Só existe “tiro e matação”, não há milagre no mundo. A constatação é de um menino, uma criança, personagem de Arábia. Seu irmão mais velho, André (Murilo Caliari), é quem participa do diálogo. Cena aparentemente lateral em Arábia, o filme de Affonso Uchoa e João Dumans organiza com precisão o seu desenvolvimento. Ela indica também um dos temas do filme, que é a violência e suas variadas formas de expressão. O mais substantivo em Arábia é a recusa do sociologismo e sua pretensão retórica baseada no senso comum, vide outros exemplares do cinema brasileiro recente (Que Horas Ela Volta?, Aquarius) que não o quiseram evitar. Seu compromisso (político que seja) é com a dramatização interna, com os motivos de seu protagonista, com a rede de relações que ele cria e vivencia. Há (pelo menos) um modo de mostrar isso e o filme o percebe.

O Brasil de hoje é um país no qual persistem os traços do autoritarismo fundador, que não é um traço ontológico “do povo”, mas cultivado por cima e que tornou hegemônico o grupo político-econômico que o agencia. Há um obsceno rombo entre as classes em disputa. A classe trabalhadora, que Cristiano (Aristides de Sousa) é expressão rigorosa, está em desvantagem dada a assimetria das forças em luta. O que Arábia propõe, no entanto, não é um inventário da luta de classes brasileira, ao modo de um Sérgio Bianchi, por exemplo. Não há o binarismo centro-periferia como estratégia de representação, tampouco como “noção” ou “conceito”. É mais sutil e, de certo modo, revigorante a história dessa desigualdade que a voz e o corpo ferido e esperançoso de Cristiano verbaliza e torna imagem. Imagem que a inversão valorativa da televisão e da publicidade (e também do cinema, da literatura…) já vulgarizou, tornou natural, incapaz de demonstrar.

O jovem André lê um diário deixado por Cristiano após este sofrer um acidente na fábrica de alumínio em que trabalha, em Ouro Preto, Minas Gerais. Cristiano relata boa parte de sua vida neste caderno pós-prisão, sua voz narrando desde o dia em que saiu do cárcere até dias antes do acidente. A leitura de suas notas de vida pelo jovem André acena para o narrador que interpreta aquilo que lê, como nós, espectadores, o fazemos com o filme. É dupla a narração pois Arábia assume a ambiguidade daquele universo, suas contradições e conflitos, as camadas do esquema de produção simbólica do que é o Brasil e o brasileiro trabalhador neste século. Cristiano, apesar de sua voz cansada, tem a auto-estima que esperam (esperamos?) que ele tenha. Ele crê, como sempre, na possibilidade de vencer a assimetria que o criou.

Ao sair da prisão, sua condição o faz saltar de trabalho em trabalho em busca do seu sustento, em busca, é claro, de uma vida melhor. Dar a volta por cima e recomeçar após perder a liberdade com o tempo mantido encarcerado, como diz a música dos Racionais que ele canta, não será sem suor e sangue. Com ele, temos a representação secular do trabalhador-operário no cinema brasileiro: no campo, na cidade, na estrada, na fábrica, seja onde for o precariado brasileiro é cena, é personagem, é modo de ver e de construir (e destruir) imagens e narração. É Cristiano quem narra, ainda que em segunda instância (é uma carta sua que é lida por André), é ele quem define o ponto de partida da leitura e escolhe um lugar para começar. Esse início é instável e conduz o espectador a abraçar essa instabilidade da narração, tal e qual a própria trajetória errante do personagem precipita.

Até alcançar a “maturidade” do entendimento de sua real condição e, modestamente, num grito não vocalizado, se imaginar conclamando todos os operários a interromperem os trabalhos e deixar incendiar a fábrica, Cristiano terá passado por muita coisa tentando preencher sua vida de sentido, terá conhecido, amado e perdido a mulher da sua vida, rodado Minas Gerais em busca de trabalho, se encantado e se desiludido com a perspectiva de sua existência.

Arábia é resultado de um esforço notável em considerar as circunstâncias sofridas que compõem a realidade nacional, que atravessa o Brasil inteiro e que o filme denuncia, esteticamente, com rigor e coerência formal. Ele parte, pois, do princípio não meritocrático de uma sociedade desigual para compreender a subjetividade a partir do trabalho objetivo, do material. No processo, encaminha finalmente (com um plano muito duro) o abalo mental e a resignação desse personagem não como alguém que desiste de tentar superar e vencer a instabilidade da vida, mas como quem simplesmente não deseja mais jogar seu jogo.

Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans, Brasil, 2017. Com Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Renata Cabral, Renan Rovida.

Pedro Henrique Gomes
Author

Crítico de cinema. Membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. É um dos editores do Zinematógrafo e colaborador das revistas Janela e Teorema. Publica no blog Tudo É Crítica. Aos finais de semana, se apresenta ao La Barca Futebol Clube. É um cara quieto, mas tá sempre observando.

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