A violência colonial nunca coube somente nos livros de História. Antes da independência, os países africanos só viam a si mesmos através do olhar do colonizador, isto é, não produziam imagens sobre si. Em última instância, não viam a si mesmos nas imagens que eram feitas “sobre a África e os africanos”. Em cada país aos seus modos, a experiência de descolonização propiciou, com todas as dificuldades imagináveis, por um lado, o fato de se começar do zero a construir um pensamento sobre a produção de imagens (uma questão estética e cultural) e, por outro, a própria inexistência dos meios para tal (uma questão econômica e política).

Independente de Portugal em 1975, assim como as outras ex-colônias portuguesas na África (como a exceção da Guiné-Bissau, que conquistou a independência um ano antes), Moçambique logo criou o Instituto Nacional de Cinema e, com ele, o Kuxa Kanema (O Nascimento do Cinema), cinejornal de atualidades (e documentário de mesmo nome dirigido pela cineasta Margarida Cardoso) cujo objetivo central consistia em “criar a imagem do povo e devolvê-la ao povo”. Foi comum, aliás, aos vários projetos socialistas que vigoraram na segunda metade do século passado o ímpeto de constituir (ou de reconstituir), pela via da cultura, suas feições nacionais após a libertação do jugo colonialista ou de ditaduras. Era preciso participar, em fato, da “batalha da informação”.

Convidado por Ruy Guerra, depois de rodar a América Latina como jornalista, passar por Portugal e Guiné-Bissau, Licínio Azevedo (nascido em Porto Alegre) chegou a Moçambique em 1977 para trabalhar no Instituto. E lá ficou, tornando-se um dos principais realizadores do país em uma época em que, inflamado pelo projeto de transformação socialista guiado pelo então presidente Samora Machel (que via o cinema como ferramenta fundamental desse processo), havia notável interesse popular no cinema. Um incêndio e, claro, antes dele, a guerra civil (que seguiria até 1992), deixaram a sede do Instituto em ruínas, minando a infraestrutura de produção de filmes que o país havia criado.

O fato é que, do jornalismo de narrativa muito próxima da ficção (inspirada pelo New Jornalism), Licínio Azevedo foi da escrita jornalística à literatura, e desta para o cinema, sem nunca ter os abandonado para se refugiar em um só meio de expressão. Antes de uma “transição”, Licínio realizou (e realiza), uma obra de confluência, de atravessamentos e interesses que não cabem somente no cinema, nem na literatura e tampouco apenas no jornalismo.

Licínio sempre parte de algo colhido do mundo, um acontecimento que virou notícia, um fato. Parte de algo “real” antes por seu espírito de resistência e de participação democrática através do texto e da imagem. Resistir é: conservar, fazer durar, permanecer. No seu caso, contar histórias. Seu filme Desobiência, por exemplo, torna imagem aquilo que não pode ser outra coisa, numa verdadeira aula de como fazer documentário e ficção a um só tempo, se apropriando dos elementos narrativos e visuais dos dois formatos e os incorporando ao seu estilo. O Grande Bazar, Hóspedes da Noite, A Árvore dos Antepassados, A Virgem Margarida e, agora, o Comboio de Sal e Açúcar, como outros, são todos cúmplices desse seu interesse narrativo, seja via escrita ou via cinema, seja na ficção ou no documentário.

Mas eu paro por aqui: a Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, exibirá o Comboio de Sal e Açúcar, seu mais recente filme, segunda-feira, 19h30, com a presença do Licínio em debate após a sessão – do qual este colunista também participará, embora certamente, antes de tudo, pronto para ouvi-lo.

Detalhes sobre a sessão (e sobre outras que também serão apresentadas pelo diretor no Rio de Janeiro): aqui.

Pedro Henrique Gomes
Author

Crítico de cinema. Membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. É um dos editores do Zinematógrafo e colaborador das revistas Janela e Teorema. Publica no blog Tudo É Crítica. Aos finais de semana, se apresenta ao La Barca Futebol Clube. É um cara quieto, mas tá sempre observando.

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