que foi filmada apenas para ser um elemento detonador da história, para garantir as razões do que sucederá e trazer o espectador para o lado do protagonista. Esse é o momento em que o filme de Bonafé assume, mesmo a contragosto, o seu direcionamento reacionário: esvaziar tal tragédia para cumprir uma função narrativa sem dar a ela o seu devido peso é algo para o qual não há desculpa.

São robustas as evidências de que O Doutrinador não desenvolve esforço de compreensão das tensões e dos conflitos no qual meteu os pés. A areia movediça do cinema político quase sempre puxa sem piedade o pensamento que não duvida de si mesmo, que não manifesta suas próprias contradições, bem como do “assunto” que aborda. É inviável fugir com o argumento de que não estamos diante de um filme político, mas de uma aventura brasileira no cinema de ação vertiginoso de inspiração hollywoodiana; ficção despreocupada, metafórica. O Doutrinador pretende oferecer uma representação da cena política brasileira, mas abrevia sua força com a criação de caricaturas. Isto não é trivial.

A decodificação minuciosa dos labirintos da política prescinde que se fale inclusive de “política”. É possível se recusar a preencher os requisitos normativos do cinema e assumir uma consciência criativa operando dentro do “sistema”. Preservadas as devidas proporções, o cinema clássico americano, em especial aquele cultivado pelos cineastas que vieram da Europa e na América fizeram carreira (Fritz Lang, Otto Preminger, Ernst Lubitsch, Alfred Hitchcock etc) é a evidência mais cristalina e bem-sucedida.

Há uma explicação, no entanto. Concebido como filme e como série a partir de obra dos quadrinhos, uma HQ, o filme de Bonafé é engolido pela narrativa seriada, fragmentária e refém, muitas vezes, da estrutura blocada de seus desdobramentos – essa estrutura costura a trama sempre para dar as respostas e nunca para provocar a dúvida, já que esta dura apenas até o próximo episódio. É compreensível que assim seja, todavia haveria espaço, diante de assunto tão candente, para explorar sua narrativa episódica e consequencialista, cujo ponto de virada, isto é, o momento que desperta à vida o anti-herói da história, é bastante grosseiro.

O Doutrinador, de Gustavo Bonafé (Brasil, 2018). Com Kiko Pissolato, Samuel de Assis, Tainá Medina, Marília Gabriela, Eduardo Moscovis, Helena Ranaldi, Natalia Lage, Natallia Rodrigues.

Author

Crítico de cinema. Membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. É um dos editores do Zinematógrafo e colaborador das revistas Janela e Teorema. Publica no blog Tudo É Crítica.

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