É melhor dizer logo de cara que Trama Fantasma é o filme de melhor execução que Paul Thomas Anderson já realizou. A confusão de valores narrativos e temáticos que antes lhe afetavam, neste filme o enriquecem. Em primeiro lugar, Trama Fantasma assume os monstros de sua ficção ao abraçar de vez o realismo em um sentido muito evidente, qual seja, o de capturar e sublinhar certas características do tempo e do espaço sem as decorações narrativas que estavam lá em Magnólia, Embriagado de Amor, Sangue Negro e outros de seus filmes. Pois o realismo é justamente essa clareza com que as formas se apresentam, construindo e destruindo as emoções do espectador conforme avançam. Suas razões não são simplesmente técnicas (como em Boogie Nights), mas possuem agora um senso de proporção temporal e uma franja emocional muito sutil.

A epifania egocêntrica dá lugar a um olhar paciente e autocontido sem perder seu caráter sistemático de grande melodrama que o filme quer ser. É necessário encarar a imagem de maneira frontal e isto quer dizer limitar as interrupções visuais que sua câmera sempre pareceu desrespeitar em nome de virtuosismos.

.

O próprio espaço constitui um entrave positivo, pois o filme se passa praticamente todo em locação interna – o que aumenta a pressão sob suas personagens, quase que exigindo delas nada menos que a vida em sacrifício, em troca da liberdade

.

Em Trama Fantasma tudo é essencial para a partitura do filme, para seu desenvolvimento e fruição: o ritmo condensado de sua ação, a longa introdução ao cenário central do filme, sua atmosfera de ambientação tipicamente aristocrática (estamos na Inglaterra da metade do século XX), a mansão gigante que é tanto local de trabalho quanto morada do estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) e de sua irmã e gestora imperial Cyril (Lesley Manville). Mr. Woodcock constura para a realeza britânica e para nomes fortes da alta sociedade inglesa. O filme é a história de obsessões: do estilista por sua modelo e métodos de rotina intocáveis, da irmã pelo controle e pelo poder, da jovem Alma (Vicky Krieps) por Woodcock, de Paul Thomas Anderson pela depuração perfeccionista de seus motivos visuais que, neste filme como em nenhum outro, estão plenamente justificados.

Alma, trabalhando então como garçonete, recebe Woodcock e o serve no estabelecimento de beira de estrada. O flerte rapidamente se traduz num convite para que o estilista tire as medidas da moça. Ela vira sua modelo, sendo seu corpo o corpo ideal, figura que dá forma a sua criação artística. O tema da obsessão pela forma (forma do corpo, forma das formas) inicia. Alma logo está trabalhando para Woodcock, isto é, vendendo a mercadoria mais valiosa que há, sua força de trabalho. Na casa, o trabalho e o descanso se misturam até que as diferenças se apaguem (é a isto, afinal, que o título do filme alude; a linha fantasma), para depois voltarem marcantes e venenosas, salientando os aspectos do suspense que o filme também instaura.

.

O ganha pão e o tesão acentuam o melodrama, embaralham a relação não só de Alma com Woodcock, mas dele com Cyril. Anderson acertou de vez a mão

.

A trilha sonora é precisa ao criar a pressão atmosférica desejada e as músicas se repetem para reforçar o próprio looping da vida que se organiza dentro da mansão. Há, claro que há, um corte de classe subsumido na ação coordenada do filme. As senhoras que trabalham silenciosas e competentes e todas as outras personagens do filme, mulheres ou homens, cujo roteiro não deu mais que meia dúzia de frases, quando muito, demonstram isso. A obsessão do cineasta está muito bem focada naquela paixão pela forma e pelo contorno que se traduz em seus personagens, em especial na relação do Mr. Woodcock com Alma.

Obsessões são coisas naturais dos cineastas: Griffith, Eisenstein, Hitchcock, Preminger, Bergman, Tarkovski, Almodóvar, entre muitos outros. Falamos, isto parece claro, de um cineasta que se move calculadamente entre o rigorismo extremo (kubrickiano) e o ceticismo moderado (que ele herda, muito já se disse, de Robert Altman). A trama fantasma é resultado também dessa correlação de referências e estilos narrativos.

Há uma dificuldade (crítica e essencialmente dos críticos que escrevem sobre seus filmes), na nossa crítica bem como na estrangeira, em estabelecer os elementos formais que compõem sua obra sem cair em pedantismos ou divagações aleatórias sobre o “apuro formal”, a “elegância da montagem”, “a sagacidade do roteiro”, enfim, todo um repertório de afirmações que podem ser aplicadas a qualquer cineasta com traços mais ou menos recorrentes. Uma espécie de pesadelo descritivo ronda nossa escrita. Ademais insuficiente, essa confusão, se ela existe e não é somente coisa da minha cabeça, mantém inexplorada a relação controversa entre suas obsessões temáticas e suas obsessões estéticas. Há um paradoxal mal estar na leitura dos filmes de PTA e que Trama Fantasma ajuda a dissipar, pois trata-se, agora podemos dizer, de um filme de afirmação.

Talvez de fato ainda exista espaço para um pensamento conceitual sobre cinema nos próprios filmes. Da parte de Paul Thomas Anderson, este é sem dúvida o exemplar mais completo. Um filme realista que livra o cineasta da zona de sombras.

Phantom Thread, de Paul Thomas Anderson, EUA, 2017. Com Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville.

Pedro Henrique Gomes
Author

Crítico de cinema. Membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. É um dos editores do Zinematógrafo e colaborador das revistas Janela e Teorema. Publica no blog Tudo É Crítica. Aos finais de semana, se apresenta ao La Barca Futebol Clube. É um cara quieto, mas tá sempre observando.

Comentários no Facebook