As Boas Maneiras, nova parceria de Juliana Rojas e Marco Dutra, assume a roupagem do filme de fantasia dark, repleto de motivos visuais fabulares, de imaginações que se tornam carne e sangue, de sonhos que são também outra coisa, de clara aposta estética em uma estrutura de resgate a partir de várias referências matriciais que percorrem e marcam a história das imagens (da pintura, do cinema: da luz). É precisamente, paradoxal que seja, por se movimentar entre gêneros que o filme corrige sua postura narrativa com o contrapeso que um exige do outro, deslocando as sensibilidades do espectador para o interior de seu tecido narrativo.

O filme é envolvido, em essência, pela atmosfera do horror, por seus elementos universais, mas é embebido pelo musical, pelo drama social, assim como vários trabalhos anteriores tanto de Juliana (Sinfonia da Necrópole) quanto de Marco (Quando Eu Era Vivo) também são. O puxão de orelha sacana do musical, que acompanha o horror com frequência, por exemplo, nos cinemas americano e italiano, lança aqui os seus momentos de torpor: é para ser visualmente belo e sensivelmente repugnante o desenrolar de toda narrativa.

A percepção do espectador, no entanto, aprecia sofrer e agonizar a partir do jogo que a hibridez de gêneros propõe, onde sua conjugação visual transita entre o prazer e a emoção mediadas pelo medo. Sofrer é sentir a confusão entre o realismo e a fantasia, entre uma São Paulo de formas e conteúdos enigmáticos e fantasmagóricos (mas que ainda é a São Paulo que abriga muitas diferenças e insiste em não corrigir suas distâncias de classe), que aparecem não somente como necessidade de “comentário social”, mas como geografia de um mundo por um lado raro (de quem não precisa se preocupar com a crueldade desse mundo) e, por outro, muito constante (de quem articula sua existência na urgência das coisas). Sabemos onde estamos, mas nem sempre sabemos onde fincamos nossos pés (como em Jacques Tourneur ou em Dario Argento).

O tecido do filme, que se desdobra em dois tempos, tem Clara (Isabél Zuaa) como personagem central. Clara fez um curso de enfermagem que não concluiu, mas mesmo assim conseguiu o emprego na casa da gestante Ana (Marjorie Estiano), quando lá foi para uma entrevista. Com o tempo, ela percebe algo estranho no sonambulismo de Ana, passando a observar seu sono. Mesmo quando dá o salto divisório, é muito retilínea a trama do filme, que “acontece” rapidamente até criar o chão e os contornos dramáticos para sua metarreflexão ter início nas duas partes que o conectam.

Isso pois os elementos narrativos e visuais de As Boas Maneiras são cativantes por seus aspectos ilusórios, que solicitam um olhar atento e persistente a recepcionar e refletir o que vê. Não pela vontade de atrair o olhar do espectador para um alçapão, mas para envolvê-lo por inteiro em seu próprio desejo inconsequente, como são os desejos maternos e o amor sobre os quais o filme também versa. O deslocamento entre gêneros que o filme propõe é recorrente em certo cinema de horror onde a encenação (o Giallo, por exemplo) tem grande explicitude e evidência gráfica. Jamais esqueceremos do rosto que reflete no instante de um segundo num espelho em Prelúdio para Matar ou da aparição fantasmagórica de Madeleine no Hotel Vertigo em Um Corpo que Cai. De certa maneira, quando Clara estende a mão, na cena final, tomada por medo e confiança, também este plano permanecerá com toda sua força. Entranhados nas imagens, sucumbimos aos seus movimentos, mas os desejamos frontalmente.

As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra, Brasil, 2018. Com Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Miguel Lobo, Cida Moreira, Gilda Nomacce, Hugo Villavicenzio, Andrea Marquee.

Pedro Henrique Gomes
Author

Crítico de cinema. Membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. É um dos editores do Zinematógrafo e colaborador das revistas Janela e Teorema. Publica no blog Tudo É Crítica.

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