Deixe a luz do sol entrar, de Claire Denis, França, 2017

A expressão mais clara de uma cineasta que detém o controle absoluto do material de sua criação e, a um só tempo, é capaz de estar aberta ao imprevisto de uma cena, ao improviso. Deixe a luz do sol entrar é o filme mais estranho de Claire Denis, no sentido de que é tão elíptico, tão claro na abordagem e direto ação. Como é corrente em seus filmes, a câmera privilegia uma relação próxima de seus personagens, flutuando de corpo a corpo, mas que não mostra tudo pois prefere construir uma espécie de campo sensível (e sensual) e permitir que se formem partes inacessíveis, pedaços de planos que tateamos sem ver. Suas imagens são formas de discurso do corpo mais do que da fala. Além disso, apenas um comentário sobre o trabalho de Juliette Binoche no filme: uma atriz como essa não merece nada menos do que a eternidade.

Projeto Flórida, Sean Baker, EUA, 2017

O filme de Sean Baker consegue registrar, a partir de personagens infantis, a crueza do mundo os cerca. O mundo dos adultos é tão ou mais esquisito do que o das crianças que bagunçam o hotel onde moram em Orlando. Pertinho da Disney (que também é um universo adulto e infantil ao mesmo tempo), o hotel comporta uma variedade de personagens, entre eles o de Willem Defoe, que faz Bobby, o manager do local, personagem permeado por conflitos na relação com os moradores e hóspedes. Em especial com mãe de Moonne, Halley, que tem vários problemas para se manter hospedada. O eixo central do filme gira em torno destes três personagens e é através deles que expõe, na simplicidade de sua estratégia narrativa, a história dramática que a fantasia e o glamour do sonho americano muitas vezes não conseguem captar.

Como falar com garotas em festas, de John Cameron Mitchell, Reino Unido, 2017

O filme reforça a minha crença de que John Cameron Mitchell não possui a mais vaga ideia do que significa encenação no cinema. Adaptando Neil Gaiman, não consegue sair do círculo vicioso de suas soluções visuais e narrativas e propor um desafio ao espectador que não seja o de interpelar imagens fugidias em um filme “diferentão”, radical na publicidade de si mesmo e muito duro na articulação de toda essa liberdade aparente. Dito de outro modo, é preciso decifrar – e ter noção disso – a consciência de sua criação, os seus mecanismos. Como falar com garotas em festas parece um filme contente apenas com sua coragem conteudística, mas que resulta confuso diante da fragilidade de sua trama.

VAR: “Mas você não viu no vídeo, seu juiz?”

Agora que já se sabe que o VAR não encerra a discussão sobre um lance disputado no calor do jogo, já podemos abandonar o seu constrangedor uso no futebol para fins de definição, por exemplo, de um pênalti. No tênis ou no vôlei, ou a bola está dentro ou está fora da linha. Um sensor e um vídeo “provam” as reivindicações, quando feitas e necessárias. No futebol, acrescenta-se que a disputa física entre atletas embaralha a interpretação: a certeza do que os nossos olhos nos mostram é suspensa, subjetiva (dada a interpretação do sujeito-juiz). Simplesmente ela não existe – é possível que o vídeo venha a reforçar essa confusão, tornar mais acirrados os ânimos quando a decisão do árbitro não concordar com a emoção dos atletas em campo. A intensidade com que os corpos se tocam não é acessada pela imagem. O corpo encena, a câmera mente.

Pedro Henrique Gomes
Author

Crítico de cinema. Membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. É um dos editores do Zinematógrafo e colaborador das revistas Janela e Teorema. Publica no blog Tudo É Crítica. Aos finais de semana, se apresenta ao La Barca Futebol Clube. É um cara quieto, mas tá sempre observando.

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