Já é guerra quando irrompe na tela a primeira imagem de Uma Questão Pessoal (2017), que Paolo Taviani assina como diretor, sozinho, após a morte do irmão Vittorio pouco depois da conclusão do filme. Sua causa formal, no entanto, guarda coerência com a sintaxe geral da obra dos Taviani.

Como Rossellini (e como Fassbinder), os Taviani demonstram interesse em depurar formalmente a imagem, em erguê-la sem empurrões forçados, isto é, sem recorrer ao caminho mais curto do filme militante ou “engajado”. Percebe-se, aqui, uma atração documental (como em César Deve Morrer, 2012, só que pelo inverso: ficção-doc aqui; doc-ficção lá) que não está restrita apenas ao fato de que sua trama tem como pano de fundo um acontecimento histórico (a Segunda Guerra Mundial, a resistência antifascista), mas ao próprio modelo perseguido por sua narrativa, que comporta duas ações temporais corrigindo uma a outra, sensibilizando-se mutuamente, preenchendo seus sentidos.

Baseado no livro Beppe Fenoglio, a trama se passa em 1943. O fascismo é ainda uma ameaça. Milton (Luca Marinelli) é membro da resistência armada estabelecida nas colinas do Piemonte. Anos antes, viveu rodeado pelo amigo Giorgio (Lorenzo Richelmy) e pela namorada Fulvia (Valentina Bellè), cuja imagem ainda vive em seus pensamentos. É uma memória viva, em fato, como a fotografia que acentua suas cores, seu calor – e também sua música, seus sorrisos.

Durante a resistência, no entanto, perdeu o amigo para os fascistas, o que é também marcado pela fotografia do filme. E não havia outra forma de dizê-lo, ou melhor, de mostrá-lo: de todo modo, o fascismo não tem cor. Ao mesmo tempo, ao regressar a um casarão onde bons tempos passaram os três, Milton descobre que talvez Giorgio teria, ele também, tido uma história de amor com Fulvia. Milton passa a perseguir este mistério passado e a tentar resolver, pelas armas (e pelo pensamento), o imbricado drama de guerra do presente. No fascismo, no entanto, só existe o agora. A ideia de história é corrigida, as diferenças são eliminadas e o pensamento desviante, quando notado, é sumariamente incendiado. É contra isso que o amargurado protagonista luta.

É rigorosamente simples a trama do filme dos Taviani, mas complexos são os dramas que ela mobiliza. Milton deve resgatar o amigo das mãos do fascismo para resolver, num só golpe, dois artifícios do mal-estar que lhe move. A violência da luta antifascista, no filme, está expressa em sua capacidade de internalização dos conflitos e não do contexto político em si, escondido sob o corpo de Milton, que vive dividido entre duas missões. A partir daí, o terreno é fértil para os Taviani explorarem as contradições do protagonista, o colocando em crise – e, ao fim e ao cabo, em lançar luz sobre como são constituídas e sustentadas as paixões dos sujeitos.

A atmosfera da luta de Milton contra os dois “sistemas” (o político e o emocional; o sistema do ódio e o sistema do amor), confere ao filme um tom que pode parecer despreocupado, mas que anseia evidenciar, justamente, esses mistérios algo insondáveis contra os quais lutamos insistentemente ao longo da vida. Para os Taviani parece que ao cinema não deve restar a tarefa pesada de restituir a ordem das coisas ou tampouco de “reescrever” a história,  mas de oferecer uma leitura que instigue o enfrentamento de nossos próprios medos.

Una questione privatta, de Paolo Taviani (Itália, 2017). Com Luca Marinelli, Lorenzo Richelmy, Valentina Bellè.

Pedro Henrique Gomes
Author

Crítico de cinema. Membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. É um dos editores do Zinematógrafo e colaborador das revistas Janela e Teorema. Publica no blog Tudo É Crítica. Aos finais de semana, se apresenta ao La Barca Futebol Clube. É um cara quieto, mas tá sempre observando.

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