Está marcado para fevereiro a abertura de um edital da Prefeitura de Porto Alegre para terceirizar a administração da Cinemateca Capitólio.

A defesa do processo licitatório, evidentemente, coincide com a justificativa de que a mudança melhoraria a gestão da Cinemateca. Os argumentos são insuficientes. O que está embutido nesse processo é a ideia de redução do risco: a principal variável capaz de mobilizar as forças da política institucional nos tempos que correm, haja vista a obscena e brutal intencionalidade da atual administração municipal em deslegitimar um espaço cultural como a Cinemateca. Como o risco é algo a que se pode apenas “mitigar”, jamais eliminar por completo, os projetos de transferência de gestões públicas para gestões privadas podem ser alargados e continuados sempre que couberem no discurso corrente. A gestão ficaria com uma empresa terceirizada, tal como no Auditório Araújo Vianna, que desde então é um lugar insosso e elitizado.

A programação da Cinemateca é de uma riqueza imprescindível, traduzida nas dezenas de mostras, sessões especiais e exibições exclusivas que tiveram lugar na sala de cinema desde sua abertura, em 2015. Além disso, a Cinemateca Capitólio não é apenas um cinema, mas uma biblioteca e um espaço de pesquisa, um acervo cultural e um espaço de formação audiovisual (portanto educacional). Esse espaço não deve ser terceirizado, pois a qualidade de seus serviços é que ficará sob ameaça.

***

A ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, da qual faço parte, publicou uma nota sobre essa movimentação que pode fragilizar e precarizar a administração da Cinemateca, caso o processo seja levado a cabo. Transcrevo abaixo.

Desde a sua inauguração, em 2015, a Cinemateca Capitólio se consolida como uma referência em preservação e o lugar por excelência do exercício da cinefilia em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul.

As dificuldades financeiras que afetam equipamentos culturais e a própria produção artística do país inteiro têm sido dribladas, na Capitólio, graças a um trabalho competente que alia a guarda da memória audiovisual com a programação de filmes importantes, das mais variadas épocas e procedências, alguns deles raros e até mesmo inéditos nas salas da cidade, do Estado e do país.

Os projetos implementados incluem iniciativas de formação de plateias, festivais, mostras, cursos e encontros nos quais são debatidas questões prementes da nossa sociedade.

É por isso que a Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS) se mostra preocupada com o processo de transferência da gestão da cinemateca para uma Organização Social (OS), ou “contratualização”, processo este que tem sido levado a cabo pela prefeitura da capital gaúcha nos últimos meses.

Lembramos que iniciativas semelhantes têm dado resultados negativos do ponto de vista financeiro (como ocorreu com o Museu de Arte do Rio de Janeiro, o MAR) ou de programação (como ocorreu com a Cinemateca Brasileira), o que, caso se repita com a Capitólio, trará consequências desastrosas para a nossa cultura.

Em nome da continuidade de um modelo que mantenha a excelência da cinemateca tal qual ela se apresenta hoje, e vislumbrando o aprimoramento dos resultados conquistados nesses quase cinco anos de atuação, a ACCIRS firma posição contrária às mudanças na forma como elas estão anunciadas e pede que a prefeitura ouça os apelos da comunidade artística e cinéfila gaúcha antes de prosseguir com o projeto nos moldes em que ele está sendo divulgado à sociedade.

Pedro Henrique Gomes
Author

Crítico de cinema. Membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. É um dos editores do Zinematógrafo e colaborador das revistas Janela e Teorema. Publica no blog Tudo É Crítica.

Comentários no Facebook